UNIVERSIDADE POPULAR ABERTA DO III MILÊNIO

Arnaldo Niskier: “Hoje, temos condições de ter o dobro de universitários no Brasil, 14 milhões”

In Entrevistas on agosto 23, 2009 at 11:48 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

Arnaldo Niskier: "A tecno-estrutura: tríplice aliança entre governo, empresa e universidade é indispensável à expansão econômica e social"

Arnaldo Niskier, atual presidente do CIEE Rio: "A tecno-estrutura: tríplice aliança entre governo, empresa e universidade é indispensável à expansão econômica e social"

PERFIL BIOGRÁFICO

Atual Presidente do CIEE Rio, membro da Academia Brasileira de Letras. Jornalista, professor, educador, administrador, ensaísta e orador. Fez vestibular para Engenharia, mas não teve êxito. Inscreveu-se depois para Matemática, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Começou a atuar na política universitária, sendo eleito secretário-geral e depois presidente do Diretório Acadêmico Lafayette Cortes. Licenciou-se em Matemática (1958) e Pedagogia (1962), também pela UERJ, onde começara a lecionar (1958). Tornou-se Doutor em Educação em decorrência de aprovação no concurso para Livre Docente na cadeira de Administração Escolar e Educação Comparada (1964). Catedrático por concurso na UERJ (1968), tornou-se professor titular de História e Filosofia da Educação. É professor credenciado pelo Conselho Federal de Educação em Teoria Geral da Administração e Orçamento Empresarial.

Como diretor das Empresas Bloch (Manchete), esteve à frente do departamento de Educação, onde produziu mais de 100 livros didáticos e realizou diversos projetos de incentivo à pesquisa e ao hábito de leitura. Foi secretário de Estado de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (o primeiro da América Latina), de 1968 a 1971. Além de outras iniciativas na área da pesquisa científica, foi o criador do Planetário do Rio de Janeiro (1970) e membro do Grupo de Trabalho que estudou a viabilidade de implantação da Universidade Aberta no Brasil (1973). De 1979 a 1983, foi secretário de Estado de Educação e Cultura do Rio de Janeiro. Exerceu também os cargos de Presidente da Fundação de Artes do Rio de Janeiro – FUNARJ; Presidente do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro; Presidente do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro e vice-chanceler da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.Foi membro do Conselho Federal de Educação. Presidiu a Câmara de Ensino Superior. Em 1996, por decreto do presidente Fernando Henrique Cardoso, Arnaldo Niskier foi nomeado para o Conselho Nacional de Educação.

Educação, Estágio e Trabalho, obra lançada com o apoio do CIEE, contém ensaios sobre a relação empresa-escola

Educação, Estágio e Trabalho, obra lançada com o apoio do CIEE, contém ensaios sobre a relação empresa-escola

Como você avalia a integração entre universidade-empresa?

A.Niskier: Nos países industrializados isso é uma realidade constante. Existe um termo definido pelo escritor canadense McLuhan, chamado tecno-estrutura, que é a tríplice aliança entre governo, empresa e universidade. Em seus livros, ele defende que quando esse enlace é feito de forma inteligente e positiva, os resultados são altamente satisfatórios, gerando um ciclo: o governo estimula a integração, a empresa, com este estímulo, recorre às universidades, e estas, preparam os recursos humanos indispensáveis a qualquer processo de expansão econômica e social. Essa relação é extremamente necessária para a realidade brasileira.

Quais os principais desafios dessa integração no Brasil?

A.Niskier: Um pouco mais de compreensão em relação aos elementos vinculados a este tripé. O governo não se preocupa muito com isto, a empresa tem certa desconfiança em relação ao governo, principalmente, por causa dos impostos. Vale ressaltar que a carga tributária brasileira é uma das mais elevadas do mundo, chegando a alcançar 35%. Um índice absurdo. A universidade, muitas vezes, fica fechada nela mesma, como se fosse uma torre de marfim, não se abrindo para a sociedade com a eficácia que seria indispensável. Há necessidade de um movimento que una esses três elementos. Isto seria altamente proveitoso para o Brasil. Falta uma maior organicidade no ensino superior brasileiro para que ele esteja mais integrado às reais necessidades da cultura e do povo brasileiro.

O que deveria ser feito para melhorar a integração deste tripé: Governo, Empresa e Universidade?

A.Niskier: A ordem dada por John Kenneth Galbraith é governo, empresa e universidade. Os elementos têm importância nesta ordem. O primeiro movimento deveria ser do governo, mas este está meio enrascado quanto à reforma universitária, que tem mexido em alguns pontos polêmicos como a autonomia das universidades. É preciso que haja uma reforma universitária mais integrada. Infelizmente, os empresários estão acostumados a não acreditar nos governos e, historicamente, tem uma crença parcial no valor da universidade. Ao contrário do que acontece, por exemplo, nos Estados Unidos, na Suécia, na Finlândia e na Coréia do Sul. São paises que cresceram muito nos últimos 30 anos em função de uma compreensão adequada entre governo, empresa e universidade.

A universidade no Brasil, por ser recente, possui maior dificuldade nesta integração?

A.Niskier: Com toda a certeza. A universidade brasileira não possui nem 100 anos. Temos universidades do século XIV. Universidades tradicionais como a de Bologna, Salamanca, Oxford, Cambridge, entre outras. O peso da tradição é muito grande. Isso facilita a colocação destas universidades em se projetar para o futuro. O Brasil ainda está caminhando. O Brasil tem hoje cerca de 7 milhões de universitários. Proporcionalmente, este número é menor que Argentina, Chile e México. Temos condições de abrigar pelo menos o dobro, 14 milhões de universitários. Pesquisei isto durante toda a minha vida acadêmica na UERJ.  Não se vê um grande movimento para que isso seja feito, mas teria que estar aliado com a qualidade do ensino, uma característica necessária. Infelizmente, a vida universitária hoje não se pauta pela qualidade, há muito a ser melhorado.

