UNIVERSIDADE POPULAR ABERTA DO III MILÊNIO

Carlos Alberto Serpa, Presidente da Fundação CESGRANRIO: “O autodidatismo é estratégico nos dias de hoje”

In Entrevistas on janeiro 6, 2010 at 11:25 am

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/UFRJ

Carlos Alberto Serpa, presidente da Fundação CESGRANRIO: "O empreendedorismo é uma grande mudança ocorrida na cabeça das pessoas. Passam a adotar visão de patrão e não de trabalhador"

Carlos Alberto Serpa de Oliveira, possui graduação em Engenharia Industrial e Metalúrgica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1964) . Atualmente é Presidente da Fundação Cesgranrio, Diretor da Casa de Arte e Cultura Julieta de Serpa, Membro do Conselho da International Association of University Presidents, Presidente do Associação Cultural da Arquidiocese do Rio de Janeiro, Membro do Conselho Diretor da Faculdades Católicas (Associação Mantenedora da PUC/RJ), Primary Member da International Association for Educational Assessment e Consultor do International Linkages da National Association of State. Foi reitor interino, e vice-reitor da PUC Rio. A atuação da FUNDAÇÃO CESGRANRIO, criada em 1971, extrapola as atividades de seleção, pois se volta, também, para planejamentos e pesquisas sócio-educacionais; treinamento, reciclagem e aprimoramento de recursos humanos; promoção de congressos, seminários e simpósios nacionais e internacionais; consultoria organizacional/empresarial; entre outras.A FUNDAÇÃO CESGRANRIO tem como atividades principais: Avaliação; Mestrado em Avaliação; Capacitação de Professores; Certificação; Área de Pesquisa; Área de Saúde; Área social; Área cultural; Fóruns; Publicações; Vestibulares;Concursos públicos e/ou processos seletivos públicos. Conheça um pouco mais sobre a visão deste discípulo do Professor Newton Sucupira.

Quais os principais desafios enfrentados hoje pela universidade?

Serpa: A universidade brasileira vive hoje um momento das maiores contradições de sua história, porque antigamente formavam-se as pessoas para uma realidade praticamente estável. Tinha-se uma formação básica e profissional adequada a realidade do mercado de trabalho. Entre a investigação e a inovação, que é a aplicação no dia-dia, o tempo está cada vez menor. Antigamente, inventava-se algo, que era aplicado quarenta anos depois, hoje, em países desenvolvidos como o Japão, por exemplo, este tempo entre a pesquisa e a aplicação da inovação, às vezes, é de dois anos. Isso faz com que nenhum curso seja capaz de preparar para a realidade de uma empresa que tenha ciência e tecnologia como seu foco de ação. Hoje, pela dinâmica da realidade, a indissociabilidade entre a pesquisa, o ensino e a extensão, consagrada por Newton Sicupira, é mais que necessária. É inviável ensinar sem pesquisar, pois estará ensinando para um mundo diferente da realidade que o formando encontrará. O contexto mudou.

Esta mudança ocorre em todas áreas do saber?

Serpa: Isso é menos acentuado na área de ciências humanas e sociais, que possui uma estabilidade maior em seu núcleo central. Há mudanças de conceitos, dogmas, a maneira de encarar a realidade social, mas muda menos velozmente que a ciência e tecnologia. A filosofia, a sociologia passaram a ser mais valorizadas hoje, antes, eram considerados mais viagens intelectuais.  Hoje há profissionais utilizando esses conceitos no dia-dia. Os projetos de políticas sociais e públicas são bons exemplos de sua funcionalidade. Mas na ciência e tecnologia, a aplicação é mais visível.

O que a universidade deveria fazer?

Serpa: A universidade tem que dar uma forte base de educação geral, dos conceitos básicos, que não mudam facilmente. Fazer isso, estimulando que o formando seja dono de sua própria carreira, patrão de si mesmo no futuro. O empreendedorismo é uma grande mudança ocorrida na cabeça das pessoas, que passam a adotar visão de patrão e não de trabalhador. Essa é uma nova abordagem na universidade, uma modernização. Para isso, o ensino fundamental e médio devem mudar também as suas idéias. Necessitam de professores formados em nível superior em maior quantidade e qualidade com esta nova mentalidade. O professor deixou de ser uma figura respeitada, um ídolo, como antigamente. Hoje, o aluno olha o professor com grande desprezo, muitas vezes, desrespeito. A dignificação da carreira docente também é importante. O ensino básico e superior tem que caminhar juntos.

Quais as mudanças que ocorrem nesta integração?

Serpa: A universidade hoje ampara o nascimento de uma empresa. Essa nova relação tem trazido benefícios e avanços enormes para a sociedade. Esse conceito de incubadora de empresas é muito importante. Passou a ser a oportunidade de a universidade ir e voltar dentro da empresa, estreitando esse laço, e se aproximando da realidade. A parceria é um fenômeno do século XXI. Quem pensa que sozinho pode realizar alguma coisa está fadado ao fracasso. A complementação entre as pessoas, a unidade diante das diversidades, juntas, criam algo importante. Universidade e empresa devem ser parceiras. O incentivo fiscal, também, é importante para estimular as empresas a se envolverem em projetos ligados a pesquisa, principalmente, nas pequenas e médias empresas.

E as mudanças no corpo docente?

Serpa: O corpo docente mudou nos seus interesses. Antigamente tinha um foco muito voltado para a pesquisa pura, de professores de horário integral, pesquisadores, doutores. De repente, ocorre uma revolução, a empresa entra na universidade, a extensão adquire uma nova concepção, que antes era de mera prestação de serviços. Passamos a ter grandes saltos tecnológicos. A sociedade mudou, a universidade mudou, o perfil do aluno mudou.

