UNIVERSIDADE POPULAR ABERTA DO III MILÊNIO

Integração Universidade-Empresa pode reverter a perda de competitividade Regional? O Caso da Indústria Petroquímica de Salvador

In Artigos on janeiro 27, 2010 at 3:11 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

O estudo de doutorado realizado por Maria das Graças Sodré Fraga Maia intitulado:  “A Integração Universidade-Empresa como Fator de Desenvolvimento Regional: Um Estudo da Região Metropolitana de Salvador”, baseado numa diversificada e abrangente revisão bibliográfica (437 referências), apresenta um panorama bem abrangente sobre o cenário da integração universidade – empresa, abordando os principais tópicos:

A HISTÓRIA DA INTEGRAÇÃO UNIVERSIDADE-EMPRESA – Mundo/ Brasil/ Bahia; Apoio à Integração Universidade/ Empresa – Entidades/ Programas/ Fontes de Financiamentos/ Fundos Setoriais;

MODELOS DE INTEGRAÇÃO – Relações Pessoais/ Informais/ Formais/ Institucionais/ Estruturas Especiais/ Impacto no Desenvolvimento Regional;

SISTEMA EMPRESARIAL BAIANO – Empresário/ Inovação/ Empreendedorismo/ Contexto Empresarial Baiano – Pólos Calçadista/ Automotivo/ Náutico/ Cerâmico/ Design/ Cosméticos/ Vestuário/ Moveleiro/ Papel e Celulose/ Mineração/ Sisaleiro/ Agronegócio/ Turísticos;

SISTEMA UNIVERSITÁRIO BAIANO – Periodização Histórica: 1808/1930 – 1968/ 1996 – 1996/ 1999 – Atualidade;

CASO DA INDÚSTRIA PETROQUIMICA – Setores/ Histórico e Desafios/ Pólos Petroquímicos)

Tendo como foco a análise de quatro (4) Instituições universitárias baianas: UFBA- Universidade Federal da Bahia; UNIFACS – Universidade de Salvador; UCSAL- Universidade Católica de Salvador; UNEB – Universidade do Estado da Bahia. E o segmento industrial petroquímico de Salvador, Maia realizou, entre os anos de 2002 e 2004, pesquisa empírica de campo  através de entrevistas pessoais semi-estruturadas e a aplicação de questionários segmentados para universidades e empresas enviados por mala direta.

Totalizaram 15 entrevistados do seguinte perfil: Universidades: 3 Chefes de Departamento, 2 Pró-Reitores de Pós Graduação, Pesquisa e Extensão, 1 Coordenador de Curso de Pós Graduação  e 2 Pesquisadores; Empresas: 2 proprietários, 1 superintendente, 2 diretores de área e 1 gerente de P&D. Já nos questionários por mala direta, dos 36 enviados, 12 foram respondidos. As funções dos respondentes eram: Coordenador de Qualidade, coordenador de P&D, Gerente, Assessor da Diretoria, Técnico Administrativo, Analista de Recursos Humanos.

A Hipótese central que orienta o seu estudo é: a baixa integração universidade e empresa na rms (região metropolitana de salvador) deve-se à interveniência de variáveis temporais; geográficas, culturais, econômicas e políticas. Esta sua hipótese central foi desdobrada em 6 hipóteses parciais que foram respondidas em suas conclusões:

1-) O recente envolvimento da universidade baiana com a área petroquímica ratifica a dificuldade encontrada no processo de integração;

2-)  A reduzida contribuição para a produção tecnológica por parte das universidades da RMS, reduz a motivação para a integração;

3-) A transferência de grandes empresas da RMS para o Sudeste-Sul do país e a migração de recursos humanos qualificados dificultam a integração;

4-) A parceria profissional entre acadêmicos e empresários é dificultada pela diversidade tecnológica entre ambos;

5-) A inexperiência dos pesquisadores em atividades empresariais dificulta a integração na RMS;

6-) A existência de número significativo de pequenas e micro-empresas na RMS reduz a possibilidade de integração.

As dificuldades para a integração universidade-empresa em seu estudo são muito bem sintetizadas no quadro Barreiras a Integração Universidade – Empresa.

