UNIVERSIDADE POPULAR ABERTA DO III MILÊNIO

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Universidade Empreendedora: Um Novo Paradigma de Interação Universidade-Empresa

Em Artigos, janeiro 28, 2010 às 11:42 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

A Profª Lúcia Radler dos Guaranys em sua audaciosa tese de doutorado “INTERAÇÃO UNIVERSIDADE-EMPRESA E A GESTAÇÃO DE UMA UNIVERSIDADE EMPREENDEDORA – A EVOLUÇÃO DA PUC-RIO (COPPE/ PRODUÇÃO – APIT – Avaliação de Projetos Industriais e Tecnológicos – Orientadora: Profª PhD Anne Marie Maculan), após 14 anos de estudo (1992/ 2006), além do grande know-how analítico tecnológico desenvolvido na FINEP (Analista do Depto de Fomento, Análise e Acompanhamento Técnico/ Área de Investimentos em Inovação), apresenta a universidade empreendedora como um modelo promissor para a integração universidade-empresa e a inovação tecnológica.

Partindo da classificação proposta por H. Etzkowitz  (“The European Entrepreneurial University: an alternative to the US model” in Industry & Higher Education, October, 2003 – págs. 325-335) sobre a EVOLUÇÃO DA UNIVERSIDADE (Universidade de Ensino/ Universidade de Pesquisa/ Universidade Politécnica de Pesquisa/ Universidade Empreendedora – Quadro 8 – Pág. 53),  que denomina esse processo de 1ª/ 2ª REVOLUÇÕES ACADEMICAS (Transição: Universidade de Ensino/ Pesquisa/ Politécnica de Pesquisa/ Empreendedora), Guaranys identifica três tipos de grupos de pesquisa: tradicional, empreendedor e em transição, relacionados à universidade de pesquisa e empreendedora. Constatando que esses tipos expressam um processo evolutivo iniciado nos anos 90 e são resultado de um conjunto de mudanças de comportamento, de valores e de práticas organizacionais, cujo processo está na origem de mudanças mais profundas na capacidade de valorização econômica dos conhecimentos gerados através de pesquisas acadêmicas.

E conclui a partir do seu detalhado Quadro 15 (Características da Universidade de Pesquisa e da Universidade Empreendedora – Pág. 271), que o modelo de universidade empreendedora surge como o paradigma a ser perseguido como o ideal de interação universidade-empresa.

Quadro 15

Características da Universidade de Pesquisa e da Universidade Empreendedora

Universidade de Pesquisa Universidade Empreendedora
Objetivo: ensino, pesquisa e extensão Idem + desenvolvimento econômico
Forma RH para a academia e para as empresas no mercado Idem + para gerar as empresas egressas
Formação especializada Idem + áreas relacionadas à gestão empresarial
Pesquisa fundamental, aplicada e tecnológica, além de protótipos, processos ou serviços para atender à demanda de empresas Idem + para geração de empresas e transferência de

tecnologia para empresas existentes

Núcleo de Propriedade Intelectual: unidade

complementar opcional

Núcleo de Propriedade Intelectual: unidade complementar obrigatória, articulada com os grupos de pesquisa e laboratórios, com a incubadora de empresas e com o parque tecnológico
Formação empreendedora através de algumas disciplinas eletivas Formação empreendedora articulada e abrangente,

oferecida como uma segunda área de competência

Graduação de alunos Idem + Graduação de empresas
Incubadora de empresas: unidade complementar opcional Incubadora de empresas: unidade complementar obrigatória
Pré-incubação: atividade opcional relacionada à incubadora de empresas Pré-incubação: atividade regular dos laboratórios de pesquisa e da incubadora de empresas
Parque tecnológico: unidade complementar opcional Parque tecnológico: unidade complementar obrigatória, articulada com a incubadora de empresas e com os grupos de pesquisa e laboratórios
Fonte: INTERAÇÃO UNIVERSIDADE-EMPRESA E A GESTAÇÃO DE UMA UNIVERSIDADE EMPREENDEDORA – A EVOLUÇÃO DA PUC-RIO – LUCIA RADLER DOS GUARANYS – TESE DE DOUTORADO – ENGENHARIA DE PRODUÇÃO – COPPE/ UFRJ – MARÇO – 2006 – Pág. 271

Quadro 8

Evolução da Universidade

Tipo de Universidade Características
Universidade de Ensino Instituição para preservação e transmissão do conhecimento
Universidade de Pesquisa Instituição de Ensino, Pesquisa e Extensão

Modelo Humboldtiano que enfatiza a interconecção entre ensino e pesquisa, e entre a universidade e o estado nação.

Universidade Politécnica de Pesquisa Instituição de Ensino e Relações com a Indústria através de vários

tipos de compromissos de Pesquisa

Há grupos de pesquisa quase-empresas

Universidade Empreendedora Instituição de Ensino, Pesquisa e Desenvolvimento Econômico e Social
Fonte: Etzkowitz, H. 2003a. “The European Entrepreneurial University: an alternative to the US model” in Industry & Higher Education, October, 325-335.

Utilizando uma base teórica bibliográfica nacional/ internacional de fronteira (Livros/ Artigos: 91 Refs + Documentos Institucionais: 15 + Artigos em Sites/ Jornais/ Revistas de Divulgação/ Entretenimento: 2 Refs; Total: 108 Refs/ 9 Págs. – Págs. 317/ 325), a autora realiza através de sólidos Métodos Científico-Investigativos (Observação Participante Etno-gráfica/ Action-Research; Dados Secundários – Mídia/ Documentação; Entrevistas Semi-Estruturadas; Questionário Duplo: Empresas Parceiras/ Clientes – 47 Itens/ 2 Páginas; Empresas Egressas do Grupo de Pesquisa/ Laboratório Universitário- 52 Itens/ 2 Páginas) estudo de caso de quatro grupos de pesquisa da PUC-Rio: TecGraf e o Laboratório de Engenharia de Software, ambos do Departamento de Informática; Grupo de Ótica e Grupo de Rádio Propagação, ambos do Centro de Estudos e Telecomunicações.

Guaranys analisou as relações estabelecidas com as empresas parceiras/ clientes e com as  empresas de base tecnólogica egressas destes grupo, avaliando os processos de transferência de conhecimento e de aprendizagem existentes nestas interações, o novo papel exercido pelas empresas surgidas deste grupo e os tipos de conhecimento transferido nessas interações.

A PUC/RJ, em função da grande crise financeira do início da década de 1990 e advento da chamada Sociedade de Informação (Internet), viu-se obrigada, como condição de sobrevivência, dado seu perfil de universidade particular-religiosa (confessional) a buscar recursos externos na forma de parcerias empresariais, onde as incubadoras/ gestação de novos empreendimentos tornaram-se centrais.

Devemos reconhecer que a concepção de UNIVERSIDADE EMPREENDEDORA, a gestação de novos empreendimentos tecnológicos, mesmo que ainda muitos desses Projetos Tecnológicos sejam realizados em parcerias com órgãos estatais e/ou financiados com verbas públicas, como demonstra o próprio estudo de Lúcia Guaranys , tal modelo nos parece promissor no aprimoramento da integração universidade – empresa. Porém, pergunta-se:

Poderá este modelo ser reproduzido com sucesso em outras situações? Ou a PUC Rio possui características intrínsecas que alavancam por si só a sua interação com as empresas, independente de qualquer projeto de universidade empreendedora?

Nesse sentido, podem ser feitos os seguintes questionamentos:

  • A influência da PUC/ RJ na POLITICA ECONOMICA BRASILEIRA durante o GOVERNO FHC, na condição de MENTORES INTELECTUAIS (Think Tank), quer do chamado CONSENSO DE WASHINGTON (“Inertial Inflation and Monetary Reform in Brazil” – Institute for International Economics – 1984 – University Paper – Pérsio Arida/ André Lara Resende), como do PLANO REAL, não alavanca muito mais a INTERAÇÃO UNIVERSIDADE-EMPRESA (PUC/RJ), do que qualquer tipo de UNIVERSIDADE EMPREENDEDORA?

  • O objetivo da PUC Rio, desde a sua criação, de atuar como FRONTEIRA INTELECTIVA AVANÇADA da NOVA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA CATÓLICA NO BRASIL (Papa Leão XIII – Encíclica Rerum Novarum; Cardeal Dom Sebastião Leme; Filósofo Jesuíta Leonel Franca), induzindo a formação de uma NOVA ELITE DIRIGENTE   SOCIALMENTE ORIENTADA (Defesa do Capitalismo Humanizado – ADCE – Associação dos Dirigentes Cristãos de Empresa), educada na rígida PEDAGOGIA DISCIPLINAR JESUÍTICA,  não alavanca muito mais a INTERAÇÃO UNIVERSIDADE-EMPRESA do que qualquer tipo de PROGRAMA DE UNIVERSIDADE empreendedora?

  • A presença do PROF. LUIZ ALBERTO COIMBRA, Fundador/ 1º Diretor da COPPE/ UFRJ (1964/ 1975), bem como do ECONOMISTA JOSÉ PELÚCIO, Idealizador/ 1º Presidente da FINEP (Década de 1970), como membros ativos do CONSELHO SUPERIOR PUC/ RJ durante longo período (Décadas de 1970/ 1980), permitindo acesso privilegiado a fontes PÚBLICAS/ PRIVADAS/ FILANTRÓPICAS DE FOMENTO CIENTÍFICO-PEDAGÓGICO, relacionadas com o seu altíssimo grau de excelência acadêmica, não alavanca muito mais a interação universidade-empresa do que qualquer tipo de programa de universidade empreendedora?

