UNIVERSIDADE POPULAR ABERTA DO III MILÊNIO

Roberto Terziani, Diretor de RI da OI: ” A função de Relações com Investidores é polivalente”

In Entrevistas on agosto 10, 2009 at 4:55 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

 

 

Roberto Terziani, Diretor de RI da OI. Política de transparência absoluta adotada desde 1999 pela Telemar, quando assumiu a área de RI, contribuiu para construir uma imagem positiva junto do mercado

Roberto Terziani, Diretor de RI da OI. Política de transparência absoluta adotada desde 1999 pela Telemar, quando assumiu a área de RI, contribuiu para construir uma imagem positiva junto do mercado

Roberto Terziani atua há mais de 40 anos no mercado de capitais. Começou a trabalhar em 1970 na corretora Caravello (não existe mais) como Gerente do Departamento de Análise, de 1970 a 1976, foi para a Companhia Internacional de Seguros (não existe mais), também no setor de análise, de 1976 a 1980, foi Diretor Financeiro da seguradora Generali do Brasil, de 1980 a 1985, e superintendente de investimento do Grupo ARBI por quase 10 anos. Foi também Diretor de Investimentos do Banco Boreal; Diretor superintendente da Arca Capitalização, do Jornal O Dia. Trabalhou como consultor na empresa montada junto com o Alvaro Bandeira e outro sócio até assumir a área de RI da Telemar em 1999, hoje OI. Na ABAMEC (atual APIMEC), Terziani foi conselheiro, Diretor Presidente Rio em 1979, 1985 e 1986; Vice-Presidente Nacional e eleito analista do ano em 1976. É formado em Estatística pela UFRJ, com Pós Graduação em Economia pela FGV Rio. Com a palavra, Roberto Terziani.

 

A EVOLUÇÃO DA ATIVIDADE DE RI NO BRASIL

Década de 70: Escuridão Corporativa

 A década de 70 é a fase da “Escuridão Corporativa”. A Informação era “ativo de natureza sigilosa, a divulgação era feita por balanços anuais e muito sintéticos, as empresas abertas eram familiares, estatais ou estrangeiras; e as indústrias monopolizadas ou oligopolizadas. A informação privilegiada era prática absolutamente usual. Tivemos a criação da ABAMEC em 1970, a Nova Lei das SA’s e a criação da CVM em 1976. O Mercado de Ações era baseado em incentivos fiscais e artificialismos institucionais como correção monetária limitada e o Decreto Lei nº 157 (permitia os contribuintes utilizarem parte do imposto devido quando da Declaração do Imposto de Renda, em aquisição de quotas de fundos administrados por instituições financeiras de livre escolha do aplicador).

Década de 80. Abertura Lenta

Nos anos 80 temos uma lenta abertura. Os analistas mais atuantes, exigem transparência, porém, com baixa resposta. Os Fundos de Pensão expandem-se de forma descontrolada, gerando problemas éticos graves. Com o Plano Cruzado (1986), temos um Recorde de IPO’s, ficando explicito o despreparo das empresas. A Petrobrás realiza a sua primeira reunião com analistas em 1986. O Diretor Financeiro é o “fornecedor das informações oficiais”. Com o início das privatizações, se tem os controles compartilhados, gerando maior profissionalismo. A correção monetária integral dos balanços gera maior transparência. A CVM, na década de 80, decidiu que todas as empresas abertas deveriam ter 1 Diretor de Relação com o Mercado que, posteriormente, mudou o nome para Diretor Geral de Relações com Investidores. Esse Diretor tinha a função de ser o elo de ligação da CVM com as empresas abertas. Antes dessa exigência da CVM, algumas empresas já praticavam relações com o mercado, porém sem grandes formalidades. Promoviam reuniões com Investidores, principalmente, com Analistas, através da ABAMEC, surgida no início da década de 70, onde apresentavam seus resultados.

Anos 90. Libertação das Amarras

 Nos Anos 90 temos a fase da “Libertação das Amarras”. A Privatizações de Setores e Grandes Empresas, o início da Profissionalização da Gestão das Empresas, a abertura do Mercado a Investidores Estrangeiros, o início da Governança Corporativa, o registro dos Programas de ADR`s brasileiros na NYSE, a atuação mais ativa das entidades de classe como: ABAMEC, IBGC, AMEC, ABRAPP, entre outras,geram maior transparência. Os analistas buy e sell side exigem fluxo contínuo de informações mais detalhadas e consistentes. Temos maior profissionalismo. O Jose Marcos Treiger foi o precursor, o primeiro Diretor de RI, com o lançamento de ADR’s na bolsa de Nova York pela Aracruz Celulose no início da década de 90. As empresas começaram a entender que precisavam de um profissional dedicado a esta área, que passou a ser cada vez mais estratégica. Um dos fatores que contribuiu enormemente para o surgimento dessa atividade de RI foi o Programa de Privatização, que foi implementado a partir da década de 80, início da década de 90, e Investidores Internacionais passaram a fazer parte das empresas e exigir cada vez mais informações.

Anos 2000 …..Novo século, novos tempos, novos desafios, novo mercado

O crescimento da área de RI

Temos a atualização da Lei das SA’s, com a volta do tag along, a diferenciação de dividendos para ações preferenciais, entre outras mudanças relevantes; a expansão dos Investidores Globais para mercados emergentes; a CVM melhor estruturada, mais preparada, atuante e punitiva; os analistas aumentam a cobertura e investidores ampliam  as áreas geográficas; as novas tecnologias possibilitam análises mais apuradas, gerando cada vez mais demandas dos agentes de mercado; os investidores mais exigentes e ativos, requerem representantes em Conselhos; praticamente todas as empresas abertas criam área de Relações com Investidores.

Cada empresa, evidentemente, implementou essa área de RI de maneira diferenciada, não tem um padrão. Tem empresas que essa área tem as mais diversas atividades: tem empresa que tem comunicação, às vezes atividades legais, Jurídico, outras vezes de Controle, de Controladoria, outras vezes de Tesouraria.

As melhores práticas de RI da Telemar foram incorporadas pela OI

As melhores práticas de RI da Telemar foram incorporadas pela OI

O caso  Telemar/ OI

Eu estou aqui na Telemar desde o início de 1999, quando a empresa tinha acabado de ser privatizada e já tinha um Departamento de RI com duas ou três pessoas na ocasião, e um contingente de Acionistas. Tinha uma base de acionistas internacionais enorme, que vinham se reunir 2-3 vezes por semana para  entender qual seria o futuro da empresa, os planos, enfim, como ia ser administrada. A Telemar Norte – Leste, num grupo de 12 empresas de Telecomunicações  tinha sido uma das únicas adquirida na privatização por brasileiros. Desde o primeiro momento, percebi que existia pouco conhecimento dos Investidores sobre a operação do Setor de Telecomunicações no Brasil.

As políticas adotadas na Telemar

Adotei as seguintes políticas: 1- todas as pessoas que solicitavam reunião, eram atendidas da mesma forma, independente de serem acionistas. Tinha uma função de catequese: mostrar ou ensinar para essas pessoas o que era a companhia, o que ela fazia e para onde ela ia. 2- Independente se a informação era positiva ou negativa para a companhia, ela era fornecida aos investidores. Isto contribuiu para criar uma relação de confiança com os agentes de mercado. 3- Participar ativamente em todas as conferencias que os bancos e as corretoras promoviam junto aos seus clientes e Investidores.

Isso foi importante porque a gente estabeleceu um relacionamento muito franco, ético e honesto. Apesar da tentativa de muitos amigos terem vindo aqui na tentativa de buscar informações privilegiadas, elas eram iguais, acabavam desistindo. Todos eram tratados da mesma maneira. Hoje a OI é muito bem conhecida e avaliada pelo mercado, analistas e investidores por essa política adotada de transparência absoluta.