O que deveria ser feito para alcançar este número de 14 milhões de universitários?

A. Niskier: Tem que agir em duas vertentes principais: 1- aumento do número de vagas nas universidades públicas que, em geral, resistem ao horário noturno, com argumentos absurdos. 2-  as universidades particulares tem que se convencer de que há uma classe média baixa ansiosa em ingressar nas universidades, mas que não tem recursos para pagar as  mensalidades cobradas. Aumentar o número desta massa universitária é  importante para assegurar o desenvolvimento auto-sustentável do Brasil.

Por que a falta de qualidade no ensino?

A. Niskier: Temos uma crise de qualidade no magistério. Os professores, de forma geral, são mal formados. Há universidades que pagam 12 reais por aula para um professor universitário. Isso é descabível. É preciso valorizar o professor na formação, no aperfeiçoamento e na remuneração. Assim poderemos ter um avanço muito grande no ensino brasileiro.

O livro Educação a Distância: A tecnologia da esperança

Para Niskier, A Educação à Distância pode contribuir para melhorar o ensino

Qual você considera o principal papel da universidade?

A.Niskier: A universidade tem que garantir ao país a existência de recursos humanos que atendam as suas necessidades de progresso. É o lócus onde deveria funcionar a meritocracia. Por exemplo, a Petrobras: a descoberta do Pré Sal estabelece um novo cenário, que demandará recursos humanos qualificados. A universidade tem que estar integrada para prover mão de obra qualificada.

Qual a sua visão sobre o tripé: Ensino, Pesquisa e Extensão?

A.Niskier: A constituição brasileira exige a indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão. O ensino de graduação precisa ser melhorado, como já dito. A extensão é a vinculação dos cursos universitários mais para perto da comunidade, atraindo-a para a universidade. Muito importante, por exemplo, no atendimento às demandas curtas e específicas exigidas no mercado de trabalho. No caso da pesquisa, o Brasil possui um número pequeno de cientistas, é necessário multiplicar isto geometricamente. Precisamos reconhecer oficialmente a existência da profissão do pesquisador. Até para ser tratado e remunerado de uma forma mais adequada.

Falta pesquisadores em todas as áreas do conhecimento?

A.Niskier: Não, isso varia entre as áreas. Na informática, por exemplo, o Brasil hoje é uma das referências internacionais. Está nascendo um movimento de valorização da programação. O Brasil está entrando nesta indústria de software, que fez a glória da Irlanda, da Índia, entre outros. Em termos de hardwares são 45 milhões de pessoas utilizando computadores. Apesar de a população ser de 200 milhões, este número é bem significativo, e avança continuamente. Há outros setores como: farmacologia, clonagem, células tronco, petróleo, polímeros, que o Brasil pode se desenvolver ainda mais, resolvendo o problema da demanda interna, exportando, fazendo com que a riqueza aumente e se assegure melhores condições de vida para o povo brasileiro.

Falta visão empresarial na universidade?

A. Niskier: Não diria falta de visão, mas sim, ignorância. Há, na maior parte, uma dissociação entre o que se faz na universidade, sobretudo na pesquisa básica, e o que acontece na prática com as necessidades empresariais. Esta dissociação é condenável. É preciso uma junção maior entre o que se está pesquisando na universidade e o que nosso país precisa. Uma forma mais inteligente de fazer uma associação da pesquisa básica, que se faz de forma desinteressada, e das pesquisas aplicadas, de finalidades tecnológicas.

Muito da crise das universidades deve-se a uma falta de integração com o ensino médio?

A.Niskier: Claro. No ensino médio há um fenômeno muito grande de evasão e repetência, e isto, em médio prazo, vai prejudicar a entrada dos jovens na universidade brasileira.

Qual a sua visão sobre o novo ENEM?

A. Niskier: Eu sou totalmente a favor da política que o ministro Fernando Haddad tem adotado. O projeto do ENEM é altamente criativo, e precisa ser estimulado. Pode ser o fim da “aventura” do vestibular. Há uma compreensão crescente do que ele representa. Com a implantação do ENEM, nós chegaremos, em pouco tempo, a uma solução ideal para a admissão do jovem na universidade brasileira.

Por que há tanto abandono de curso nas universidades brasileiras, inclusive públicas?

A. Niskier: O jovem tem necessidade de emprego. Tem que trabalhar para viver. A universidade tem que ser atraente e o diploma tem que ser uma necessidade indissociável para que ele possa alcançar um bom emprego. A partir do momento que isto não é uma realidade, ele busca caminhos alternativos.

É necessária cada vez mais uma formação universitária generalista?

A.Niskier: É muito importante. Recentemente, em visita que eu fiz a cinco high schools na região de New England, onde nasceu a civilização americana, constatei isso. Eles estão revendo os seus currículos para que se estude mais inglês, história, religião, filosofia. Humanizando o estudo. O individuo passa a ter uma formação mais completa, de cultura geral, ao invés de uma formação especializada, estreita, que marcou por um tempo a vida universitária americana. Nós temos que fazer o mesmo. Se o individuo não tem cultura, nem uma formação adequada, isto prejudicará, inclusive, o seu desempenho profissional.

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