UNIVERSIDADE POPULAR ABERTA DO III MILÊNIO

Paulo Alcântara Gomes: “Matérias de gestão e empreendedorismo deveriam ter em todos os cursos, até em filosofia”

In Entrevistas on janeiro 5, 2010 at 11:56 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/UFRJ

Paulo Alcantara Gomes: “Se não tem formação multidisciplinar, não está formando o profissional para o século XXI”

Paulo Alcântara Gomes é Presidente do Conselho Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro, do Conselho Diretor da Rede de Tecnologia do Rio de Janeiro e do Conselho Deliberativo do SEBRAE Rio. Ex-presidente do CRUB (Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras), livre docente e ex-reitor da UFRJ, o atual reitor da Universidade Castelo Branco,  possui graduação em Licenciatura em Física (1966) e Engenharia Civil (1967) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro , mestrado (1968) e doutorado (1977) em Engenharia Civil pelo Instituto Alberto Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE). É um dos discípulos de Alberto Luiz Coimbra, responsável pela implantação da primeira pós graduação stricto sensu no Brasil, de engenharia química, que desdobrou-se no COPPE . Até hoje, faz constantes visitas ao professor Coimbra em sua casa em Teresópolis. Conheça um pouco mais a visão de Alcântara.

Como avalia a atual integração entre universidade e empresa?

P.A.G.: Não existe integração, mas sim articulação, pois possuem objetivos distintos. O objetivo da universidade é formar profissionais, gerar novos conhecimentos, aprofundá-los e difundi-los. Já o objetivo da empresa é desenvolver processos, produtos e metas. Duas coisas diferentes, não podem se integrar, mas se articular. Essa articulação no Brasil ainda é muito incipiente, pois falta para as empresas uma cultura da competitividade. Isso vem mudando no mundo inteiro, mas as empresas brasileiras ainda não entenderam que podem utilizar a universidade para o desenvolvimento da cultura da competitividade, inovando, adaptando tecnologias, apropriando essas tecnologias ou executando-as. Este é um ponto crítico das empresas brasileiras, principalmente, as micro e pequenas, são muito problemáticas. Muitas são criadas sem um projeto. Isso leva à inúumeras falências, precocemente. Para melhorar é necessário assegurar uma melhor formação de quadros gerenciais. As universidades, apesar de possuírem programas regulares formais de graduação e pós graduação, ainda não conseguiram, por exemplo, disponibilizar cursos de curta duração capazes de atender a necessidade dessas empresas.

No lado das empresas, o que poderia ser feito para melhorar esta integração?

P.A.G.: Buscar as universidades para buscar aprimorar a formação de seus profissionais com cursos dentro da empresa. Levar para a universidade, projetos que ela possa desenvolver. Nos EUA existe um open house ao contrário, ao invés de as universidades mostrarem seus laboratórios, os empresários levam os problemas para a universidade, que propõe soluções. Isto pode ser feito e deve ser estimulado.

O que é valorizado na formação, hoje, pelas empresas?

P.A.G.: Hoje, tem três parâmetros importantes: 1- a empresa exige agilidade na formação para entrar mais rapidamente no mercado; 2- compromisso com a nova tecnologia da informação e comunicação, que vão gerar uma cultura da educação continuada; e 3- compromisso com a responsabilidade social, que faz parte do dia-dia de qualquer cidadão.


Qual um dos principais problemas da universidade?

P.A.G.: As universidades estão com as estruturas curriculares muito pesadas. Cargas horárias muito elevadas. Programas conceitualmente bem elaborados, mas com pouca adaptabilidade ao emprego nos diversos setores. Quando a universidade adotou tempo integral para os seus professores, abandonou um grande contingente de pessoas que tinham experiência empresarial, tanto na gerência, como na execução e no desenvolvimento de novas tecnologias. Esses professores de tempo parcial desapareceram, prejudicando as universidades e a aproximação com as empresas.

O que poderia melhorar pelas universidades?

P.A.G.: A universidade tem que reformular sua estrutura curricular. Para isso, tem que mudar o projeto pedagógico. O perfil do egresso profissional das universidades possui alguns pontos críticos. Um ponto é que os profissionais que formamos são capazes de formular problemas, mas nem sempre são bons para propor soluções. Tem que estimular no currículo que ao lado da formulação de problemas, acompanha-se a solução. No NCE – Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ, na época em que o Paulo Bianchi era coordenador, havia uma frase muito interessante: “se você tem um problema, mas não tem a sua solução, você virou parte deste problema.” Outro ponto importante é fortalecer a sua linha de prestação de serviços, tanto nas empresas de ponta, quanto nas médias e pequenas empresas. Isso para todas as áreas do conhecimento.

PIT STOP em TERESÓPOLIS. O professor Alberto Luiz Coimbra, responsável pela primeira pós graduação stricto sensu do Brasil, foi um grande influenciador de Alcântara. Seminários em sua casa em Teresópolis são constantes

A estrutura da universidade, por departamentos, dificulta a integração?

P.A.G.: Em parte sim. A estrutura da universidade departamentalizada está desaparecendo, muitas, já não possuem, pois na sociedade do conhecimento a tônica é a interdisciplinaridade. As transformações ocorrem numa velocidade cada vez maior e as estruturas tem que mudar. Hoje as áreas permeiam umas com as outras. As linguagens se cruzam nas diversas áreas do saber, estão interligadas. Tem que organizar as universidades como grandes escolas, que tenham grande capilaridade entre as diversas áreas do conhecimento, preservando a multi e a transdisciplinaridade. Isso seria feito definindo um plano estratégico para a universidade, reorganizando a sua estrutura por campos do saber ou laboratórios, por exemplo.


Deveria enfatizar-se mais o ciclo básico na formação universitária?

P.A.G.: Não existe mais ciclo básico. Existem hoje três núcleos de matérias na universidade: de formação geral; de formação profissional geral; e de formação profissional especifica. Em formação geral temos as matérias ligadas a cidadania. Por exemplo: Contexto brasileiro, empreendedorismo, sociologia, informática. Presente em todos os cursos. Nas estruturas curriculares, elas deveriam ser inseridas no decorrer do curso, não somente no inicio, pois isso leva ao abandono. Misturar alunos de distintas áreas e períodos, também recupera a noção de universidade. Em profissional geral temos, por exemplo, em Administração, matemática financeira. Atende também ao curso de contabilidade, economia, atuária. Em profissional específica  são as matérias ligadas a determinada área. Tem que repensar a estrutura curricular diante destes núcleos de matérias. O ciclo básico afasta os alunos.


Qual você considera a principal causa de abandono de curso?

P.A.G.: A configuração de uma incompatibilidade entre o que o aluno esperava do curso, e o que encontra no curso. Por exemplo, em engenharia, muitos alunos desistem, pois tem muito contato com física e matemática, sem ter contato com produção. Este foi meu caso. Na medicina isso não ocorre porque no primeiro dia ele já vai para o laboratório de anatomia, tendo contato com a realidade.

Como este contato com a realidade poderia ser estimulado?

P.A.G.: Eu defendo que ao invés de ter um trabalho de conclusão de curso, seja feito trabalho de conclusão em todas as disciplinas, integrando com um tema mais geral. Isso facilitaria a integração do projeto curricular como um todo. Na Universidade Castelo Branco, por exemplo, estamos desenvolvendo um projeto chamado Mão na Massa, que busca aproximar o aluno com a realidade da profissão, realizando inúmeros trabalhos de campo.

Formação universitária multidisciplinar é cada vez mais necessária?

P.A.G.: Ela não é necessária, é decisiva. Se não tem formação multidisciplinar não está formando o profissional para o século XXI. A universidade está muito atrasada nisso. Ela é pouco ágil e flexível. No Brasil e nas universidades há muitas resistências a inovação. É importante todo o programa que estimule a multidisciplinaridade. Quando se articula áreas diferenciadas, que estão afastadas, aprimora a formação do profissional, do cidadão, na amplitude e no aprofundamento dos conhecimentos.

O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas tem importante papel na integração universidade-empresa para Alcântara

Como ex-presidente do CRUB, acha que as universidades estão mais sensibilizadas para esta formação multidisciplinar?

P.A.G.: As universidades estão mais sensíveis, mas as normas existentes no Brasil restringem o avanço. Há um excesso de controle credencialista, em relação aos diplomas. Há pouco tempo atrás tínhamos o currículo mínimo, hoje, as diretrizes curriculares nacionais, que são mais flexíveis. Porém, ao criar uma norma geral para determinado curso, acaba, de certa forma, engessando as universidades, dificultando a sua adaptação. Deveria ter maior flexibilidade no decorrer dos cursos, com uma avaliação de qualidade no final, como ocorre nos EUA, por exemplo, com algumas certificações.

Como conciliar uma universidade teórica e outra pragmática?

P.A.G.: O meio termo não necessariamente é o ideal. Há espaço para universidades com perfil pragmático, formando para o mercado de trabalho e há também espaço para instituições científicas que formem pesquisadores e doutores que vão mudar a ciência. Há espaço para todas as matizes entre esses tipos. Tem que criar mecanismos para que as universidades se desenvolvam de acordo com as suas aptidões, vocações e peculiaridades com a sua localidade. Uma universidade no Acre será diferente de uma na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, na questão ambiental, de energia, formação de pessoal entre outras. A universidade tem competência– doutores que produzem ciência de qualidade, publicações de teses, etc, pertinência – capacidade da universidade responder às demandas da sociedade e equidade– obrigação da universidade contribuir para igual distribuição das oportunidades . Isto forma um triângulo. O ideal é que se tenha um triângulo eqüilátero. Por exemplo, considero que a UFRJ tem muita competência e pertinência, tem menos equidade. As formas do triângulo vão variar de acordo com as universidades.

E a interação entre ensino básico e universitário?

P.A.G.: Interação ensino básico e universitário não existe. O Ensino médio no Brasil tem um problema seríssimo. Não tem professores qualificados em quantidade suficiente. Não tem metodologia de ensino para integrar o estudante. Não tem a incorporação ao ensino das novas tecnologias de informação e comunicação.


Qual a sua visão sobre o novo ENEM?

P.A.G.: O ENEM eu acho um avanço. É inovador, pois está criando um parâmetro importante em âmbito nacional do que deve ser exigido no ensino médio. Não é novidade, é similar à avaliação utilizada na França.

Qual a sua visão sobre os Conselhos Profissionais?

P.A.G.: É preciso desregulamentar as profissões. Só deveria regulamentar as profissões que envolvem risco de vida ou de qualidade de vida. As demais é inviável. A velocidade das transformações leva a extinção de determinadas profissões e ao surgimento de novas a cada momento.

Noções de gestão são cada vez mais necessárias?

P.A.G.: Matérias de gestão e empreendedorismo deveriam ser implantadas em todos os cursos, até mesmo em filosofia. Ë básico para qualquer curso. Nesse sentido, minha visão sobre empresa júnior é muito boa,  deveria ser estimulada em todos os cursos de graduação.

Qual a sua visão sobre o novo Plano Diretor da UFRJ 2020?

P.A.G.: O Plano diretor do Campus facilita a interdisciplinaridade. Sou a favor do plano diretor da UFRJ. As unidades que forem para o Fundão vão crescer muito, passarão a trabalhar mais integradas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: