UNIVERSIDADE POPULAR ABERTA DO III MILÊNIO

HIGHER EDUCATION FOR BUSINESS, O LIVRO QUE REVOLUCIONOU O ENSINO DE ADMINISTRAÇÃO NO BRASIL, COMPLETA 50 ANOS

In Artigos on janeiro 13, 2010 at 1:35 am

POR MARCELO GUIMARÃES

Administrador: Conheça a sua Fonte de Origem

Poucos são os livros que entram para a historia por influenciar a formação de pensamento de inúmeras gerações. Quando isso ocorre, os definimos como clássicos. A sua leitura e citação torna-se quase que obrigatória para entender-se, em profundidade, determinado assunto. Contamina alunos, professores, fundamentando a base em que  será desenvolvida toda uma linha de pensamento e raciocínio, toda uma escola. Similar ao ocorrido nas religiões, em que a bíblia seria o livro clássico e, de acordo com a sua interpretação, são geradas diversas ramificações.

O ensino de administração no Brasil também possui a sua bíblia. O livro Higher Education for Business.

Lançado há mais de 50 anos, em 1959, por Robert Aaron Gardon e James Edwin Howell, pela editora da Universidade de Columbia, o livro, um estudo encomendado pela Ford Foundation para diagnosticar e repensar todo o ensino de business administration nos Estados Unidos, preparando a nação com recursos humanos/ quadros capazes de atender a consolidação do sistema capitalista durante a Guerra Fria, caracterizado, à época, principalmente pela expansão das multinacionais, constitui a gênese e o DNA do pensamento administrativo brasileiro.

Fruto da necessidade de capacitar melhor os futuros executivos, principalmente, de grandes empresas, através da formação universitária, em contraste a uma formação prática e intuitiva, típica dos gestores de empresas pequenas, e familiares, diante das transformações e necessidades organizacionais surgidas na passagem do denominado capitalismo financeiro monopolista para o capitalismo informacional e a crescente globalização da economia, seus conceitos permeiam, até hoje, o projeto pedagógico dos cursos de administração tupiniquins.

Diferentemente do habitualmente propalado sobre as características do ensino de administração, de que se trata de um curso prático e instrumental, de baixa capacidade reflexiva e teórica, totalmente voltado para o mercado de trabalho, similar a um profissionalizante, este tratado chega a seguinte conclusão: o ensino de administração deve ser mais teórico do que prático, enfatizando uma formação generalista, e não técnica-funcional, devendo possuir, em sua base curricular, 60% de matérias de formação geral, de ciências humanas, sociais e naturais, como: filosofia, sociologia, antropologia, ciência política, literatura, psicologia e matemática. E o restante de matérias organizacionais, como: finanças, produção, recursos humanos e marketing; e instrumentais, como: economia, direito, contabilidade e estatística.

Em suas 491 páginas, num total de dezoito capítulos, divididos em cinco partes principais: 1- The Present State of Business Education; 2- The Needs to be Served: The Development of Business Competence; 3- A Critical Survey of Business Curricula; 4- Students, Faculty, Teaching, and Research; 5- The Need for Action; é possível entender toda a filosofia de uma Business School. Os conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias a um businessman de sucesso. Os perfis de alunos e professores. A estrutura curricular e o seu projeto pedagógico. As oportunidades profissionais diversificadas no campo da gestão. Programas de graduação, pós graduação, especialização e MBA`s.

Recentemente tive oportunidade de realizar amplo estudo sobre o ensino de administração no Brasil, com ênfase na elaboração de projetos pedagógicos, tendo pesquisado, dentre outras obras: O Novo Currículo da Graduação em Administração da UFRJ, elaborado pelo professor titular Carlos Alberto Fontenelle Bessa em 1994; a recente tese de doutorado do professor Synval de Sant’Anna Reis Netto, Uma  contribuição educacional ao Curso de Graduação em Administração : formação do perfil gerencial para o século XXI, as obras do autor best seller, o Paulo Coelho sobre o ensino de administração, Rui Otavio Bernardes de Andrade, Projeto Pedagógico Para Cursos de Administração, Gestão de Cursos de Administração e Gestão de Instituições de Ensino. Apesar das propostas feitas serem, em boa parte, similares às presentes no livro de Gordon, há um total desconhecimento sobre a sua obra, que não é citada em nenhuma das bibliografias.

HIGHER EDUCATION FOR BUSINESS E KARL MARX

Apesar de ser um estudo baseado nos cursos de administração dos Estados Unidos, a sua influencia é marcante no Brasil. A implantação e consolidação da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, primeiro curso de administração de empresas brasileiro em nível universitário, de 1954, (já existia a ESAN- Escola Superior de Administração de Negócios de São Paulo, fundada, em 1941, pelo padre jesuíta Sabóia de Medeiros, porém, não era considerada de nível superior), teve a sua filosofia de ensino estruturada nas propostas do Higher Education for Business.

Mesmo sendo lançado em 1959, após a criação da escola, as suas conclusões norteavam as diretrizes da missão americana da Michigan State University, responsável pela sua implantação, promovendo o intercambio e a formação de professores, parte do acordo assinado entre o Brasil e Estados Unidos, através do MEC-Ministério da Educação e Cultura e USAID- United States Agency for International Development, denominado ponto 4, durante o período desenvolvimentista brasileiro, sob a presidência de Getulio Vargas, que suicidou-se em 1954, ano de fundação da escola, e buscava aprimorar a formação de pessoal qualificado para a administração publica e privada, desde a criação do DASP- Departamento Administrativo do Setor Publico em 1938, sob a liderança de Luis Simões Lopes, que exerceu, quase como numa ditadura, a presidência da FGV de 1944 a 1992.

A transposição deste modelo generalista proposto no livro para as condições brasileiras da época, provocou o surgimento de um pensamento administrativo heterodoxo e original. É o que constatou Luis Eduardo Potsch, em sua tese de doutorado: O Modelo de Educação em Negócios da FGV/SP (1954/ 1986). Os alunos, nos dois primeiros anos, de formação básica, sofriam grande influencia, principalmente, das obras de Karl Marx, através de seus professores de pensamento materialista histórico dialético, em grande parte, formados na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP, na Rua Maria Antonia.

Quando, nos anos posteriores, os alunos tinham que cursar as matérias profissionais, já estavam com a cabeça feita, questionando, inclusive, o próprio sistema. Não é à toa, que o professor Luis Carlos Bresser Pereira, em seu artigo GV-A Formação Contraditória das Classes Dominantes, publicado em março de 1980 na revista Senhor, faz as seguintes afirmações sobre a escola: “Para alguns, uma agencia ideológica da burguesia; para outros, uma ponta de lança das empresas multinacionais; para outros ainda, uma escola com perigosas tendências esquerdistas.”

Tal “tendência esquerdista” motivou, inclusive, a professora Maria de Lourdes Covre, à época, aluna da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP, a estudar se, diante de tanta influência marxista, de que lado o administrador de empresas formado pela GV, ficava na hora H: do lado do capital ou do trabalho? Chegando a conclusão, aparentemente óbvia, se não fosse esta influencia heterodoxa, em seu livro, A Formação e a Ideologia do Administrador de Empresa, de que o administrador serve aos interesses da acumulação do capital.

A GV caracterizou-se por estabelecer uma grande integração com as empresas, convidando grandes empresários para comporem o seu conselho administrativo, numa gestão colegiada. Caco Barcelos em artigo publicado na revista Senhor em 1980, intitulado: GV – A Escola do Poder: Difícil encontrar uma grande empresa que não tenha um ou vários executivos formado por essa escola de líderes; mostra o sucesso deste modelo. Porém, dizem as más línguas, que o sucesso da escola deveu-se mais ao sobrenome dos seus alunos, das elites dirigentes, do que à sua proposta de ensino inovadora. A “máfia” da EAESP.

Fofocas a parte, na realidade, a EAESP foi modelo para a implantação dos posteriores cursos de administração no Brasil, além de ter sido a principal referência para se estabelecer o Currículo Mínimo do Curso de Administração, através do Parecer MEC n° 307/ 66, cujo relator, foi o professor Durmeval Trigueiro Mendes.

Todos os cursos de administração no Brasil possuem, direta e indiretamente, alguma semente da GV e, consequentemente, de Higher Education for Business em sua fórmula, mesmo que a maior parte da comunidade acadêmica, e pasmem, até o próprio Conselho de Administração, responsável em regulamentar a profissão de administrador, não tenha consciência disso.

Assim como há muitos praticantes religiosos que não leram a bíblia, temos, em relação ao ensino de administração no Brasil, a mesma situação. Muitos não leram a bíblia Higher Education for Business. São muitos praticantes, sem saber a fonte teórica do seu surgimento.

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  1. Excelente resenha, parabens!

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