UNIVERSIDADE POPULAR ABERTA DO III MILÊNIO

O Capiano Revolucionário Érico Magalhães, Diretor de RH da TV Globo: “A universidade tem que ensinar a pensar, falar e fazer”

In Entrevistas on agosto 10, 2009 at 6:42 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ


O Capiano Érico Magalhães, diretor de RH da TV Globo: "Nosso negócio é ShowBusiness. Formar profissionais que integrem estas duas visões é um desafio"

O Capiano Érico Magalhães, diretor de RH da TV Globo: "Nosso negócio é ShowBusiness. Formar profissionais que integrem estas duas visões é um desafio"

Com formação básica no Colégio de Aplicação da UFRJ, criado para ser um laboratório pedagógico e formador de lideranças brasileiras, Érico Eduardo Magalhães, atual diretor da Central Globo de Recursos Humanos pode ser considerado um Capiano Revolucionário, mais uma cobaia pedagógica bem sucedida do CAP UFRJ.

Pode parecer ousado e confuso, num primeiro momento, este universitário definir o Diretor da Rede Globo, responsável por RH, Recursos Artísticos, Planejamento e Controle, Finanças e Pesquisa de Audiência (Ufa! Quanta responsabilidade e função!) de tal forma.

Porém, explico. O livro Intelectuais e Guerreiros: O Colégio de Aplicação da UFRJ de 1948 a 1968, da professora Alzira Alves de Abreu, defende a paradoxal tese: o processo educacional do Colégio de Aplicação da UFRJ contribuiu para formar revolucionários que entraram na luta armada, a ponto de seqüestrarem o embaixador americano. César Benjamin, Cid Benjamin, Franklin Martins, Alfredo Sirkis, todos do CAP, são os mais conhecidos.

Infelizmente, ou felizmente, não é possível anexar esta façanha de seqüestrador, ao currículo de Érico Magalhães, o colégio tinha correntes mais moderadas, menos radicais, bem dividas entre os célebres jornais: A Forja, de cunho mais radical de esquerda, e A Voz, menos politizado. Será que a semente para o ramo de comunicação em seu perfil, foi plantada pelo envolvimento com estes jornais? Difícil responder.

Porém, é visível a influência dessa experiência do CAP, até hoje, em sua formação, “tudo que é conceito eu aprendi a pensar como o Colégio de Aplicação me ensinou” afirma ele, que entende que a universidade tem o papel de ensinar a pensar, falar e fazer.

Isto, o Colégio de Aplicação fez com Érico, que analisa planilhas da TV Globo, fundamentado em conceitos da Lei dos Grandes Números, aprendida em suas memoráveis aulas de física do professor Ancelmo, jogador de basquete, assim como ele, quando estudante.

Formado em engenharia civil pela UERJ, com mestrado em administração pela Puc Rio com a tese: Uma Metodologia de Planejamento para Empresa Pública: Teste no Setor de Processamento de Dados e pós graduação por Stanford, Érico nunca atuou como engenheiro, desenvolvendo sua experiência profissional, principalmente, na área de Planejamento e Recursos Humanos, na Serpro – Serviço Federal de Processamento de Dados (trabalhou junto com o atual reitor da UFRJ, Aloísio Teixeira) e na Mesbla, antes de ingressar na Rede Globo.

Nesta entrevista exclusiva, em sua sala rodeada de fotos de suas netas, este avô orgulhoso, vencedor do Prêmio Profissional do Ano ABRH-Rio 1994, retrata os desafios de recursos humanos nas emissoras de televisão, da integração entre universidade-empresa e, sem se dar conta, mostra seu grande perfil de educador.

Para ele, não há diferença entre o professor, o pai e o chefe, todos são comunicadores. Educar, em sua visão, é definido por Cícero: tirar a motivação do outro para o que se quer transmitir. Este cuidado fica claro em toda a sua fala, mais voltada para gerar reflexão, do que estabelecer determinadas verdades. A essência do processo educacional para ele.

Conheça um pouco mais deste eterno Capiano Revolucionário,  Intelectual e Guerreiro, mais uma Cobaia Pedagógica  bem sucedida, Érico Eduardo Magalhães.