QUADRO 1 – Barreiras à integração
NATUREZA UNIVERSIDADE EMPRESA
C

U

L

T

U

R

A

I

S

Lógica de Funcionamento Liberdade acadêmica Controle empresarial
Objetivo perseguido Formação de recursos humanos e criação e disseminação do conhecimento através do ensino e da pesquisa Produção e geração de riqueza. Portanto, lucro, através da produtividade e crescimento no longo prazo
Visão de pesquisa Ser orientada para o setor produtivo, caracteriza uma ciência impura Atendimento do mercado com produtos competitivos, menor custo e maior retorno
Maior preocupação Formação conceitual e acadêmica As teorias são inaplicáveis e distanciadas da vida real
Tempo dispendido Pesquisa de longo prazo, visão prospectiva Soluções de curto prazo, visão imediatista
Apropriação dos Resultados Publicação dos resultados Necessidade de sigilo e segredo. Proteção empresarial
Representação do conhecimento Publicação – transmissão de conhecimentos. (Conhecimento como patrimônio universal) Aplicação – transformação dos conhecimentos em novos produtos, processos, sistemas organizacionais. (Conhecimento como propriedade privada)
Medição de sucesso/ recompensa Número de publicações, citações, palestraa proferidas, prêmios obtidos Aumentos salariais, ascensão hierárquica, participação nos resultados financeiros
Filosofia das administrações Realização das necessidades sociais Satisfação do interesse dos proprietários
O

R

G

A

N

I

Z

A

C

I

O

N

A

I

S

Tecnologia Grande capacidade de desenvolvimento 1) é mais rápido e financeiramente viável licenciar do que desenvolver

2) Reduzida capacidade de absorção de tecnologia

Comunicação Pesquisador desconhece a linguagem administrativa Os pequenos e médios empresários, quando buscam informação têm dificuldades de dizer o que querem
Estrutura Complexa. Envolve Colegiados, por isso decisões demandam maior tempo Necessidade de estrutura mais hierarquizada, para promover a rapidez, na tomada de decisões
P

R

O

F

I

S

S

I

O

N

A

I

S

P

E

S

S

O

A

I

S

Grau de atualização Docentes preparados para a pesquisa Equipes desmotivadas e desatualizadas (mudando)
Formação Monodisciplinar Necessidade de conhecimentos interdisciplinares
Grau de conhecimento outro Dificuldade de conhecer a realidade Falta de conhecimento do potencial e da capacidade das universidades
Tipo de pesquisa Maior valorização da pesquisa pura que da aplicada. Receio de mudança na direção, como manter a orientação para o desenvolvimento de produtos Necessidade de pesquisa aplicada, para a resolução de problemas
Habilidades exigidas Professor e pesquisador Administradores ou gerentes de recursos
Contato com a realidade Falta prática dos pesquisadores Necessidade de conhecimento prático
Fonte: Quadro elaborado a partir das leituras de: Rappel (1999), Alvim (1998), Cunha (2001), Velho (1996), Souza e Brandão (1999), Campos (1999), Nunes (1995), Segatto (1996), Natividade (2001), Vieira (2001), Cruz (2000).
MAIA, Maria das Graças Sodré Fraga – “A Integração Universidade-Empresa como fator de Desenvolvimento Regional: Um Estudo da Região Metropolitana de Salvador” – Tese de Doutorado – Universidade de Barcelona – 2005 – Págs. 44

Graduada/ Mestre em Administração (UNIFACS – 1978; UFBA – 1996 – Projeto Integrado Monográfico/ Dissertativo –  “Competitividade das Indústrias de Confecção de Salvador: um enfoque de custos”), Vice-Reitora para Desenvolvimento Interno da UNIVERSIDADE DE SALVADOR (UNIFACS), onde se bacharelou e atua desde 1979, cuja origem é a antiga Escola de Administração de Empresas da Bahia (1972), que atualmente conta, segundo o seu site, com trinta e oito (38) Grupos de Pesquisa (Engenharias e Ciência da Computação; Ciências Sociais Aplicadas e Humanidades) cadastrados na Plataforma Lattes (CNPq), Maia, apresenta as principais conclusões sobre a baixa integração universidade – empresa na Região Metropolitana de Salvador (Considerações Finais – Págs. 271/ 280):

  • A relação recente das universidades com as empresas.
  • A reduzida integração entre as universidades locais.
  • O reduzido número de cursos voltados para a área tecnológica. A diversidade ideológica entre acadêmicos e empresários.
  • A deficiente infra-estrutura laboratorial das universidades baianas, além da pouca disponibilidade de tempo dos docentes, seja pela elevada carga horária, seja pela diversidade de atividades realizadas, concorre para dificultar a execução de projetos de pesquisa.

Considera um dos pontos críticos da integração na RMS (Região Metropolitana de Salvador) a transferência da sede de muitas empresas de grande porte para o Sudeste/ Sul, onde as universidades são bem mais adiantadas em tecnologia petroquímica e outras, correlatas, considerando que embora o papel de inovar seja da empresa, universidades como a Unicamp, USP, UFRJ, entre outras, dispõem de  várias criações tecnológicas inovadoras, patenteadas e prontas para desenvolvimento e transferência para a indústria. Cita como um dos exemplos o Instituto de Macromoléculas da UFRJ, que mantém convênios com várias empresas (Petrobrás, Petroflex, Rhodia, Ipiranga, Nawa etc.) e intercâmbio com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Unicamp, USP, Universidade Federal de São Carlos, além de universidades no exterior e institutos de pesquisas.

O estudo de Maia traz grandes contribuições à nossa reflexão sobre a importância da integração universidade-empresa como fator de alavancamento econômico- regional, porém, se situado numa visão jornalística contraditória, poderiam ser feitos os seguintes questionamentos:

1- O Polo Petroquimico de Camaçari implantado durante o governo Geisel (1974/ 1978), que ocupara anteriormente a presidência da Petrobrás, baseado no chamado modelo economico tri-partite (composição acionária de capital: nacional/ estatal/ multinacional – gestão partilhada por holdings: petroquisa/ norquisa), idealizado por Rômulo de Almeida (think tank baiano – chefe da assessoria econômica – governo vargas – década 1950), foi analisado na dissertação de mestrado de Marcus Alban Suarez (Petroquimica e Tecnoburocracia – Capítulos do Desenvolvimento Capitalista no Brasil – EAESP/ FGV – Orientadores: Henrique Ratner/Luiz Carlos Bresser Pereira – 1985), mostrando claramente que dado seu artificialismo intervencionista (resultados econômicos baseados em reserva de mercado/ lobby político), sofreria forte impacto negativo/ inviabilização operacional no contexto de uma economia capitalista aberta/ globalizada, como de fato passou a ocorrer a partir da década de 1990. Será que estes fatores histórico-estruturais desconsiderados no trabalho não seriam mais significativos como barreiras a integração universidade-empresa na região petroquímica de Salvador, do que as sugeridas pela autora?

2- Bibliografias como: FORMAÇÃO DA COMUNIDADE CIENTÍFICA NO BRASIL/ UNIVERSIDADES E INSTITUIÇÕES CIENTÍFICAS NO RIO DE JANEIRO – Simon Schwartzman; HISTÓRIA DA CIENCIA NO BRASIL – Acervo de Depoimentos – FINEP/ CPDOC-FGV (UNICAMP – ZEFERINO VAZ; COPPE/ UFRJ – ALBERTO COIMBRA; INSTITUTO DE BIOFÍSICA/ UFRJ – CARLOS CHAGAS FILHO);  MONTENEGRO – As Aventuras do Marechal que fez uma Revolução nos Céus do Brasil – Fernando Morais;  IMA-INSTITUTO DE MACROMOLÉUCLAS – 30 Anos – 1977/ 2007  – Prof. Eloísa Biasotto Mano; PASTEUR – Biografia Não Autorizada; resgatam a historicidade e a gênese de como foram construídos e desenvolvidos os principais centros pensantes do Brasil. Apesar das 437 referencias utilizadas por Maia, tais fontes foram desconsideradas. Será que a maior integração das empresas com as universidades da região sudeste e sul, não estariam mais ligadas a produção intelectual de fronteira desses centros Pensantes, necessitando resgatar a sua historicidade e gênese de como foram construídos, para contrapor á realidade encontrada na Região Metropolitana de Salvador e servir de paradigma para o seu desenvolvimento?

3- A metodologia utilizada pela autora, denominada de diagnóstico analítico descritivo por indução, é baseada num texto antigo de MOTTA, Paulo Roberto de Mendonça (Diagnóstico e inovação organizacional: dimensões teóricas.coletâneas Modernização Administrativa e Diagnóstico Administrativo. IBAM, 1976), centrado em projetos de consultoria. Considerando a definição de Newton Sucupira no parecer 977/ 1965, que regulamenta a pós graduação no Brasil, podemos considerar este estudo de doutorado, verdadeira pesquisa cientifica Stricto Sensu, voltada para estudar um caso particular para, a partir daí, extrair uma teoria geral, ou caracteriza-se mais como um projeto de consultoria, voltado para aplicação em casos específicos?

Repara-se que apesar da comunicação ser apresentada como uma das barreiras a integração. Tal fator não tem importância central no estudo de Maia, como constata-se em suas conclusões, como alavancador do Desenvolvimento Regional e da Integração Universidade-Empresa.

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