UNIVERSIDADE POPULAR ABERTA DO III MILÊNIO

Augusto Lyra e a História do Clube ASA de Investimento. O Mais Antigo do Brasil

In Entrevistas on agosto 4, 2009 at 8:00 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

Filósofo da Bolsa. Lyra com a sua bíblia profissional: Como Investir em Ações. Nem os próprios autores possuem mais

O Filósofo da Bolsa Augusto Lyra em seu home office com a sua bíblia profissional: Como Investir em Ações. Uma Raridade. Nem os próprios autores possuem mais.

Desde 18 de Abril de 1968

O CLUBE ASA DE INVESTIMENTO fundado em 18 de Abril de 1968 é o clube de investimento mais antigo do Brasil ainda em funcionamento. Seu criador e gestor, Augusto de Almeida Lyra, é referência no mercado de capitais brasileiro. Para bom entendedor, meia palavra basta. Quem é do mercado, dificilmente, ainda não ouviu falar no “Lyra”.

O Clube ASA surgiu na Corretora Almeida e Silva Associados (ASA), que já desapareceu há muitos anos, com a união de indivíduos já dedicados ao mercado, em busca de maior seriedade nos negócios e permuta de informações mais ordenadas.

Augusto Lyra, que fez o estatuto e a primeira ata, apesar de não ser advogado, pressentia que o Clube seria um bom negócio e começou a chamar, junto com outros, amigos e parentes para aderirem à empreitada. As reuniões eram realizadas, inicialmente, no Hotel Luxor em Copacabana (atual Tulip Inn), cujo diretor Walter Soares Ribas, também foi um dos fundadores do clube.

No decorrer do tempo os participantes foram se renovando. Ou os cotistas  naturalmente deixavam de participar ,  na definição de Lyra: “Como brasileiro não vai nem em reunião de condomínio do mesmo edifício, a participação diminuía, mas o clube continuava” , ou, saíam porque esperavam uma atividade mais especulativa do clube, contrária a sua filosofia de investimento para longo prazo, baseada em muita leitura e na análise dos fundamentos da empresa.

“Não tem uma receita do sucesso. Quando compramos uma ação, examinamos os fundamentos da empresa, a qualidade das pessoas que a administram, o ponto-de-vista macroeconômico, porque sem macroeconomia não há chance. Há muito clube de investimento que só funciona na base do grafismo, da escola técnica, costuma ser mais fácil. Este não é o nosso caso” caracteriza.

Os números por si só já mostram o sucesso do Clube. Hoje, o ASA possui 139 cotistas (150 é o limite), representando aproximadamente 79 milhões em investimento. O cotista médio do clube é de R$ 565.000,00 (Quinhentos e sessenta e cinco mil reais). Ao completar 40 anos, os resultados aos cotistas foram assim apresentados: em termos reais (descontada a inflação), o ASA multiplicou por 80,858 vezes o patrimônio investido. Trazendo a valor presente, quem aplicasse no ASA, em 18 de abril de 1968, o valor de 1 apartamento de R$ 1.000.000,00, (um milhão)teria hoje, 80,858 apartamentos de R$ 1.000.000,00, ou seja R$ 80.858.000,00 (oitenta milhões e oitoscentos e cinquenta e oito mil reais).

Para ele, a melhor ocasião para se investir é quando se tem dinheiro sobrando. A quantia inicial investida tem que ser um valor que represente uma importância significativa para o cotista, para que tenha interesse em acompanhar. Muitas vezes, recebe investidores curiosos para saber mais sobre o mercado de ações. Lyra conta caso em que, por indicação, foi consultado por um Chefe do Departamento Econômico de um banco, que, após algumas conversas, retirou parte do investimento de sua instituição e investiu no clube e, assim que saiu, transferiu toda a sua renda. Não é a toa que muitos o denominam como o Filósofo da Bolsa.

Nascido em 1927, em Araxá, Minas Gerais, Lyra iniciou o curso de engenharia civil na Escola de Minas em Ouro Preto e concluiu seus estudos na Escola de Engenharia da Universidade do Brasil (UFRJ) no Largo de São Francisco. Para ele, o curso de engenharia foi extraordinário, a base de cálculo era tão forte que os formados saíam quase matemáticos, isto, até hoje lhe facilita na administração das ações. Com facilidade para o cálculo, antes de terminar a faculdade, começavam a surgir os primeiros trabalhos particulares como calculista free lancer. “Como eu já tinha o meu filho Heitor, qualquer trabalho para uma renda extra era bem vindo. Aperto é ruim, mas obriga a gente a se desdobrar” relembra.

Lyra trabalhou durante mais de 20 anos no escritório técnico do DASP – Departamento Administrativo do Serviço Público, fazendo cálculo estrutural, e participou da construção da Cidade Universitária da Ilha do Fundão, além de ter sido por 26 anos presidente do conselho fiscal da Petrobras e por 33 anos  consecutivos seu membro. Em 1968, logo após a fundação do ASA, deixou de realizar seus cálculos estruturais, passando a se concentrar somente no mercado de ações. O retorno era melhor.

Sucessão em boas mãos. Tal pai, tal filho. Heitor Lyra propaga o sucesso dos "Lyra". Presença marcante em reuniões com investidores

Sucessão em boas mãos. O filho Heitor propaga o sucesso dos "Lyra". Presença marcante em reuniões com investidores

Início Curioso

O seu contato com o mercado de capitais foi curioso. Conta que no escritório da Cidade Universitária, viu sobre a mesa de um colega de trabalho uma revista de economia, um dos primeiros números da Conjuntura Econômica da Fundação Getúlio Vargas, ainda mimeografada e com grampos. Ao folheá-la, deparou-se ao final com várias estatísticas que mostravam a rentabilidade das ações. Interessou-se e buscou entender melhor o funcionamento deste mercado. Foi até a bolsa de valores. Lá conheceu alguns corretores que lhe deram algumas dicas, e passou também a fazer visitas freqüentes ao seu Departamento Técnico, que funcionava no subsolo, e era composto por muitos estudantes de economia. Bonificação, assembléia, estatuto, dividendo, Jornal do Comércio, corretoras passavam a fazer parte do seu vocabulário.

As primeiras ações adquiridas por sugestão de seu corretor foram da Belga e da Brahma. Os resultados não foram tão satisfatórios, quando comparado com o rendimento de outros papéis.  Ao perceber isso, transferiu toda a sua renda para ações da Vale do Rio Doce, que apresentava grande crescimento na época. Aprendia aí as suas primeiras lições sobre investimento: empresas que sobem muito podem estar com a sua possibilidade de alta esgotada, e corretores, muitas vezes, não possuem o dom de adivinhar, como se pensava na época.

Sem fazer nenhum curso específico em ações, Lyra, principalmente nos seus primeiros 5 anos de bolsa, diz que aprendeu tudo “dando cabeçada” no dia-dia, com muito esforço e leitura. Quando três americanos trouxeram para o Brasil, por volta de 1965, o livro manual: “Como Investir em Ações”, leu inteiro, de “ponta a ponta”.  Foi a sua “bíblia” profissional. Até hoje o possui em sua biblioteca. Nem os próprios autores possuem mais. Numa recente visita ao Brasil, um deles lhe pediu para retirar uma cópia.

Pioneirismo de Luis Fernando Lopes Filho

Augusto Lyra considera o trabalho realizado por Luis Fernando Lopes Filho na corretora Ney Carvalho pioneiro no Brasil, contribuindo muito para a profissionalização do mercado. Até hoje os relatórios da Consultoria Lopes Filho são imprescindíveis para o seu “ritual” de investimento, cuja análise nos finais de semana, transformou-se praticamente num hobby. “Aos sábados pela manhã, retiro na portaria do escritório da Consultoria Lopes Filho os relatórios, leio e analiso. Na manhã de segunda-feira, já estou pronto para iniciar com as ordens de compra e venda na bolsa” diz ele, que passa praticamente o dia inteiro lendo relatórios, jornais e analisando ações, com uma pequena parada de descanso após o almoço. Mais que merecida. Aliás, são 82 anos de vida, e 46 anos de dedicação ao mercado de capitais.

O seu corretor de confiança, de longa data, é o Nogueira, que atua na Geração Futuro. Lyra considera muito eficaz o sistema de marketing utilizado pela corretora, voltado para administrar clubes de investimento no varejo, com cota inicial de R$ 100,00, razão que considera um dos principais pontos do seu sucesso. Nuno Cruz da Diretoria Comercial da Geração Futuro explica a filosofia: “O nosso maior e melhor marketing é o boca a boca, feito por nossos próprios clientes, que satisfeitos, vão nos indicando. Tivemos um crescimento exponencial de nossos clubes de investimento, que gerou a necessidade da abertura do fundo Geração Programado FIA. Nossa base de clientes saltou  de 1200 para quase 70 mil clientes, desde o ano 2000. “

Tal Pai, Tal Filho, Tal Neta

Augusto Lyra pode sentir-se um privilegiado quando o assunto é sucessão. Também não há quem não conheça nas apresentações da APIMEC e nas rodas de investidores o seu filho Heitor. Suas perguntas e opiniões são sempre pertinentes e muito elogiadas.  Heitor Lyra, engenheiro de produção pela UFRJ, desde a década de 80 participa da gestão do clube ASA, e impulsionou a abertura de outros clubes: o THOR, o ODIN e o BRAGI. Pai e filho fazem uma dupla “pensante” de inegável sucesso na administração de carteiras de investimento, feita num home office, no aconchego do lar, no Largo do Machado, próximo ao Parque Guinle.

É evidente a felicidade de Augusto com a continuidade de sua obra. Está em ótimas mãos. Atualmente, a sua neta, a economista Laura, começa a se juntar ao clube. O sucesso passará a ser em trio. Se depender de sucessão, por muito tempo ainda ouviremos falar nos “Lyra” e no Clube ASA de Investimento.  A saga continua com a nova geração.

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