O professor Newton Sucupira, quem definiu o conceito de pós graduação no Brasil, através do Parecer MEC 977/65, foi um grande influenciador de Serpa

Qual a sua visão sobre o estágio?

Serpa: A noção de estágio é um aprendizado muito mais importante que antigamente, pois faz parte integrante da formação do indivíduo que entrará no mercado de trabalho. Hoje, auxilia a adiantar o que vai ser o futuro para comparar com a teoria que você está recebendo no presente. Não para deter uma técnica, um instrumento para ser aplicado imediatamente, mas sim, para ampliar a visão sobre as possibilidades de realizações que podem ser feitas dali para frente, como se fosse a abertura de uma janela.


O autodidatismo é importante nos dias de hoje?

Serpa: O autodidatismo é estratégico nos dias de hoje. Será cada vez mais necessário e estará presente, crescentemente, na vida das pessoas. Atualizações formais, via pós-graduação, cursos de especialização, entre outras, não serão suficientes. Mudou a realidade do mercado de trabalho. Cada vez mais o lazer e o turismo crescerão. O tempo do trabalho no conceito de antigamente, de suor, de força, diminui nesse cenário. Educação e formação ganham importância cada vez maior. Tem que aprender a se renovar por si só. Aprender a aprender pelo resto da vida. Se for um engenheiro mecânico, por exemplo, tem que aprender sobre petróleo. E assim por diante.

Como “diplomar” esta auto-aprendizagem?

Serpa: Hoje, a própria dinâmica do nosso sistema educacional é no sentido de permitir que tudo aprendido na vida, e que não são ensinados no banco escolar, seja considerado como portfólio na sua formação. Por exemplo: Amador Aguiar e Magalhães Pinto. Eles aprenderam tudo que a vida pode oferecer, sem aprender em banco escolar. Ninguém reconheceu nenhum atributo acadêmico neles. Hoje poder ser certificado. A certificação permite isso. Buscar mais subjetividades. A certificação é a conseqüência prática da auto-aprendizagem, que é um fenômeno do mundo moderno, além de ser um fator de inclusão social.

A Fundação CESGRANRIO nasceu de uma associação pioneira de 12 instituições universitárias em 1971, que tornou possível a criação do Centro de Seleção de Candidatos ao Ensino Superior do Grande Rio

O que fazer para melhorar a relação ensino-aprendizagem?

Serpa: Promover a melhoria na formação do corpo docente, não tanto no sentido acadêmico, mas incorporando processos mais modernos, enfatizando-se mais a formação, e não tanto a informação. O velho conflito entre a pedagogia, como ato de educar, e o conteúdo, como ato de saber, de adquirir conhecimentos. Há pessoas que defendem que o professor numa determinada formação, deva ser bom, conhecer e dominar profundamente o assunto; há outras que defendem que mais importante que conhecer algo, é ter pedagogia para fazer o aluno aprender. Educar é tirar de dentro para fora. Vai trabalhar o interior. Ensinar no sentido de Instruir é o contrario. O ato de ensinar no sentido de transmitir conhecimentos é menos importante que o seu ato de aprender. Domina-se a visão de transmissão de conhecimento, ao invés de educador. Esta dicotomia entre ensinar e aprender vai à raiz de nossa educação. O processo fundamental no ensino-aprendizagem também é a auto- estima. Por isso também a importância da avaliação. O professor que reprova o aluno por 0,1 por exemplo, considerando apenas a avaliação naquele momento, é como cometesse um crime, pois acaba com a auto-estima do aluno, desestimulando-o. Gera alto índice de evasão e repetência, às vezes, desnecessariamente.


Formação multidisciplinar é cada vez mais importante?

Serpa:Acabou a especialização hoje no mundo. Tem que ser um generalista com grande capacidade de adaptação e visão multidisciplinar. A falta de orientação profissional nisto é um problema. As pessoas se especializam e ficam “bitoladas” naquilo. Os EUA foi o grande defensor disto. Até brincava-se, em  relação ao grau de especialização do engenheiro mecânico americano. Dizia-se que tinha o engenheiro de porca e o engenheiro de parafuso. Um não sabia mexer na porca e outro no parafuso, apesar de um não existir sem o outro. Essa é uma paródia para criticar o excesso de especialização. A realidade hoje é outra.

Qual a sua visão sobre o novo ENEM?

Serpa: Possui três características fundamentais: 1- interdisciplinaridade – na vida você não vai separar os conhecimentos, ele está integrado. 2- Não é uma prova básica de conhecimentos, busca avaliar as suas aptidões, as suas capacidades e habilidades. Buscar saber como você pensa, a sua capacidade de resolver questões, de interpretar. Isso é muito mais importante para a sua vida do que o famoso decoreba. 3- Tem um grande desafio de fazer um número de questões para garantir a universalidade dos conhecimentos a que o aluno foi submetido. Não acredito nesses meus 50 anos de vestibular, que algum instrumento seja forte suficiente para mudar o sistema de ensino. É um indicador para mostrar o que se espera que uma escola faça em relação ao ensino, tanto para cima, quanto para baixo. É um marco regulatório importante. Um bom sinalizador.

Liderança é aprendida?

Serpa: Liderança está dentro do indivíduo. O contexto faz com que aflore. Acredito que líder vem do berço, não tem como desenvolver artificialmente.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: