UNIVERSIDADE POPULAR ABERTA DO III MILÊNIO

José Marcos Treiger: “A formação universitária multidisciplinar em Administração de Empresas com Comunicação está de acordo com o perfil do profissional de RI”

In Entrevistas on junho 28, 2009 at 7:14 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

José Marcos Treiger é Engenheiro Civil pela PUC do Rio de Janeiro, com pós-graduação na Siemens AG (KWU) – em Erlangen, República da Alemanha. Como engenheiro atuou em alguns dos maiores projetos de engenharia e de infra-estrutura no Brasil, inclusive das Usinas Nucleares de Angra II e III. Atualmente, Treiger ocupa a posição de Diretor de Relações com Investidores da Multiner S/A, empresa de geração de energia elétrica sediada no Rio de Janeiro. Ocupou esse cargo anteriormente na Braskem S/A, na CSN (Companhia Siderúrgica Nacional S/A) por duas vezes e na Aracruz Celulose. Um dos pioneiros na atividade de RI, um dos fundadores do IBRI e idealizador do Brazil Day em 2001, Treiger foi o primeiro profissional brasileiro a se tornar associado do NIRI – The National Investor Relations Institute dos EUA, sendo eleito melhor profissional de RI em 1999 e 2000 pela Abamec Rio e Minas Gerais. Acaba de lançar o livro Relações com Investidores: A arte de se comunicar com o mercado e atrair investidores, da Editora Campus-Elsevier, pela Coleção Expo Money. Apreciador de uma boa leitura e profissional de uma ampla cultura geral, o decano de RI, iniciou a entrevista citando Confúcio: “A essência do conhecimento é saber onde encontrá-lo” para enfatizar a importância da integração entre as diversas áreas do conhecimento. Com a palavra, José Marcos Treiger.

José Marcos Treiger, Diretor de RI da Multiner:Os jovens integrantes de RI têm acesso a conhecimentos estratégicos e profundos, ao trocar informações com representantes do mercado global e nacional. A profissão de RI é uma base extremamente eficaz como passaporte para outras áreas."

José Marcos Treiger, Diretor de RI da Multiner: Os jovens integrantes de RI têm acesso a conhecimentos estratégicos e profundos. A profissão de RI é uma base extremamente eficaz como passaporte para outras áreas."

EDUCAÇÃO E UNIVERSIDADE:

“A formação brasileira é muito voltada para o diploma universitário”

“O ensino técnico deveria ser mais valorizado”

Uma coisa no Brasil que eu acho muito séria é que a formação profissional é muito voltada para o diploma universitário. Não é assim no resto do mundo. Segundo Treiger, deveríamos valorizar mais os cursos técnicos. Estes se constituem numa excelente oportunidade profissional para os jovens.  Isto fortaleceria o setor técnico no Brasil e resolveria o problema da falta de mão de obra especializada que se torna cada vez mais preocupante e problemático. “São raros os produtos tecnologicamente sofisticados que o Brasil exporta. O país é competitivo em commodities, em produtos agrícolas, minérios, etc., que não exigem muita profissionalização. Nós fazemos parte do BRICs, mas a China e a Índia investem e investiram até aqui muito mais em educação. E gastam melhor que o Brasil. A Coréia, por exemplo, deu um salto tremendo. Passou a investir muito mais na formação básica das pessoas, nos cursos primários. Devemos valorizar bastante o ensino médio. Nossa população jovem é muito grande, e deveria ser muito melhor qualificada. Não podemos nos imaginar uma nação só de médicos, engenheiros, advogados, administradores”. Adicionalmente, Treiger considera a política de cotas nas universidades um grande erro e extremamente preconceituosa. “Ela transfere o problema para o próprio mercado de trabalho, que selecionará de forma preconceituosa esses profissionais”. Segundo ele, deveria ser feita uma grande reforma na educação no Brasil, com ênfase no aumento de vagas e na qualidade do ensino.

FORMAÇÃO UNIVERSITÁRIA MULTIDISCIPLINAR:

“Matérias de administração são importantes para qualquer profissão”

“Muitos empresários brasileiros não possuem visão contábil”

“Nos EUA você faz o bacharelado, mas nada impede que  o aluno escolha outras cadeiras e créditos complementares para a sua formação, com cadeiras importantes e básicas de Administração. Para mim é um grande absurdo, por exemplo, eu ter me formado engenheiro, sem ter a mínima noção de contabilidade. Tópicos fundamentais tais como Análise de Balanço, de Fluxos de caixa, conceitos de “Valuation”, Contabilidade básica, são fundamentais para qualquer profissão. Os currícula têm que ser mais articulados e mais compatíveis com as demandas profissionais do dia-a-dia das empresas”. Treiger sugere ainda que estágios profissionalizantes em empresas com avaliação das universidades – para ampliar a formação do aluno, de forma obrigatória – poderiam promover uma maior e mais eficaz integração escola-mercado. “Isto permitiria às pessoas se aprimorarem. No Brasil há muitos empresários que não possuem uma visão contábil. Que, não sabem analisar seus próprios balanços. Isso inclui o básico: ativo = passivo; diferença entre regimes de caixa e de competência, entre outros. Nos EUA, ao contrário, a gestão pela Contabilidade faz parte da cultura. Nesse sentido, a universidade pode exercer importante papel”.

O SURGIMENTO DA ATIVIDADE DE RELAÇÕES COM INVESTIDORES

“Estrutura híbrida entre a área financeira e de comunicação”

“Um bom trabalho de Relações com Investidores facilita a captação de recursos”

O setor de RI começou nos EUA, na FORD Motor Co. “Na década de 50, logo após a Segunda Guerra Mundial, seu Presidente identificou que estava aumentando muito o numero de investidores pessoas físicas detentores dass ações da Companhia”. As famílias americanas passaram a investir mais em Bolsa. Os gestores da FORD perceberam que era necessário criar-se um setor capaz de lidar com esses investidores de forma mais simples e menos sofisticada, já que os graus de informação dos mesmos eram menores do que o nível de conhecimento dos analistas de mercado que trabalhavam para os Investidores Institucionais. O CEO da Ford percebeu que a área financeira e a área de comunicação não estavam preparadas para isso. A solução desenvolvida se deu através da criação de uma estrutura hibrida entre finanças e comunicação, dedicada ao atendimento das demandas de comunicação/informação ao mercado, em geral. Estava criada assim a primeira área de RI, a qual pouco a pouco se difundiu pelas demais companhias norte americanas e hoje se tornou uma função altamente reconhecida, valorizada e estratégica. Começou-se a perceber que as empresas que faziam um bom trabalho de RI eram mais bem entendidas pelos investidores institucionais e pelo público em geral, capturando com maior rapidez o valor intrínseco das suas ações, assim como reduzindo seus custos de capital. Além disso, as empresas com boas equipes de RI conseguiam enfrentar eventuais crises com maior facilidade.

O PIONEIRISMO DA ARACRUZ CELULOSE

“O acesso ao mercado de capitais estrangeiro dinamizou a economia brasileira”

“A Aracruz serviu de paradigma, verdadeira universidade”

Segundo Treiger, a especialidade de Relações com Investidores (RI) é recente no Brasil. “Antes, existia no Brasil a atividade de “Relações com Mercado”. Mas, esta era uma atividade esporádica, em geral conduzida pelos diretores financeiros de forma não programada, não estratégica.

A atividade específica de RI começou a tomar um vulto maior no nosso país, principalmente após a primeira listagem da primeira empresa brasileira na Bolsa de Valores de Nova York por meio de ADR’s (American Depositary Receipts). O que aconteceu em 1992 com a listagem das ações da Aracruz Celulose na NYSE, sob a direção do diretor financeiro Mauro Molchansky.

A listagem na NYSE em si foi um empreendimento corajoso, então. Na época registrava-se um alto índice de inflação no Brasil. Linhas de financiamento de curtíssimo prazo, denominadas de “linhas de hot money” sufocavam o crescimento da Companhia. Naquela época, poucos conheciam a contabilidade norte americana, US GAAP (“Generally Accepted Accounting Principles”). Adicionalmente, não havia ainda expertise em relação às exigências legais da SEC (“Securities and Exchange Commission”), dos EUA. Também não havia ainda quem auditasse os números da Aracruz seguindo as normas da contabilidade norte-americana”.

