POR MARCELO GUIMARÃES
O estudo de doutorado realizado por Maria das Graças Sodré Fraga Maia intitulado: “A Integração Universidade-Empresa como Fator de Desenvolvimento Regional: Um Estudo da Região Metropolitana de Salvador”, baseado numa diversificada e abrangente revisão bibliográfica (437 referências), apresenta um panorama bem abrangente sobre o cenário da integração universidade – empresa, abordando os principais tópicos:
A HISTÓRIA DA INTEGRAÇÃO UNIVERSIDADE-EMPRESA – Mundo/ Brasil/ Bahia; Apoio à Integração Universidade/ Empresa – Entidades/ Programas/ Fontes de Financiamentos/ Fundos Setoriais;
MODELOS DE INTEGRAÇÃO – Relações Pessoais/ Informais/ Formais/ Institucionais/ Estruturas Especiais/ Impacto no Desenvolvimento Regional;
SISTEMA EMPRESARIAL BAIANO – Empresário/ Inovação/ Empreendedorismo/ Contexto Empresarial Baiano – Pólos Calçadista/ Automotivo/ Náutico/ Cerâmico/ Design/ Cosméticos/ Vestuário/ Moveleiro/ Papel e Celulose/ Mineração/ Sisaleiro/ Agronegócio/ Turísticos;
SISTEMA UNIVERSITÁRIO BAIANO – Periodização Histórica: 1808/1930 – 1968/ 1996 – 1996/ 1999 – Atualidade;
CASO DA INDÚSTRIA PETROQUIMICA – Setores/ Histórico e Desafios/ Pólos Petroquímicos)
Tendo como foco a análise de quatro (4) Instituições universitárias baianas: UFBA- Universidade Federal da Bahia; UNIFACS – Universidade de Salvador; UCSAL- Universidade Católica de Salvador; UNEB – Universidade do Estado da Bahia. E o segmento industrial petroquímico de Salvador, Maia realizou, entre os anos de 2002 e 2004, pesquisa empírica de campo através de entrevistas pessoais semi-estruturadas e a aplicação de questionários segmentados para universidades e empresas enviados por mala direta.
Totalizaram 15 entrevistados do seguinte perfil: Universidades: 3 Chefes de Departamento, 2 Pró-Reitores de Pós Graduação, Pesquisa e Extensão, 1 Coordenador de Curso de Pós Graduação e 2 Pesquisadores; Empresas: 2 proprietários, 1 superintendente, 2 diretores de área e 1 gerente de P&D. Já nos questionários por mala direta, dos 36 enviados, 12 foram respondidos. As funções dos respondentes eram: Coordenador de Qualidade, coordenador de P&D, Gerente, Assessor da Diretoria, Técnico Administrativo, Analista de Recursos Humanos.
A Hipótese central que orienta o seu estudo é: a baixa integração universidade e empresa na rms (região metropolitana de salvador) deve-se à interveniência de variáveis temporais; geográficas, culturais, econômicas e políticas. Esta sua hipótese central foi desdobrada em 6 hipóteses parciais que foram respondidas em suas conclusões:
1-) O recente envolvimento da universidade baiana com a área petroquímica ratifica a dificuldade encontrada no processo de integração;
2-) A reduzida contribuição para a produção tecnológica por parte das universidades da RMS, reduz a motivação para a integração;
3-) A transferência de grandes empresas da RMS para o Sudeste-Sul do país e a migração de recursos humanos qualificados dificultam a integração;
4-) A parceria profissional entre acadêmicos e empresários é dificultada pela diversidade tecnológica entre ambos;
5-) A inexperiência dos pesquisadores em atividades empresariais dificulta a integração na RMS;
6-) A existência de número significativo de pequenas e micro-empresas na RMS reduz a possibilidade de integração.
As dificuldades para a integração universidade-empresa em seu estudo são muito bem sintetizadas no quadro Barreiras a Integração Universidade – Empresa.
| QUADRO 1 – Barreiras à integração | ||||
| NATUREZA | UNIVERSIDADE | EMPRESA | ||
| C
U L T U R A I S |
Lógica de Funcionamento | Liberdade acadêmica | Controle empresarial | |
| Objetivo perseguido | Formação de recursos humanos e criação e disseminação do conhecimento através do ensino e da pesquisa | Produção e geração de riqueza. Portanto, lucro, através da produtividade e crescimento no longo prazo | ||
| Visão de pesquisa | Ser orientada para o setor produtivo, caracteriza uma ciência impura | Atendimento do mercado com produtos competitivos, menor custo e maior retorno | ||
| Maior preocupação | Formação conceitual e acadêmica | As teorias são inaplicáveis e distanciadas da vida real | ||
| Tempo dispendido | Pesquisa de longo prazo, visão prospectiva | Soluções de curto prazo, visão imediatista | ||
| Apropriação dos Resultados | Publicação dos resultados | Necessidade de sigilo e segredo. Proteção empresarial | ||
| Representação do conhecimento | Publicação – transmissão de conhecimentos. (Conhecimento como patrimônio universal) | Aplicação – transformação dos conhecimentos em novos produtos, processos, sistemas organizacionais. (Conhecimento como propriedade privada) | ||
| Medição de sucesso/ recompensa | Número de publicações, citações, palestraa proferidas, prêmios obtidos | Aumentos salariais, ascensão hierárquica, participação nos resultados financeiros | ||
| Filosofia das administrações | Realização das necessidades sociais | Satisfação do interesse dos proprietários | ||
| O
R G A N I Z A C I O N A I S |
Tecnologia | Grande capacidade de desenvolvimento | 1) é mais rápido e financeiramente viável licenciar do que desenvolver
2) Reduzida capacidade de absorção de tecnologia |
|
| Comunicação | Pesquisador desconhece a linguagem administrativa | Os pequenos e médios empresários, quando buscam informação têm dificuldades de dizer o que querem | ||
| Estrutura | Complexa. Envolve Colegiados, por isso decisões demandam maior tempo | Necessidade de estrutura mais hierarquizada, para promover a rapidez, na tomada de decisões | ||
| P
R O F I S S I O N A I S |
P
E S S O A I S |
Grau de atualização | Docentes preparados para a pesquisa | Equipes desmotivadas e desatualizadas (mudando) |
| Formação | Monodisciplinar | Necessidade de conhecimentos interdisciplinares | ||
| Grau de conhecimento outro | Dificuldade de conhecer a realidade | Falta de conhecimento do potencial e da capacidade das universidades | ||
| Tipo de pesquisa | Maior valorização da pesquisa pura que da aplicada. Receio de mudança na direção, como manter a orientação para o desenvolvimento de produtos | Necessidade de pesquisa aplicada, para a resolução de problemas | ||
| Habilidades exigidas | Professor e pesquisador | Administradores ou gerentes de recursos | ||
| Contato com a realidade | Falta prática dos pesquisadores | Necessidade de conhecimento prático | ||
| Fonte: Quadro elaborado a partir das leituras de: Rappel (1999), Alvim (1998), Cunha (2001), Velho (1996), Souza e Brandão (1999), Campos (1999), Nunes (1995), Segatto (1996), Natividade (2001), Vieira (2001), Cruz (2000). | ||||
| MAIA, Maria das Graças Sodré Fraga – “A Integração Universidade-Empresa como fator de Desenvolvimento Regional: Um Estudo da Região Metropolitana de Salvador” – Tese de Doutorado – Universidade de Barcelona – 2005 – Págs. 44 | ||||
Graduada/ Mestre em Administração (UNIFACS – 1978; UFBA – 1996 – Projeto Integrado Monográfico/ Dissertativo - “Competitividade das Indústrias de Confecção de Salvador: um enfoque de custos”), Vice-Reitora para Desenvolvimento Interno da UNIVERSIDADE DE SALVADOR (UNIFACS), onde se bacharelou e atua desde 1979, cuja origem é a antiga Escola de Administração de Empresas da Bahia (1972), que atualmente conta, segundo o seu site, com trinta e oito (38) Grupos de Pesquisa (Engenharias e Ciência da Computação; Ciências Sociais Aplicadas e Humanidades) cadastrados na Plataforma Lattes (CNPq), Maia, apresenta as principais conclusões sobre a baixa integração universidade – empresa na Região Metropolitana de Salvador (Considerações Finais – Págs. 271/ 280):
- A relação recente das universidades com as empresas.
- A reduzida integração entre as universidades locais.
- O reduzido número de cursos voltados para a área tecnológica. A diversidade ideológica entre acadêmicos e empresários.
- A deficiente infra-estrutura laboratorial das universidades baianas, além da pouca disponibilidade de tempo dos docentes, seja pela elevada carga horária, seja pela diversidade de atividades realizadas, concorre para dificultar a execução de projetos de pesquisa.
Considera um dos pontos críticos da integração na RMS (Região Metropolitana de Salvador) a transferência da sede de muitas empresas de grande porte para o Sudeste/ Sul, onde as universidades são bem mais adiantadas em tecnologia petroquímica e outras, correlatas, considerando que embora o papel de inovar seja da empresa, universidades como a Unicamp, USP, UFRJ, entre outras, dispõem de várias criações tecnológicas inovadoras, patenteadas e prontas para desenvolvimento e transferência para a indústria. Cita como um dos exemplos o Instituto de Macromoléculas da UFRJ, que mantém convênios com várias empresas (Petrobrás, Petroflex, Rhodia, Ipiranga, Nawa etc.) e intercâmbio com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Unicamp, USP, Universidade Federal de São Carlos, além de universidades no exterior e institutos de pesquisas.
O estudo de Maia traz grandes contribuições à nossa reflexão sobre a importância da integração universidade-empresa como fator de alavancamento econômico- regional, porém, se situado numa visão jornalística contraditória, poderiam ser feitos os seguintes questionamentos:
1- O Polo Petroquimico de Camaçari implantado durante o governo Geisel (1974/ 1978), que ocupara anteriormente a presidência da Petrobrás, baseado no chamado modelo economico tri-partite (composição acionária de capital: nacional/ estatal/ multinacional – gestão partilhada por holdings: petroquisa/ norquisa), idealizado por Rômulo de Almeida (think tank baiano – chefe da assessoria econômica – governo vargas – década 1950), foi analisado na dissertação de mestrado de Marcus Alban Suarez (Petroquimica e Tecnoburocracia – Capítulos do Desenvolvimento Capitalista no Brasil – EAESP/ FGV – Orientadores: Henrique Ratner/Luiz Carlos Bresser Pereira – 1985), mostrando claramente que dado seu artificialismo intervencionista (resultados econômicos baseados em reserva de mercado/ lobby político), sofreria forte impacto negativo/ inviabilização operacional no contexto de uma economia capitalista aberta/ globalizada, como de fato passou a ocorrer a partir da década de 1990. Será que estes fatores histórico-estruturais desconsiderados no trabalho não seriam mais significativos como barreiras a integração universidade-empresa na região petroquímica de Salvador, do que as sugeridas pela autora?
2- Bibliografias como: FORMAÇÃO DA COMUNIDADE CIENTÍFICA NO BRASIL/ UNIVERSIDADES E INSTITUIÇÕES CIENTÍFICAS NO RIO DE JANEIRO – Simon Schwartzman; HISTÓRIA DA CIENCIA NO BRASIL – Acervo de Depoimentos – FINEP/ CPDOC-FGV (UNICAMP – ZEFERINO VAZ; COPPE/ UFRJ – ALBERTO COIMBRA; INSTITUTO DE BIOFÍSICA/ UFRJ – CARLOS CHAGAS FILHO); MONTENEGRO – As Aventuras do Marechal que fez uma Revolução nos Céus do Brasil – Fernando Morais; IMA-INSTITUTO DE MACROMOLÉUCLAS – 30 Anos – 1977/ 2007 – Prof. Eloísa Biasotto Mano; PASTEUR – Biografia Não Autorizada; resgatam a historicidade e a gênese de como foram construídos e desenvolvidos os principais centros pensantes do Brasil. Apesar das 437 referencias utilizadas por Maia, tais fontes foram desconsideradas. Será que a maior integração das empresas com as universidades da região sudeste e sul, não estariam mais ligadas a produção intelectual de fronteira desses centros Pensantes, necessitando resgatar a sua historicidade e gênese de como foram construídos, para contrapor á realidade encontrada na Região Metropolitana de Salvador e servir de paradigma para o seu desenvolvimento?
3- A metodologia utilizada pela autora, denominada de diagnóstico analítico descritivo por indução, é baseada num texto antigo de MOTTA, Paulo Roberto de Mendonça (Diagnóstico e inovação organizacional: dimensões teóricas.coletâneas Modernização Administrativa e Diagnóstico Administrativo. IBAM, 1976), centrado em projetos de consultoria. Considerando a definição de Newton Sucupira no parecer 977/ 1965, que regulamenta a pós graduação no Brasil, podemos considerar este estudo de doutorado, verdadeira pesquisa cientifica Stricto Sensu, voltada para estudar um caso particular para, a partir daí, extrair uma teoria geral, ou caracteriza-se mais como um projeto de consultoria, voltado para aplicação em casos específicos?
Repara-se que apesar da comunicação ser apresentada como uma das barreiras a integração. Tal fator não tem importância central no estudo de Maia, como constata-se em suas conclusões, como alavancador do Desenvolvimento Regional e da Integração Universidade-Empresa.