UNIVERSIDADE POPULAR ABERTA DO III MILÊNIO

“Tia” Leyla Nascimento, presidente da ABRH Rio: “No mundo do trabalho é necessário pensar global e agir local”

In Entrevistas on agosto 10, 2009 at 2:34 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

Leyla Nascimento, Presidente da ABRH Rio: "Formação universitária híbrida é uma necessidade para as empresas"

Leyla Nascimento, Presidente da ABRH Rio: "Formação universitária multidisciplinar é uma necessidade para as empresas"

Atual Presidente Executiva da ABRH Rio (Associação Brasileira de Recursos Humanos) e do Instituto Capacitare (junto com o Joaquim Lauria do Grupo Let RH), Leyla Maria Félix do Nascimento, atua há mais de vinte anos em trabalhos e programas voltados para o desenvolvimento de Recursos Humanos, tendo sido durante 23 anos a principal executiva do CIEE Rio (Centro de Integração Empresa-Escola).

Formada em pedagogia pela UERJ, Pós graduada em Educação e Desenvolvimento de Recursos Humanos pela UFRJ e Mestre em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) com a dissertação: Transformações no Mercado de Trabalho Exigidas aos Estagiários e Recém-Formados em Empresas com Características da Sociedade Pós-Industrial é marcante a sua experiência como professora em seu perfil.

Leyla, nesta entrevista exclusiva, ao abordar o papel do profissional de recursos humanos nas organizações, o compara ao educador nas universidades e o define como um “agente de transformação”, e considera que as habilidades comportamentais são as mais difíceis de desenvolver, pois depende da formação básica: familiar e oferecida nas escolas desde o primário.

Com conhecimento de fronteira sobre Integração Universidade – Empresa, típica dos doutores, e com a simpatia e a didática das professoras primárias, típica das “tias”, transmitida em sua fala, se comparássemos as relações nas organizações com a conhecida Novela Mexicana Carrossel, transmitida pelo SBT na década de 1990, cujos personagens como: Cirilo Rivera, um menino pobre e negro; Maria Joaquina, menina rica bonita e egoísta que desprezava os seus colegas; Laura Gignoni, uma gordinha comilona e romântica, Jaime Palillo, um gordinho de coração enorme que sempre dizia: “Mas que droga de cabeça”, Firmino, um velho porteiro amigo dos alunos; dentre outros, tinham as suas emoções “gerenciadas” pela jovem professora Helena. Tutora paciente, amiga e querida por todos os alunos. Leyla Nascimento poderia ser considerada, por muitos, como a professora Helena dentre os profissionais de Recursos Humanos. Com a palavra, “tia” Leyla.

“Toda turma,  zero em comportamento”

Por que esta falta de integração universidade-empresa?

Leyla: A integração entre universidade e empresa, entre educação e trabalho é um problema mundial, não é um problema somente do Brasil. A educação é muito departamentalizada, as informações são dadas partilhadas, e não de forma sistêmica. Edgar Morin fala: dividimos tudo por disciplinas. No mundo do trabalho é necessário ter visão sistêmica. Pensar global e agir local. Os cenários organizacionais mudam com muito mais  rapidez do que o cenário educacional, criando um “gap”. As universidades, muitas vezes, ao rechaçarem qualquer orientação por parte das empresas, se fecharam em seu ”mundinho”, formando profissionais para mercados inexistentes, para carreiras que já estão “anos-luz” em transformação.

Como melhorar esta integração pelas universidades?

Leyla: Com uma maior interação do mundo acadêmico com os problemas da sociedade. Muitos professores universitários, principalmente, das instituições públicas, estão fora do ambiente empresarial, não entendendo as suas reais demandas e necessidades. Isto é muito ruim, porque ficam com uma visão muito acadêmica e teorizada, repassando isso para os alunos. Por exemplo: na Alemanha, a discussão entre universidade-empresa é tão bem sintonizada, tão interativa, que os professores das universidades vão para dentro das empresas e os profissionais de mercado participam de reuniões nas universidades para explicitar as suas demandas. O Projeto de Desenvolvimento de vários países é discutido de forma interativa, sintonizando melhor os perfis dos profissionais a serem formados, às verdadeiras demandas da sociedade. Temos uma riqueza de material acadêmico inexplorado pela sociedade, como monografias, teses de mestrado e doutorado. Estão aí muitas das soluções dos problemas de nosso país. É um beneficio a serviço da sociedade não aproveitado.

Há um discurso ainda muito romanceado por parte das universidades?

Leyla: Muito romanceado e distante da realidade do mercado de trabalho. As Universidades não falam sobre Liderança, sobre resultados, network, relações de grupo. Isso é “pecado” dentro das universidades, mas são pontos altamente estratégicos nas empresas. Quando o universitário entra em contato com esta realidade, muitas vezes, é surpreendido. Há por parte das Universidades uma necessidade de rever esses conceitos. Cada um de nós, dentro do seu papel, é uma mão-de-obra que tem que gerar resultados. Isso é indiscutível. Fui a um seminário em que uma reitora declarou que Marketing não existia, era uma criação, que o grande problema da universidade era acreditar nisso. Um absurdo.

Como as empresas buscam melhorar essa integração?

Leyla: As empresas buscaram saídas sozinhas, criando escolas próprias. Muitas universidades corporativas foram criadas sem nenhuma participação de universidade ou Centro de Ensino. As melhores empresas para trabalhar, por exemplo, têm na área de Treinamento e Desenvolvimento, excelentes parcerias com universidades de ponta, porque elas entendem quanto é importante ter essa integração. Quando buscam soluções sozinhas, não se chega a lugar nenhum.

O ensino profissionalizante também faz falta?

Leyla: Existem profissões intermediárias entre o ensino superior e técnico que fazem falta no mercado brasileiro. No Community College and Technical Institute, no estado da Carolina do Norte, chamam de politécnico. É um curso intermediário entre a graduação de 4 anos, mas classificado como ensino superior. Por exemplo: curso de assistente do dentista, que oferece todo o suporte técnico, é um politécnico, classificado como ensino superior. O sistema de ensino brasileiro custou a entender que precisava trabalhar o aspecto profissionalizante, o aspecto técnico, não atendendo muitas das demandas das empresas.  Por exemplo, hoje, uma demanda como a da VALE S/A tem no Brasil, por mais que se queira trabalhar o profissional dos cursos existentes, não irá conseguir. Necessitam do engenheiro de mineração, mas também do técnico em mineração.  A Vale, assim como outras, buscam parcerias com instituições de ensino locais para suprir a carência por esses profissionais.

No Carrossel de Recursos Humanos, Leyla tem a simpatia,o carisma e a competência da professora Helena

No Carrossel de Recursos Humanos, o carisma, a simpatia e a competência da professora Helena, são do perfil da líder Leyla Nascimento

Qual a importância da universidade na formação profissional?

Leyla: A educação formal dada pelas universidades, ela é vital, ela é preponderante para o êxito profissional. Repercute no aspecto comportamental, na formação do líder e na liderança das equipes. A maior dificuldade hoje do líder é ficar muito particularizado, não ler cenários, não pensar no global.

Qual a grande dificuldade dos profissionais hoje?

Leyla: Existem líderes e profissionais fantásticos que são demitidos pelo aspecto comportamental, porque não sabem trabalhar em equipe, não sabem compartilhar.  Essa dimensão de não saber fazer, e fazer com que o outro complemente, é que é o grande X da questão nas organizações. Quando os lideres entendem que o sucesso deles depende de um grupo, que o chancelou e ratificou, crescendo junto, fantástico. Agora, quando o líder tem sucesso por ele mesmo, vai acabar em pouco tempo. Muito se fala em gestão do conhecimento, mas poucos possuem habilidade para fazer. Muitas pesquisas demonstram hoje que muitos profissionais são admitidos pela competência técnica e demitidos pelas competências comportamentais.

Como desenvolver estas habilidades comportamentais?

Leyla: Essas habilidades comportamentais vêm da educação familiar, da educação formal na escola, desde o Jardim de Infância, em que o jovem vai incorporando determinados valores, e “construindo” a sua formação, que refletem diretamente em seu comportamento e suas atitudes. Por mais que a empresa faça treinamento de integração, de relações interpessoais, de trabalho em equipe, não tem jeito, o comportamento vem de sua história de vida. Passar as habilidades técnicas é mais fácil.

Qual o papel do profissional de Recursos Humanos nessa integração?

Leyla: O profissional de Recursos Humanos tem um papel fundamental, é um agente de transformação, de educação dentro da empresa, é o canal de comunicação com a Universidade. É tão importante quanto o educador dentro da Escola. Na educação tem uma parte que é básica, quase imexível, mais filosófica, e tem uma parte que é profissionalizante, trabalhado na experiência profissional.

Qual a sua avaliação sobre o fim do mestrado Stricto sensu e maior aproximação com a graduação?

Leyla: Eu sou contra. Eu sou favorável que cada um tenha o seu espaço e o seu papel. A Pós-Graduação exige dois fatores importantes: a formação e a experiência profissional. Muitas pessoas, sem ter experiência profissional, terminam a graduação, e ingressam na Pós Graduação. Estão fazendo Mestrado e Doutorado, muitas vezes, como mais um diploma. Isso pode ser prejudicial para a sua carreira profissional. Há uma total falta de sintonia entre a teoria e a prática.

O trabalho temporário é importante como critério de seleção?

Leyla: Eu acho muito importante. Nas empresas muitos trabalhadores temporários são efetivados pelo que apresentaram. Por exemplo: a fábrica da Volkswagen de ônibus e caminhões, em Resende, é constituídas por módulos de empresas terceirizadas. É um case mundial de sucesso. A relação de trabalho, hoje, não é tão importante.

Formação universitária multidisciplinar é cada vez mais necessária?

Leyla: Sim. Hoje as empresas estão ficando enxutas e os profissionais estão ganhando uma amplitude maior, tendo que ser multifuncionais. O organograma das organizações, hoje, é feito a lápis porque a toda hora o cenário muda, e as caixinhas mudam. Eu tenho vagas no mercado, mas não tenho funcionários qualificados para preenchê-las. Por exemplo, eu fiz Pedagogia e nunca imaginei estar com tantas atribuições e ter que entender de Comunicação, de Marketing, de Contabilidade entre outras funções.

Programas de trainee contribuem para essa formação?

Leyla: Contribuem, mas hoje, há uma tendência do Programa Trainee terminar, e serem substituídos por programas de estágio, cada vez mais estratégico nas organizações. Como os organogramas tornam-se mais enxutos e horizontais, acabam não gerando a perspectiva do cargo gerencial para o trainee após o programa.

Os Conselhos de classe são um entrave nesta visão universitária multidisciplinar?

Leyla: Os Conselhos ainda estão no aspecto legal da profissão, não na formação e nos próximos cenários dessas carreiras e dessas profissões. Apesar de ter melhorado bastante, ainda ficam restritos a buscar uma reserva de mercado.

Qual a sua visão sobre a visão de MBA/ gestão em todos os cursos de graduação?

Leyla: É  importante ter essas diferentes visões dentro de um Curso de MBA. Mas não pode ser visto como um produto que se basta por si mesmo. É de fácil obsolescência. Tem que ser atualizado de acordo com as carreiras e profissões.

Como avalia esta formação híbrida que tive em Administração de Empresas e Comunicação?

Leyla: Este tipo de formação é uma necessidade para as empresas, não vejo nenhuma dificuldade para ser aceita. Cada vez mais as empresas precisam de profissionais híbridos. Comunicação, hoje, é uma das áreas mais estratégicas de uma organização. Se unir comunicação com o entendimento da estratégia das organizações através da gestão,  têm-se um salto qualitativo muito grande, porque supera uma visão mais especifica e restrita que se tem da atividade, relacionada a jornal, revista, comunicação institucional, entre outros,  influenciando  mais no dia-dia, no operacional das empresas.

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