“Para complicar mais as coisas, no dia em que foi dado o “start do trading” dos novos ADRs da empresa brasileira em Nova York, a capa da revista Veja trazia Pedro Collor, denunciando seu irmão, o presidente Fernando Collor de Mello. Apesar dos questionamentos gerados, a Aracruz captou cerca de US$ 300 milhões e eliminou do balanço da empresa as linhas de endividamento mais curtas e mais caras.

Isto foi um marco importante porque no Brasil, isolada e localmente, era bem menor a capacidade de captação de recursos para investimentos. Em paralelo, ao se buscar recursos no exterior, o nível de exposição e de visibilidade tiveram que se tornar mais elevados e o potencial de captação tornou-se muito maior.

A Aracruz passou a chamar a atenção dos investidores para si própria e para outras companhias brasileiras, que vieram a listar seus ADRs em seguida. Obviamente, as exigências de transparência aumentaram. Passou-se a ter a necessidade de se estruturar áreas de RI internacionais, em várias companhias locais.

A Aracruz, portanto, serviu de modelo, de paradigma para as demais, ou uma verdadeira universidade, para as que vieram depois. Depois da Aracruz, outras empresas começaram a acessar o mercado estrangeiro, com muita freqüência. Graças a isso a economia brasileira começou a crescer e a avançar mais. Se permanecesse dependente apenas das disponibilidades de capitais no Brasil, dificilmente isto ocorreria. O próprio governo não dispunha de recursos para fazer seus investimentos. Em seguida, o sucesso do Plano Real e as privatizações iniciaram um ciclo de recuperação efetiva e de maior solidez para a nossa Economia.

Relações com Investidores – “A arte de se comunicar com o mercado e atrair investidores” – O Livro busca ser um manual abrangente para profissionais e interessados na área de RI, fornecendo uma visão mais prática do dia a dia das áreas de RI no mercado brasileiro e internacional.

Relações com Investidores – “A arte de se comunicar com o mercado e atrair investidores” – O Livro busca ser um manual abrangente para profissionais e interessados na área de RI, fornecendo uma visão mais prática do dia a dia das áreas de RI no mercado brasileiro e internacional.

PERFIL DO PROFISSIONAL E A ATIVIDADE DE RELAÇÕES COM INVESTIDORES

“Três perfis integrados: finanças, comunicação e marketing”

“Informação é sinônimo de poder”

Segundo José Marcos, “RI é uma atividade estratégica”. Ela reúne três tipos de demandas  integradas: finanças, comunicação e marketing (financeiro e não financeiro).

“O RI tem que estar preparado para lidar com diversos públicos (analistas do “sell side”, do “buy side”, de dívida, de agências de risco; com investidores individuais, autoridades; com a mídia, autoridades, estudantes, etc.). Analistas locais e internacionais questionam sobre tudo: sobre a economia brasileira, sobre o nosso contexto político, sobre a concorrência, além de todos os dados econômicos e financeiros da empresa”. Treiger adicionou ainda que: “Na CSN eu tinha que saber muito sobre a concorrência (Usiminas, Gerdau, CST, etc.) – os investidores queriam comparativos”… “Em grande parte, o RI é um vendedor. Seu produto é a sua própria empresa: seus títulos, suas ações no mercado. Assim, o RI tem que repassar a imagem de grande conhecimento, segurança e credibilidade. É um profissional que necessita possuir uma visão profunda do seu negócio. O seu produto é a sua empresa”. Disse Treiger: “Eu não vendia aço, vendia CSN”; não vendia celulose, mas sim, vendia a Aracruz.

Segundo ele, idealmente o RI “estratégico” deveria possuir uma cultura geral grande, entender a economia de forma global, saber falar em público de forma confortável, não deixar-se envolver com perguntas “maldosas”, saber fazer apresentações de acordo com cada platéia, comandando-a e argumentando de forma convincente. Este profissional tem que ter uma boa relação interpessoal com seus pares na empresa, já que se relaciona com as mais diversas áreas na busca de informações. Como informação é sinônimo de poder, o RI tem que ser habilidoso para consegui-la. Quando as informações começam a fluir para a área de RI por iniciativa própria, espontâneamente, das outras áreas, começa-se a perceber o desenvolvimento da “Cultura de Capital Aberto” na empresa.

RELAÇÕES COM INVESTIDORES E MÍDIA

“Relações com Investidores tem uma dimensão jornalística”

A atividade de RI tem uma dimensão jornalística. Segundo Treiger, “É um erro das empresas “fugir” da mídia. A mídia é importante multiplicadora da imagem da Comapnhia. Se a empresa mantiver um bom contato com os jornalistas que cobrem a sua indústria, ela terá menos dificuldades em apresentar “seu lado da história” em momentos de Crise, por exemplo”. Por outro lado, adequar a informação para esse público é necessário, pois a visão dos jornalistas, em geral, costuma ser  diferente da visão dos analistas.

GOVERNANÇA CORPORATIVA E ATIVISMO ACIONÁRIO

“A Expomoney é muito importante”

“O investidor pessoa física tem que ser tratado igual aos grandes”

A Governança Corporativa está ligada a estratégia. O objetivo da Governança é assegurar o direito dos “stakeholder”, principalmente, dos acionistas minoritários, transparência na decisão dos diretores, no uso dos recursos financeiros, ética na condução do negocio, evitar fraude e definir responsabilidades claramente. Registraram-se recentemente no Brasil grandes progressos em relação ao tema. O IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa) foi criado em 1995. No caso das Assembléias Gerais de Acionistas, ainda é pequena a participação dos minoritários. Isto se em parte, segundo Treiger, ao fato de que o nosso de mercado de capitais ainda é muito jovem, em comparação com o americano ou o britânico, por exemplo.

“Esta é uma cultura a ser desenvolvida. Eu acho que eventos como a Expo Money – que buscam levar a educação financeira para o mercado inteiro – são, portanto, muito importantes. Através da Expo Money, os investidores pessoas físicas passam a aprender como melhor investir, como avaliar suas escolhas. Hoje, esta parcela do mercado já representa cerca de um quarto do movimento da Bovespa. E, tende a crescer.

Adicionalmente, os investidores individuais têm que ser atendidos pelas áreas de RI da mesma forma que os grandes investidores institucionais. Hoje em dia, boa parte das empresas de capital aberto já possui nos seus web sites de RI informações e kits adequados para cada público alvo”.

ESTÍMULO PARA JOVENS EXECUTIVOS EM RI:

Passagem do livro Relações com Investidores: A arte de se comunicar com o mercado e atrair investidores

A função de RI, relativamente nova, pode ser bastante interessante para quem possuir as seguintes características: interesse, curiosidade permanente sobre a sua própria companhia, desembaraço, domínio de línguas, bons conhecimentos em finanças e bom nível cultural. Trata-se de uma função que obriga um conhecimento profundo e integrado da empresa.

O RI precisa se informar sobre todos os aspectos mais relevantes e estratégicos da sua companhia e interagir com praticamente todos os seus departamentos. Essa visão holística de sua empresa lhe trará imensos benefícios ao longo de sua futura carreira, mesmo que o jovem profissional não permaneça como RI ao longo de toda a sua carreira.

A experiência no time de RI permite a aprimoração das suas habilidades operacionais e como um excelente preparo, como um recurso valioso, nas mais diversas funções futuras; além de um crescimento profissional que pode vir a ser exponencial. “Não há outra área dentro de uma empresa que exija conhecimento e abrangência tão grande sobre a organização, com exceção da presidência”. Além disso, um jovem executivo de RI terá oportunidade de ter grande trânsito e exposição profissional, pois possui grande visibilidade externa. Os profissionais da equipe de RI convivem diariamente com a diretoria executiva, buy side, sell side e grandes investidores. Tal exposição somada ao  conhecimento que o profissional de RI agrega poderá lhe ajudar a voar mais alto que seus colegas. “Os jovens integrantes de RI têm acesso a conhecimentos estratégicos e profundos, ao trocar informações com representantes do mercado global e nacional. A profissão de RI, portanto, pode servir de uma base extremamente eficaz como passaporte para outras áreas.

Lançamento do livro sobre RI de José Marcos Treiger. Marcelo Guimarães, PRESENTE!

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