A Falência da ENRON e o Disclosure na Telemar (OI)

As Vozes de Wall Street

Em 2002, quando houve, nos EUA, o escândalo da ENRON, a SEC americana estabeleceu uma política de DISCLOSURE, uma transparência  justa junto ao mercado. Na TELEMAR, adotamos imediatamente esta política. Toda a informação nova que a companhia dá a qualquer agente de mercado, analista, investidor, imprensa, é incluída no web-site, passando a ser pública.  Qualquer solicitação da parte de investidores, analistas ou profissionais do mercado, fornecemos no máximo em 48H. Nós passamos a fazer a máxima, a média e a mínima das projeções dos analistas que acompanham e divulgam nos relatórios, e disponibilizá-las no website. Isso ajuda: 1-o Investidor a entender o que o mercado está projetando para a empresa; 2- os próprios profissionais perceberem o que o mercado está projetando vis-a-vis. Se o Analista está projetando um número muito fora dessa faixa máxima e mínima alguma coisa deve estar errada. Recentemente, isso ocorreu. Um analista fez uma projeção da empresa, para o ano de 2008, que era muito positiva, além do que o mercado estava projetando, pois havia esquecido de considerar a entrada da empresa no mercado de São Paulo. Ao entrar no mercado de SP, em telefonia móvel, evidentemente, no 1º momento, a empresa teve prejuízo com a operação, fez investimentos, tem despesas, a receita costuma ser menor, ele não estava considerando isso. Alertamos para que fosse corrigido.

Preparamos um Relatório Mensal,  que é distribuído para toda a alta Gerência da Empresa e para o Conselho de Administração, que chamamos de “Vozes de Wall Street”, com tudo que foi divulgado, e solicitado sobre a empresa, avaliando a percepção do mercado.

A Atividade do Profissional de  Relações com Investidores

A atividade do profissional de Relações com Investidores é polivalente, têm várias  funções importantes. Tem que conhecer um pouco de Economia, de Finanças, de Leis, de Comunicação, de Operações Financeiras, de Macroeconomia, Política, Operações da própria empresa. Os Analistas de Investimentos, quando vem fazer reuniões, não querem saber apenas o resultado da empresa naquele ano, quer saber, por exemplo, a nossa opinião sobre a evolução macroeconômica do país, qual a nossa percepção em relação ao desenvolvimento do País, com relação à evolução do setor onde nós atuamos, ao ambiente competitivo onde nós estamos, com relação as inovações tecnológicas. Querem saber sobre uma decisão do Governo ou do Congresso, ou da CVM, ou da Agência Reguladora e o seu impacto nos negócios. Então, é polivalente. E quanto mais profundamente conhecer, melhor. Não pode ser apenas um Analista das Demonstrações Financeiras da empresa ou de seus Registros Contábeis. Tem que conhecer muito mais do que isso, tem que estar permanentemente atualizado com o que é dito, com o que é escrito, com o que é publicado a respeito da empresa, a respeito do setor em que a empresa atua. Em função da internacionalização do mercado de capitais brasileiro, esse profissional, evidentemente, tem que ter a língua inglesa e, cada vez mais,  será necessária outras línguas como Espanhol, Francês, Chinês.

Objetivos de um Diretor de Relações com Investidores

Conseguir que a empresa seja avaliada “justamente” pelos agentes de mercado. Construir credibilidade e reputação da Companhia,  que é um ativo intangível valiosíssimo. Desenvolver instrumentos para fidelizar investidores. Desenvolver instrumentos para reduzir a volatilidade e aumentar a liquidez das ações. Incentivar a cobertura adequada dos analistas. Criar mecanismos para obter feedback dos agentes de mercado.

Comunicação Corporativa e Ética

Comunicação Corporativa e Ética é: atender prontamente todas as solicitações  de informações, até o limite do que é estratégico e do que já foi divulgado pela Companhia; originados por qualquer agente de mercado, independentemente do seu porte econômico, de sua origem, característica ou perfil. Falar sempre a verdade, com franqueza e sinceridade, não escondendo a realidade dos fatos negativos e não sobre valorizar os fatos positivos. Gerenciar e coibir o uso de informação a amigos ou parentes ou terceiros. Ser ético, e exigir que o interlocutor seja ético. Praticar a transparência justa (fair disclosure). Permitir o acesso simultâneo à informação da empresa. Conhecer o Investidor, conhecer o analista, conhecer o interlocutor.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: