UNIVERSIDADE POPULAR ABERTA DO III MILÊNIO

Luis Erlanger, Diretor de Comunicação da TV Globo, ex ECO UFRJ: “A universidade é uma usina de idéias e profissionais. Um laboratório em ebulição”

In Entrevistas on agosto 3, 2009 at 2:37 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

Luis Horta Barbosa Erlanger, ex aluno de jornalismo da Escola de Comunicação da UFRJ, atual diretor da Central Globo de Comunicação, responsável pelas áreas de Relações Externas, Projetos Sociais, Propaganda, Vídeographics e pelo Centro de Documentação, em entrevista exclusiva ao universitário Marcelo Martins Guimarães para o seu projeto de pesquisa: Integração Universidade-Empresa: A Importância da Formação Universitária Multidisciplinar (O Caso do Publisher), relembra o seu tempo de estudante universitário em que se tinha dificuldade de criar “um jornalzinho clandestino” (era época da ditadura militar) e define qual deveria ser o verdadeiro papel da universidade. “Uma usina de idéias e profissionais. Um laboratório em ebulição”.

Erlanger, que ingressou como estagiário no Jornal O Globo em meados da década de 70 e foi muito influenciado por Evandro Carlos de Andrade, diretor de jornalismo do Jornal O Globo e da TV Globo por longa data, é um entusiasta do estudo e da pesquisa, “se pudesse só estudaria” afirma ele.

Vivenciou toda a proposta de revolução cultural junto das universidades em sua época de estudante, e acredita que uma formação multidisciplinar é cada vez mais necessária, e será crescentemente reconhecida pelas empresas como um diferencial.

Conheça um pouco mais as opiniões deste eterno universitário, o “especialista em generalidades”, Luis Erlanger.

Luis Erlanger Diretor de Comunicação da TV Globo: "As empresas darão prioridade a profissionais com esta formação híbrida em Administração de Empresas e Comunicação"

Luis Erlanger Diretor de Comunicação da TV Globo: "As empresas darão prioridade a profissionais com esta formação híbrida em Administração de Empresas e Comunicação. É um diferencial."

O Plano Diretor da UFRJ 2020 propõe a concentração de todos os cursos no Campus do Fundão. Qual a sua visão sobre isso?

Erlanger: A idéia do campus é extremamente sedutora. Proporciona um estado de espírito diferente de faculdades isoladas. Do ponto de vista operacional, acredito que dificilmente vão querer sair da Zona Sul para ir para o Fundão. Eu estudei na Praia Vermelha e, se fosse hoje, preferiria a Urca. Caso tenha um campus tão apetitoso, com infra-estrutura, recursos, com atrativos que justifiquem a transferência, acho válido. Até hoje, quando entro no campus e vejo a garotada com livros de baixo do braço, eu fico imaginando que ali você vai ter teatro, cinema, debates. Para mim é extremamente estimulante entrar num ambiente onde tem outras pessoas buscando conhecimento. É fundamental na formação do cidadão e do profissional. Se eu pudesse, só estudaria.

Como você avalia a integração entre universidade e empresa?

Erlanger: Num tempo mais recente você via um sentimento universitário antagônico com relação ao mercado de trabalho, um certo romantismo ideológico, que pouco tem haver com justiça social e capitalismo, como normalmente se diz e pode, muitas vezes, ser prejudicial à carreira do estudante. Criou-se até um slogan horrível, que eu sou contra, que diz assim: Quem é bom está trabalhando, quem é ruim está dando aula. Muitas empresas optaram em complementar a formação internamente de forma independente. Tem que haver uma maior conversa e aproximação entre os dois mundos, porque a mão-de-obra virá da faculdade e os egressos da faculdade têm que ir para o mercado de trabalho. A universidade tem estado muito fechada em si mesma. Tem até uma piada que o pessoal do Casseta & Planeta faz sobre a missão do Globo Universidade em aproximar a empresa do mundo acadêmico. Eles dizem: “ou é mundo ou é acadêmico”. Todo preconceito é uma maneira de você expressar alguma coisa que está passando. É importante a universidade reconhecer que também tem como papel, preparar para o mercado de trabalho. Muitas desprezam isso. A atividade profissional é importantíssima como complementação acadêmica.

O que poderia ser feito para melhorar?

Erlanger: Poderiam ser feitos mais convênios diretamente com as universidades. Por exemplo, na área científica e de meio ambiente há escassez de formação nas editorias de jornais. Essa demanda poderia ser levada diretamente para a universidade. Teríamos profissionais mais qualificados para ingressar no mercado de trabalho, com conhecimento e formação mais específica no tema. As universidades também poderiam trazer temas que oxigenassem também as empresas. Esse intercâmbio é importante.

Você acredita que uma formação generalista e multidisciplinar é cada vez mais necessária?

Erlanger: Hoje esta visão multidisciplinar está muito presente. Quem for estudar música, muitas vezes, tem que ter noção de informática, e quem estudar informática, tem que ter noção de música. Isto, em outras atividades. O conhecimento geral é fundamental. Não faria isso como uma base da formação toda, ou seja, um especialista em generalidades. Apenas os dois ou três primeiros anos, uma visão mais genérica até para dar chance ao estudante vislumbrar outras oportunidades e selecionar sua área mais criteriosamente. Similar ao modelo das universidades americanas, genérico no inicio, e mais especialista para o final.

Esta formação generalista não seria papel da formação básica?

Erlanger: A valorização do ensino fundamental e médio deveria ser maior. Há uma supervalorização do ensino superior no Brasil. O mercado de trabalho brasileiro não tem capacidade para absorver tantos doutores. A demanda por enfermeiros, pode ser maior que a de médicos. Deveria ser mais bem equilibrada essa equação entre o ensino fundamental, médio e superior. A formação básica é fundamental no conhecimento geral.

Qual foi a sua formação básica?

Erlanger: Eu tive um ensino fundamental muito bom, eu já cheguei na universidade alfabetizado. Estudei minha vida toda em escola pública, na Associação dos Servidores do Brasil, uma escola voltada para a elite do funcionalismo público, que funcionava no terreno da casa de shows Canecão, ao lado do campus da Praia Vermelha da UFRJ. Fiz o ensino médio no Andrews e entrei direto para o vestibular, sem fazer cursinho. O vestibular era unificado pelo CESGRANRIO. Minha nota permitia eu ingressar em medicina, engenharia, direito. Quando falei para a família que seria o curso de jornalismo, o desgosto foi grande.

Qual o principal papel da universidade?

Erlanger: A universidade tem que ser uma usina de idéias e de profissionais. Tem que ser uma fomentadora de idéias, de conhecimento, com o propósito de influenciar a sociedade e o ambiente onde ela está inserida. Estar na vanguarda, ser propositiva, posicionar-se como protagonista nas diversas situações históricas da sociedade: seja numa discussão sobre a gripe suína, seja nas eleições presidenciais. Imagino uma universidade como um laboratório em ebulição de idéias, informação, atividade cultural.

Como era em sua época de estudante universitário da ECO UFRJ?

Erlanger: Eu entrei numa faculdade de jornalismo que não tinha jornal, rádio, televisão e convênio com empresas. Na época, a parte técnica da faculdade deixava a desejar. É inacreditável ter uma faculdade de jornalismo, de comunicação, e não ter uma televisão pra você assistir a um filme, não ter uma máquina de escrever. Voltei agora de uma faculdade do interior dos Estados Unidos, que tem um mini-projac, tem redação, então é possível entender como funciona. Isto é importante para o estudante. Tinha um preconceito enorme entre o aluno de propaganda e o de jornalismo na época. O estudante de publicidade era vendido ao capitalismo e os jornalistas queriam mudar o mundo. Na ECO UFRJ, tinham professores instigantes, muito influenciados por ideologias diversas, era época da ditadura no Brasil.  Lembro muito do professor Carlos Henrique Escobar, era uma lenda, fui seu monitor. Tinha que dar aula de epistemologia da comunicação, mas estava em crise, e resolveu estudar a obra de Freud com a turma.

Que influência a universidade teve na sua formação?

Erlanger: Foi fundamental muito mais na formação da atitude, da personalidade do que em dar os apetrechos necessários, técnicos. O ambiente em si foi muito propício pra eu virar o profissional que eu sou, e me transformar num profissional inquieto. Foi na ECO UFRJ que eu descobri que a minha vocação era ser jornalista: um especialista em generalidades.Os alunos mais rebeldes da época se transformaram nos melhores executivos hoje.

Como você avalia a inclusão de disciplinas de gestão no currículo dos cursos de comunicação?

Erlanger: Eu fui a primeira geração em que o jornalista que chegou a cargo executivo, passou a ser efetivamente executivo. Quando virei editor, geria o meu próprio orçamento. Inicialmente, o pensamento era: “eu estou tomando conta de atividades que não me interessa”. Descobri rapidamente que quanto melhor administrasse essas ferramentas de gestão, melhor seria o resultado.  Então essa prática do funcionamento da gestão não é nenhum demérito, muito pelo contrário, é indispensável para um bom profissional. Para mim deveria ser obrigatória no currículo. Uma faculdade que forneça uma formação que aborde as questões humanas, técnicas e gerenciais seria um diferencial. Empreendedorismo também é importante no sentido de buscar um nicho de atuação, entender um business plan, capacitar o formando a identificar demandas das empresas e prestar um serviço de qualidade. Diferentemente do dentista que tem que comprar cadeira, material, broca, entre outros equipamentos, o principal ativo do comunicador é ele próprio. Tem que ser um bom profissional.

Qual a sua visão sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalismo?

Erlanger: O discurso que eu faço é o seguinte “sensacional ter caído o diploma, as faculdades de jornalismo vão ter que melhorar”. Por que eu vou entrar numa faculdade de jornalismo se não precisa mais do diploma? Ou elas vão melhorar, ou irão acabar. Optarão pela melhoria. A lógica é permitir que um profissional não jornalista, também possa exercer o jornalismo. A maior parte dos recrutados para as redações continuarão possuindo o diploma.

Como você avalia esta formação hibrida que fiz em Administração de Empresas e Comunicação/ Jornalismo?

Erlanger: As empresas vão dar prioridade a um profissional com essa formação híbrida. Eu fecharia um convênio com uma faculdade disposta a formar profissionais com este perfil na mesma hora. Mesmo que depois esses formandos tivessem que passar por um processo seletivo diferente.  Você tem formação humanística, escreve bem, entende sobre gestão e não tem um emprego? Acho difícil. Qualquer contratante diz que está insatisfeito, com raríssimas exceções, com o aluno que está disponível no mercado. Se você tiver uma oferta de um profissional de qualidade, assim que o mercado perceber, ele absorverá. Há uma crise enorme no mercado de comunicação. Quando eu comecei a trabalhar, você tinha com vigor Jornal do Brasil, O Dia, O Globo. Hoje você tem uma predominância de poucos veículos. A demanda está reduzida. Esta formação é um diferencial.

Como você avalia este programa de capacitação gerencial do profissional de RTV e de Jornalismo?

Erlanger: Eu acho perfeito como especialização. Nos primeiros anos da universidade enfatizaria uma formação mais geral. Eu separaria o universo artístico, da informação. Nada impede que um jornalista vire um autor de novela, ou que um autor resolva virar jornalista, já tivemos alguns casos aqui na TV Globo, mas essa barreira é grande. São lógicas, formas de pensar e culturas distintas.

Seria mais fácil um artístico ser levado a ter uma visão de gestão ou uma pessoa de gestão ser levada a ter uma visão mais artística?

Erlanger: O artista, normalmente, não tem uma formação acadêmica, ele é um criador que busca as ferramentas de como ele pode expressar a sua criação. O que é preferível? Contratar uma pessoa criativa e ensinar a técnica, ou contratar um excelente técnico e ensiná-lo a ser criativo? Ninguém ensina ninguém a ser criativo. Eu prefiro ter o diamante bruto e lapidá-lo.

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