"Hay que endurecer, sí, pero perder la ternura, jamás!" Em sua época de estudante do CAP UFRJ, o líder revolucionário Ernesto Che Guevara era uma grande influência de Érico.

"Hay que endurecer, sí, pero perder la ternura, jamás!" Em sua época de estudante do CAP UFRJ, o líder revolucionário Ernesto Che Guevara era uma grande influência

Como você avalia a integração entre universidade e empresa?

Érico: Esta dicotomia a universidade e as empresas ainda não conseguiram resolver. Se um dia o país apostar na educação como grau de alavancagem, as empresas e as universidades se virem como parceiros adequados para desenvolverem as suas estratégias, e buscarem jogar juntas, ao invés de separadas, será benéfico para ambos: universidade e empresa.

O que poderia ser melhorado pelas universidades?

Érico: Os professores e a universidade como um todo se dedicam menos do que deveriam ao mercado. Acham que vão se poluir, se se aproximarem das empresas. Nos Estados Unidos, as empresas financiam pesquisa pura e aplicada, buscando soluções e gente. Lá, a universidade não sobrevive sem a aproximação com as empresas. Eu estudei em Stanford e via como as universidades têm salvado os Estados Unidos, como foi na época em que a Europa era dominante. Esta capacidade de passar conceitos, passar valores, filosofia de cada uma das matérias, de cada uma das disciplinas, das profissões, ao mesmo tempo em que se aproxima da vida real e da realidade econômica, que é fundamental, seja através das empresas, do estado ou de ONGs. A sabedoria está em olhar para os negócios e para o futuro para que não ensine para o passado. Ensinar para o passado é um dos grandes problemas de nossa universidade hoje.

Qual você considera o principal papel da universidade?

Érico: O principal papel da universidade é ajudar os alunos e a sociedade a pensar, falar e fazer. Normalmente, temos dois blocos. As universidades que ensinam a fazer, e as que ensinam a pensar. A primeira gera, muitas vezes, os analfabetos funcionais, que fazem tudo através da repetição de técnicas, mas sem pensar. A segunda, filosófica demais, com excesso de conceitos. O grande desafio é o meio termo desses dois modelos. Pensar e fazer são partes da mesma moeda, eles não são diferentes. Eu vou para o pensar, mas não consigo executar? O intelectual que só pensa, ele pensa e escreve uma tese, um livro, uma música, faz uma partitura. A ordenação do nosso pensamento está na bíblia, e em qualquer filosofia humana. Pensar, falar e fazer. Pensamento, palavra e obra. Esta é a essência da vida.

Qual foi a importância da educação básica em sua formação?

Érico: Eu estudei no Colégio de Aplicação da UFRJ aqui da Lagoa, na época da ditadura. Era um colégio que ensinava exatamente isso: a pensar. E ele aplicava os conceitos na realidade, através de atividades extracurriculares. Eu lembro de um professor de física chamado Ancelmo que me adorava porque ele jogava basquete, e eu também jogava basquete no Botafogo. Ele durante os dois primeiros períodos ensinou a lei dos grandes números. A aula inteira era: “qual a distância do homem para a lua. Em quanto tempo uma formiga atravessa o deserto do Saara.” Até hoje, quando eu recebo uma planilha, na mesma hora analiso pela lei dos grandes números e, muitas vezes, digo se está correta ou não, sem fazer contas. Educar, em Cícero, significa tirar do outro a motivação para o que eu quero transmitir. O CAP me motivava para o estudo. Até hoje, eu como Diretor da TV Globo, tudo que é conceito eu aprendi a pensar como o Colégio de Aplicação me ensinou. Marcelo Madureira, César Benjamin, Cid Benjamin, Edna Palatinik, Ricardo Vilas, Mauricio Maestro, David Tygel, entre outros, foram de lá. Tenho boas lembranças.

Intelectuais e Guerreiros. Pedagogia do CAP UFRJ influenciou na formação de grandes líderes brasileiros. Cobaias pedagógicas bem sucedidas

Intelectuais e Guerreiros. Pedagogia do CAP UFRJ influenciou na formação de grandes líderes brasileiros. Érico foi mais uma cobaia pedagógica bem sucedida

Historicamente, o sucesso dos diretores de TV é decorrente de características inatas e intuição, ou de capacitação profissional?

Érico: Gestão você passa por ter visão, ter a estratégia e  gerir resultados através das pessoas. Ela sempre vai se juntar com duas características humanas: a capacidade de ter a intuição e as coisas que são inatas, até as técnicas que você vai aprendendo ao longo do tempo. Raros são os gênios, que conseguem ter somente um dos lados e serem bem sucedidos em todo o momento. Uma pessoa altamente intuitiva, mas que não utiliza nenhuma técnica de gestão de empresas, seja de TV, ou outra qualquer, encontrará dificuldades. Todos os grandes visionários, por exemplo, o Bill Gates: era de Harvard, criou o seu software num fundo de quintal, mas juntou-se logo com outro que tinha habilidades que ele não possuía para complementá-lo. Esta visão do extraordinário, dos intuitivos, normalmente é visão que se tem dos gestores de empresas nascentes. Após a fase inicial, mais heróica, visionária, a empresa adquire uma dimensão que é necessário estruturar-se. Igual a uma família, que passa de um para cinco filhos, terá que se planejar melhor e alterar o seu modelo de gestão para suportar esta nova realidade. Hoje é diferente. Não se gerencia mais TV como há 20 anos atrás.

Como conciliar visão artística com gerencial num mesmo profissional? Em outras palavras, como unir os pontos fortes do Boni e da Marluce?

Érico: Esta equação entre artístico e gestão vai sendo aprendida ao longo do tempo, avançando mais em um dos lados de acordo com o momento da vida. O Boni, por exemplo, era ultra intuitivo e criativo, veio do mercado publicitário, da Lintas, foi aprendendo visão sobre gestão, para ter condições de gerir uma empresa, e construiu/ catalizou, junto com outras pessoas, modelos de gestão que estão presentes até hoje na TV Globo. A Marluce, que gerenciava a empresa mais completamente, já que nem a área comercial e administrativa estava com o Boni, é psicóloga, se origina de Recursos Humanos e depois de ser consultora, entra na Globo, numa função similar a minha hoje. Ao longo do tempo, assume a Direção Geral e começa a dominar também o entendimento sobre a equação artística, aprovando projetos, grade, trazendo talentos para a programação. O seu gosto por artes plásticas, esculturas e sua sensibilidade de psicóloga fez com que se aproximasse do universo artístico sem grandes dificuldades.

Qual a especificidade de gerenciar o RH de uma emissora de TV?

Érico: É gerenciado com a mesma matemática de outras empresas, mas com contas diferentes. A matemática são os princípios de respeito, a forma de tratar todos os funcionários iguais, independente do nível hierárquico, estimulando o trabalho em equipe. Neste universo televisivo só se tem sucesso com trabalho em equipe. Não adianta ser um grande ator, se o câmera enquadra mal, a edição não é boa. Ser um grande jornalista, se não há sinergia entre a reportagem, as imagens captadas e a edição. Dentro da TV existem universos distintos entre os profissionais. Artistas são mais de 1500. Jornalistas são mais de 1000. Engenheiro de sistemas mais de 1000. Comerciais são mais de 500. Operários são quase 2000. Todos com visões bem diferentes.

Psicóloga Marluce Dias, ex-principal executiva da TV Globo e Hans Donner (talvez crie um novo visual grafico para este blog), na entrega da medalha do Guerrilheiro para o Érico. Por traz deste sorriso grandes idéias revolucionárias, capazes de sequestrar embaixadores

Psicóloga Marluce Dias, ex-principal executiva da TV Globo e Hans Donner (talvez crie um novo visual gráfico para este blog ou envie um estagiário do IMPA), na entrega da medalha de Guerrilheiro para o Érico. Cuidado! Por trás deste sorriso e destes braços de jogador de basquete há grandes idéias revolucionárias!

Qual a diferença entre as visões destes profissionais: artista, jornalista, engenheiro, comercial?

Érico: Faço a seguinte metáfora: 2 + 2 para um artista pode ser -100 ou +1000. O lado emocional costuma ser muito oscilante. Altos e baixos. Eles têm a capacidade de interpretar bandidos, mesmo sendo uma pessoa pura. Por exemplo, a Patrícia Pillar, fez a vilã da novela anterior, uma serial killer, e você achava que ela era assim, apesar de ser uma simpatia em pessoa. Para um jornalista, se você falar que 2 + 2 é igual a 4. Ele vai perguntar o porquê. Ele foi treinado para fazer perguntas, para buscar entender a verdade dos fatos. Para um engenheiro 2 + 2 é igual a 3,9 ou 4,1. Um engenheiro que disser que 2 + 2 é igual a -100 ou 1000, a TV sai do ar, o prédio cai. É mais esquemático, é mais preciso na comunicação. Para um comercial 2 + 2 é igual a 6. Para ele dar 33% de desconto e chegar em 4. É da natureza do comercial comprar mais barato e vender mais caro, seja  numa loja de departamento, ou numa agência de automóveis.

Qual o desafio das emissoras de TV, em termos de formação profissional?

Érico: Nosso negocio é Show, e é Business. O americano reduz muito bem para ShowBusiness. Toda vez que se vai para o lado do show, perde-se rentabilidade, se perde rentabilidade, não se tem condições de realizar o show. Se você enfatiza só rentabilidade, só resultados, ainda mais numa empresa de sonhos, que trabalha com o intangível, com a motivação e o imaginário de um cliente que ele mal vê, através de uma telinha, diferente do varejo que avalia in loco a satisfação do consumidor, você alcança resultados insatisfatórios, menos potencializados. O sucesso está em balancear esta equação entre o Show e o Business. Formar profissionais que integrem esta visão é um desafio.

É cada vez mais necessária uma formação generalista e multidisciplinar, ao invés de técnico-especializada?

Érico: Tem que ter um equilíbrio, não podemos ser absolutistas. A metáfora do Show Business cabe aqui também. Tem que ter capacidade de atender ambas as demandas. O problema é que não é isto OU isto, mas sim, isto E isto. As opções são mais cômodas dessa forma. A grande sabedoria do século XXI é sermos convergente: ser isto E aquilo.

É possível formarmos executivos de TV através das universidades?

Érico: A TV Globo é repleta de profissionais formados em universidades, mas de muito tempo de casa. A formação se dá aqui dentro. Na minha avaliação não terá mercado suficiente para as universidades se interessarem por produzir executivos de TV. Não tem demanda para uma formação especifica, o setor é oligopolizado. É preferível recrutar um jovem universitário e prepará-lo dentro da empresa. Normalmente, a sucessão vem de dentro. Tem que ter um tempo para conhecer a essência do negocio. É muito especifico, tem muito macete. Nós vivemos o segundo. O que afetar o vídeo atinge 90 milhões de pessoas. Por exemplo: A Ana Maria Braga passou mal e não pode apresentar o seu programa pela manhã. Fica um buraco no ar? Não pode. Se for uma IBM, adia o projeto. Aqui se vive o segundo, é uma cultura muito própria. Por isso que trazer um CEO da IBM ou NESTLE e colocar nesta indústria, dificilmente vai dar certo. Várias tentativas, aqui e no mundo, fracassaram. É claro que quem tiver a visão comercial, a visão artística e a visão do consumidor estará mais preparado para exercer essa função.

Como explicar que nos EUA desde a década de 60/70 temos formação especifica para dirigentes de cúpula de TV (Publisher:Comunicação+ Gestão) diferentemente do Brasil?

Érico: Nos Estados Unidos você tem mercado. Lá tem centenas de pequenas emissoras, milhares de produtoras independentes e um mercado gigante, pelo menos 11 vezes maior que o brasileiro. Lá tem mercado suficiente para absorver estes formandos. São milhares de projetos com uma enorme gama de profissionais independentes, terceirizados. Este formado é absorvido no mercado em atividades totalmente diferentes: vídeos, cinema, programas para tv aberta, fechada, vídeos institucionais, entre outros. Um profissional de programação trabalha para vários canais. O mercado publicitário brasileiro é de 15 bilhões de dólares, lá são mais de 150 bilhões. Formar pessoas para o entretenimento, tem que ser para uma cadeia de valor mais ampla. Enquanto ela não existir, não tem economia de escala que permita o surgimento destes profissionais no Brasil em grandes quantidades. Seria inviável economicamente.

Como você avalia esta minha formação experimental (cobaia pedagógica) em Administração de Empresas e Comunicação/ Jornalismo?

Érico: Entre o saber pensar como um jornalista, ou relações públicas, ou publicitário, de forma estanque, e ter uma visão equilibrada entre o conhecimento técnico da sua especialização com a visão de negócios é um grande avanço. Eu me formei engenheiro civil, que tem também seus graus de especialização, sem nenhum aprendizado em negócios.  Então se eu for jornalista, terei que saber como escrever bem um artigo, como apurar e responder as perguntas básicas do lead: o que, quando, como, onde, por que. Ao mesmo tempo, eu tenho que ter uma visão humanista, com sociologia, antropologia, filosofia, entre outras. Ter sólida formação cultural. Quanto mais um profissional ter essa visão do todo melhor. Esta visão integrada e de negócios é um diferencial.

Existem programas de trainees estruturados na TV Globo para formação de lideranças executivas?

Érico: Temos vários programas de trainees. Exemplo: na área artística, a pessoa se forma em direção e passa por um período como assistente de direção, aprendendo a ser diretor. Na área comercial tem um programa de trainee. Na área de jornalismo também.

Não é um programa de trainee institucionalizado como o nosso Programa Estagiar. Primeiro, porque não teríamos quantidade suficiente de vagas e, segundo, porque o aprendizado na TV, principalmente, da atividade fim é muito lento. Não se forma um autor para escrever uma novela das oito, antes de 15/ 20 anos. Um diretor antes de 15/ 20 anos. Na produção antes de 5/10 anos. Aprender sobre determinado produto, leva um tempo. Mas não igual a TV. A pessoa sai gerente de produto numa empresa de consumo e vai para uma no setor de serviços, e vice versa. Na TV é diferente. Por exemplo, na há 20 anos atrás, eu, Marluce e Tjerk Franken criamos a Pós Graduação em varejo específico para a Mesbla, que depois foi incorporada ao Coppead.. Foram formados mais de 300 executivos nesse curso. Executivos fantásticos para o varejo, que foram presidentes da Alpargatas, Sky, TVA, entre outros.  Na Televisão não é possível fazer isso, não tem mercado para comportar como no varejo. Vai para a concorrência.

Qual a sua visão sobre a obrigatoriedade do diploma em jornalismo?

Érico: Sou contra. A minha posição é: nós queremos o melhor talento, que certamente, terá passado pela universidade, mas só poder escrever em jornal, quem tenha passado pela universidade, é uma visão muito cartorial no Brasil. Eu posso ter talento para escrever para um nicho específico e o público achar o máximo. Nada me impediria, em termos técnicos, de escrever, expressar minha visão. É obvio que as empresas estruturadas não deixarão as universidades de lado. Mas buscam talentos bem preparados, e não o diploma em si. Isto também para outras áreas. No caso da Administração, o CRA, por que tem que ter um título de técnico em administração? O importante é estar preparado. No meu caso, sou engenheiro, tenho mestrado em Administração pela Puc Rio, pós graduação por Stanford em administração, e não posso exercer nenhuma função administrativa. A carteira do conselho é um aspecto secundário. Busca uma reserva de mercado disfuncional na dinâmica do mercado de trabalho.

Qual tem sido o papel dos cursos universitários na formação dos profissionais das emissoras de TV nas diversas áreas funcionais?

Área de Recursos Humanos e Administrativa:

Érico: Na área administrativa, de recursos humanos, são áreas que são obviamente demandadoras de recursos das universidades, porque as universidades ensinam o que é básico para qualquer indústria. Gente é semelhante para qualquer indústria e empresa. Os pressupostos utilizados de gestão de gente são os mesmos na IBM, Vale ou TV Globo. As questões financeiras e de tecnologia também. A matemática é a mesma, mas as contas são diferentes, ao lidar com gente. Normalmente um analista de sistemas é entrada na IBM. Um engenheiro, geólogo na Vale do Rio Doce e um artista na TV Globo. São negócios e culturas diferentes. A forma de recrutar, treinar, remunerar, motivar, desafiar, avaliar, serão distintas. Eu tenho para artistas um plano de carreira, uma estrutura de salários, compatível com a IBM e a Vale, porém, não igual, pois eu tenho sistemática e processos diferentes. Aqui, por exemplo: um ator participa da Malhação, faz uma ponta na novela das oito, é um sucesso, e já vai estrear na próxima novela. Isto em outros setores dificilmente ocorre.

Engenharia:

Érico: Neste caso engenheiros tem que vir da universidade, até pela certificação profissional. Este profissional se mantém sempre junto da universidade, instituições de pesquisa, pois pelo avanço tecnológico, tem que estar atualizando-se constantemente.

Jornalismo:

Érico: No caso do jornalista tem o Programa Estagiar, espalhado por todas as universidades. Recebemos 11 mil candidatos para 100 vagas. É 1%. Eu recruto matéria prima de qualidade da universidade, talentos, e treino para a televisão. Os universitários atuam como estagiários e não como mão de obra barata. Tem tutor, tem formação. Pedro Bial e Wiliian Álvares são alguns dos exemplos do Programa Estagiar.

Produção:

Érico: É quem faz a infraestrutura e coordena todos os recursos, colocando-os a disposição para o artista aplicar em seu trabalho. A área de produção tem sido composta, principalmente, por universitários da área de engenharia de produção. O diretor de produção é uma das funções mais importantes em artes cênicas. Nas indústrias é comparável com a logística e produção, que busca saber se os fluxos de produção são os mais econômicos para alcançar o resultado. Ele tem o orçamento na mão e o artista tem um sonho. Deste conflito sairá o produto que vai ao ar. O artista, diretor, autor, gostaria de fazer uma novela gastando 1 bilhão de reais por minuto, porém, só tem 100 mil. A produção faz essa intermediação. Nasceram lá no passado com os práticos, com poucos modelos de gestão, aprendendo no dia-dia, no improviso. Existia na TV e no rádio o contra regra, que foi até um personagem do Chico Anísio. Este nome porque ele fazia tudo contra as regras. Hoje, é altamente sofisticado, por computador. É totalmente a favor da regra, apesar do nome. Por exemplo: O Show do Roberto Carlos no Maracanã para 70 mil pessoas. Foram meses de planejamento para saber sobre a entrada do público, segurança, logística. Isto tudo é responsabilidade do profissional de produção.

Diretor de Programa:

Érico: Ele tem um duplo papel. É o responsável e o gerente do produto. É o intermediário entre o que o autor escreve, o que o elenco vai interpretar e o que a produção vai colocar à sua disposição. De todos os profissionais da área de entretenimento, ele é quem mais intermedeia o hemisfério artístico e o de produção. Quem formou esses diretores ou foi a sua experiência no cinema, ou na publicidade, ou principalmente dentro da TV Globo, onde temos a Oficina de Atores, a Oficina de Direção e a Oficina de Autores, que preparam os talentos descobertos no mercado para esta indústria da televisão. Não adianta atrair um talento do teatro, se você não treiná-lo porque a marcação é diferente. Teatro é a arte do corpo. A televisão é a arte do rosto, do gesto.  As universidades deixam uma lacuna na formação profissional deste perfil. A aposta da TV Globo foi montar escolas, universidades próprias.

Programação:

Érico: Ele interpreta o desejo do consumidor, do telespectador, e produz diretrizes para a área de criação de entretenimento e para a área de criação de jornalismo e esportes desenvolver produtos que ele gostaria de ver na grade. Ele faz isso através de pesquisa de audiência e de sua própria sensibilidade.  A TV possui dois clientes: o cliente que nos compra é o mercado publicitário: anunciantes e agências. Mas quem consome o nosso produto é o telespectador. Os anunciantes e agências só compram nosso produto porque atingimos o seu consumidor. Caso isso não ocorra, comprarão com outro. O mercado publicitário é tão importante quanto o telespectador e os projetos do criador. O mix destes três gera uma programação. Este profissional não é formado em escolas porque são muitas variáveis. Este tipo de pessoa não se forma numa única escola com a visão do todo. Hoje, no Brasil, com o advento da televisão fechada, aumentaram o número de programadores.

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  2. vc e demais adoro essa pessoa que em vez em quando eu converso pessoalmente

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