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Arleu Anhalt, presidente da FIRB: “Um bom RI tem que ter visão estratégica e conhecer profundamente o business da empresa”

In Entrevistas on junho 16, 2009 at 11:55 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/UFRJ

Arleu Aloisio Anhalt é presidente da FIRB (Financial Investor Relations Brasil), consultoria de Relações com Investidores. Executivo com larga experiência nas áreas de finanças, controladoria, planejamento e relações com investidores de grandes companhias abertas, tendo atuado em grupos como Sadia e Thomson Financial. Pós-graduado em Administração Financeira e Mercadologia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), coordenou o atendimento de mais de 100 companhias brasileiras em operações no mercado de capitais. Foi presidente executivo do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (IBRI) e membro da Comissão de Mercado de Capitais, da Associação Brasileira das Companhias Abertas/Abrasca  (Comec). Por sua atuação na área de Relações com Investidores , recebeu por dois anos consecutivos (1996 e 1997) o prêmio “Os Destaques do Mercado de Capitais”, concedido pela Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec). Atualmente é membro do conselho de administração do IBRI.

Arleu Anhalt, presidente da FIRB:"Na consultoria é um desafio, você vive várias indústrias ao mesmo tempo."

Arleu Anhalt, presidente da FIRB: "Na consultoria é um desafio, você vive várias indústrias ao mesmo tempo."

FORMAÇÃO E EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL: De Chapecó a presidente da FIRB

“Luiz Fernando Furlan foi um grande professor”

Formei-me técnico em contabilidade no colégio Marista, em Chapecó, Santa Catarina. Depois fui fazer curso superior em contabilidade. Fiz também especialização em Administração Financeira e Mercadologia na FGV/ SP. Em função de meu desempenho neste colégio técnico, fui convidado para fazer parte da equipe da Sadia na área contábil de Santa Catarina. Depois de um ano e pouco na função, fui convidado para vir trabalhar em São Paulo. Terminei a faculdade aqui. Depois fui para a área de Planejamento e Controle. Estruturei o sistema de orçamento da Sadia que, à época, em 1984/ 85, era feito a partir da valorização da produção, contrariando a lógica de elaboração de orçamento. A produção é resultante de um plano de vendas e outros fatores. Invertemos a ordem. Passamos iniciar a partir do plano de marketing em direção à empresa e a produção. Depois trabalhei em outros diversos projetos. Com contato direto com a direção, conselho, alta gesta da companhia. Pelo próprio trabalho, lidava com finanças, mercado de capitais, desempenho da empresa, projetos. Minha entrada na área de Relações com Investidores da Sadia deu-se naturalmente. Fui convidado para coordenar a área em 1989. O Luiz Fernando Furlan era o diretor da área. Foi um grande professor. Trabalhei direto com ele de 1989 até 2000. Quando recebi o convite da Thomson Financial para montar uma consultoria de Relações com Investidores no Brasil.

O SURGIMENTO DA FIRB

A Thomson era líder mundial em consultoria de Relações com Investidores. Conforme se deu a abertura do mercado de capitais brasileiro buscou atuar mais ativamente no Brasil. Eu era diretor da área de Relações com Investidores da Sadia, quando surgiu o convite. Fui comandar uma empresa que já nasceu forte, pois era braço de um líder mundial em Relações com Investidores. Operamos no Brasil de 2000 a 2004 com a bandeira da Thomson. No final de 2004 recompramos a participação da Thomson e firmamos com ela só o uso de banco de dados, inteligência de mercado. O nome da FIRB era antes Thomson Financial Investitor Relation Brasil. Perdemos o Thomson e ficamos com Financial Investitor Relation Brasil. Fizemos uma associação com outra empresa de RI dos EUA, FRB do grupo McCann-Erickson, em projetos internacionais que exijam consultor de Relações com Investidores. Já assessoramos mais de 100 companhias em processos, ou de abertura de capital, ou de reposicionamento em bolsa. São de 70 a 90 funcionários diretos e indiretos envolvidos.

EXPERIÊNCIA NO IBRI E MBA EM RELAÇÕES COM INVESTIDORES

A entrada de recursos estrangeiros na década de 90 passou a exigir uma maior profissionalização. O mercado de capitais se fortaleceu.  Aumentaram-se as cobranças de analistas e investidores estrangeiros, os graus de transparência. Não se discute mais se a atividade de Relações com Investidores é importante ou não para a companhia, passou a fazer parte da estratégia. Fui um dos fundadores e presidentes do IBRI. Fui o primeiro presidente do IBRI São Paulo. Depois alteramos o estatuto, adotando duas Presidências: do Conselho e Executivo; e Vice-Presidências regionais. Isto foi determinante para ampliar a eficiência do trabalho do Instituto nessa época. Eu atuava como presidente executivo e o Alfredo Egydio Setúbal, como presidente do conselho. O modelo anterior, era similar ao adotado pela ABAMEC/ APIMEC. Valorizar a profissão (Mostrar o benéficio da função) e formar pessoal qualificado (Cursos) era a definição estratégica do IBRI. Daí a idéia de criarmos um MBA de Relações com Investidores. Formamos um grupo junto com a FIPECAFI, definimos o que achávamos o que deveria ter neste currículo, combinando conhecimentos de marketing, finanças, contabilidade, mercado de capitais, mercado financeiro. Toda sexta-feira nos reuníamos até formar este curso. A primeira turma com grande dificuldade. Depois avançou bem. A formação busca uma visão integrada dos negócios da empresa, do mercado financeiro e o processo de comunicação/ posicionamento.

TRANSPARÊNCIA EMPRESARIAL

“O profissional de RI é um líder deste processo”

“O presidente tem que acreditar”

Transparência é uma cultura, é um movimento dentro da empresa. O presidente tem que acreditar nesta visão. Se ele não acreditar, dificilmente, permeará para todos os níveis hierárquicos. A cada dia tem que estar mobilizando, catequizando as pessoas a entenderem os benefícios que isso traz. Essa definição se eu vou ser transparente ou não, não é o cerne da questão. O essencial é o seguinte: eu quero acessar capital de terceiros? Mesmo que não seja em bolsa, seja empréstimo de banco. O custo financeiro do banco é dado pelo risco visto pelo outro lado. Se não for transparente, posicionar-se  corretamente, transmitir confiança, tiver interesses abertos e claros, o seu custo financeiro vai ser maior que do seu vizinho. Se tiver uma visão estratégica, mesmo sem estar na bolsa, busca-se fazer um bom relatório anual, de administração, ter um bom processo de comunicação, uma apresentação bem estruturada, um site com todas as informações corporativas. Apesar do momento que eu faço isso, eu terei mais acesso a crédito com custos menores. Isto independe de ser companhia aberta. É da origem do trabalho relacionado com o capital de terceiros. Esta é a lógica. Ser transparente é questão de sobrevivência. Quem quer ter acesso a novos capitais tem que ser ativo e estar a frente deste tipo de movimento. O profissional de Relações com Investidores é um líder deste processo. O produto a ser vendido é a ação de sua companhia.

FORMAÇÃO DOS ATUAIS PROFISSIONAIS DE RI

É Heterodoxa. Não tem regra muito definida. O fundamental é conhecer profundamente o business da empresa. Tem que entender os seus fundamentos. Os investidores perguntam os mínimos detalhes. Se não estiver preparado para respondê-los, perderá credibilidade. Muitas vezes sugerimos para as empresas que assessoramos em abertura de capital, treinarem para a área de Relações com Investidores, funcionários da própria companhia, pois já conhecem o negócio, do que buscar externamente no mercado de capitais. É difícil iniciar em RI vindo de empresa de outro setor. Ainda é uma atividade recente. No Brasil temos 200 empresas que tem esta função desenvolvida. Mesmo com o crescimento da demanda, ainda é pouca gente.

PRINCIPAIS ATIVIDADES DO PROFISSIONAL DE RI

“Falar com as pessoas certas e emitir a mensagem correta”

“Depois do CEO é quem mais entende a companhia”

Resumo em dois pontos principais: a primeira é falar com as pessoas certas, a segunda é ter a mensagem correta. Se fizer as duas coisas combinadas, vai gerar bom retorno para a companhia. E para fazer isso existe uma série de ferramentas no mercado para identificar os investidores mais apropriados para a empresa, auferir como o mercado avalia a companhia. Após identificar como o mercado está entendendo os negócios da companhia, compara-se com o resultado esperado, identificam-se os gaps e inicia-se um processo de comunicação/posicionamento direcionado de acordo com o perfil (público alvo) e estilo dos investidores. A área de RI tem muito de Estratégia e de Marketing. Em tese, depois do CEO, é quem mais entende e posiciona a companhia. No caso da consultoria você vive várias indústrias ao mesmo tempo.

AVALIAÇÃO DO PROJETO PILOTO DE FORMAÇÃO INTEGRADA EM ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS UFRJ (Estratégia/ Finanças) e COMUNICAÇÃO USP (Publicidade/ Jornalismo Econômico)

“Um bom RI tem que ter esta visão estratégica e multidisciplinar”

Visão da floresta, e não somente da árvore”

Acho muito boa essa formação. Até porque todas as matérias são bem relevantes para qualquer profissional. É uma visão bem completa. Acho que para todas as funções isto funciona. Um bom RI tem que ter esta visão estratégica e multidisciplinar. Ser capaz de atuar em qualquer área da empresa. Comunicação, Finanças e Gestão. Visão integrada de tudo. Visão da floresta, e não somente da árvore. Tem que conhecer um pouco de várias disciplinas: marketing, finanças, contabilidade, mercado de capitais, mercado financeiro. Há uma defesa no mercado para criar-se uma área independente de Relações com Investidores. Não sou a favor. Caso crie é necessário que tenha contato direto com a presidência da empresa, participando ativamente do processo de gestão. Só integrado a estratégia que é possível fazer um trabalho positivo em RI. Talvez você ter no curso alguma matéria de RI dentro de um grupo um pouco maior, faz sentido. Até ter massa critica para ter um direcionamento só em RI.

RELAÇÕES COM INVESTIDORES E MÍDIA

Tem que estar integrada. Você abre o jornal e vê uma noticia da companhia. É a base para alimentar o dia-dia. As movimentações financeiras ocorrem com essas noticias. Tem que ter uma estratégia de comunicação bem posicionada e integrada, fazendo um trabalho de aproximação e preparação junto aos jornalistas, fazendo com que eles entendam o seu negocio, evitando eventuais surpresas de sair publicada alguma noticia errada. Cada vez mais essa integração com a mídia faz-se necessária. O profissional de Relações com Investidores, muitas vezes, o principal porta voz da empresa, tem que estar sintonizado e ativo nisso.

RELAÇÕES COM INVESTIDORES E PESQUISA DE MERCADO

Estudo de percepção junto aos analistas é importante. Fundamental para diagnosticar os problemas e reposicionar a companhia. Definir uma política de ação.

É o que buscamos fazer com nosso perception study. A coleta das opiniões junto ao mercado, identifica pontos “nevrálgicos” da empresa, leva a uma reflexão por parte da diretoria e auxilia na tomada de decisões. Feedback não se discute. Não pode discordar e contestar. Tem que mudar as atitudes para mudar a percepção.

MENSURAÇÃO DO RETORNO DO TRABALHO DE RELAÇÕES COM INVESTIDORES

O mais comum é ter notas de desempenho para RI. Nós avaliamos pela FIRB: 1- política de disclosure da empresa (se ela está disponibilizando as informações corretas); 2- grau de acessibilidade à empresa (se está acessível, é ativo no mercado, responde teleconferência); 3- qualidade dos instrumentos do composto de comunicação: apresentação, site, relatórios, entre outros. Avaliam-se cada um deles. Depois se compara o resultado alcançado com o esperado pela companhia. A partir daí são traçadas as metas.

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