  • A PESQUISADORA LÚCIA RADLER DOS GUARANYS possui sólida FORMAÇÃO HUMANISTA (Bacharelado em Pedagogia/ Mestrado em Ciências Sociais – PUC/ RJ), além de atuar como professora de Sociologia (IFCS/ FACC/ UFRJ). No entanto, não utilizou nenhuma bibliografia que tratasse sobre as questões das RAÍZES SOCIAIS DAS LIDERANÇAS EMPRESARIAIS, nem mesmo do tradicional Pierre Bourdieu (Papel das Escolas Superiores Elitistas na Reprodução/ Legitimação dos Interesses Econômico/ Empresariais Dominantes).  Ao optar em suprimir tais fatores (exógenos), simplificando o seu modelo explicativo, não poderá comprometer a futura aplicabilidade deste próprio modelo para outros contextos sócio políticos, impossibilitando alavancar similares cases de INTERAÇÃO UNIVERSIDADE-EMPRESA, onde não exista o extraordinário PODER INSTITUCIONAL EXTRINSECO inerente à HISTORICIDADE da PUC/ RJ?

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Você Sabia?

A PUC Rio foi inaugurada em 1941 (Reconhecimento Oficial 1946; Título de Pontifícia/ Vaticano – 1947), ainda em instalações anexas ao COLEGIO JESUÍTA SANTO INÁCIO (Rua São Clemente – Botafogo – RJ/RJ), baseada num detalhado planejamento, iniciado nas décadas iniciais do Século XX, através do CENTRO DOM VIDAL (Jackson de Figueiredo/ Tristão de Ataíde – pseudônimo de Alceu de Amoroso Lima). Para saber mais, consultar: “UNIVERSIDADES E INSTITUIÇÕES CIENTÍFICAS DO RJ” (Cnpq – 1982) de SIMON SCHWARTZMAN. ANTONIO PAIM (Professor/ Filósofo) realizou um CASE STUDY sobre a gênese histórica da PUC/RJ.

Você Sabia?

O DI-DEPTO DE INFORMÁTICA PUC/RJ,  desde sua gênese na década de 1960, quando disputava a primazia na informática nacional com outros concorrentes destacados (ITA – Instituto Tecnológico da Aeronáutica; NEC/ UFRJ – Núcleo de Computação Eletrônica; IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; LTB/ Páginas Amarelas – Lista Telefônica Brasileira), contou com um fantástico APORTE POLÍTICO INSTITUCIONAL. Na inauguração do 1º MAINFRAME BURROUGHS no BRASIL estabeleceu-se verdadeira disputa sobre quem iria cortar a FITA SIMBÓLICA, já que estavam presentes, tanto o PRESIDENTE JK (Juscelino Kubitschek), como o futuro PAPA PAULO VI (Cardeal Giovanni Battista Montini – 1897/ 1978 – então Secretário de Estado do Vaticano e futuro líder, após a morte do Papa João XXIII,  do Concílio Vaticano II – Doutrina Social da Igreja. Exigindo na ocasião ampla diplomacia conciliatória, para não melindrar suscetibilidade, por parte dos dirigentes presentes (Reitor: Padre Jesuíta Laércio de Moura e Presidente da Borroughs).

Você Sabia?

O professor Luis Alberto Coimbra, após o seu doutoramento nos EUA (Vanderbilt University – Orientador: Frank Tyler – Década de 1940), fora recrutado para lecionar em ESCOLAS SUPERIORES JESUÍTAS EM SP (FCA- Fundação Ciências Aplicadas/ FEI – Faculdade de Engenharia Industrial/ ESAN – Escola Superior de Administração de Negócios – Direção: Padre Roberto Sabóia de Medeiros, s.j. – Líder da Ação Católica no Brasil).

PARA SABER MAIS sobre as raízes sociais do empresariado:

BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos

(“Origens étnicas e sociais do empresário paulista” – Revista de Administração de Empresas – 1962; “Origens étnicas dos dirigentes das empresas paulistas comparada com a dos empresários” – Capítulo de Livro – 1972;

“Modernization of Brazilian business enterprise, class origins, social mobility, and carreer of Paulista business executives” – in “Empresários e Administradores no Brasil – 1974;

“Mobilidade e Carreira dos Dirigentes das Empresas Paulistas” – Tese de Doutorado – FEA/ USP – Orientadores:  Diva Benevides Pinho/ Delfim Neto– 1963-1972;

“A Formação Contraditória das Classes Dominantes”  – 1980; http://www.bresserpereira.org.br);

BARCELOS, Caco (“GV/SP, a Escola do Poder – Difícil encontrar uma grande empresa que não tenha um ou vários executivos formados por essa escola de líderes” – Revista Senhor/ Matéria de Capa – Editor Chefe: Murilo Felisberto – março/ 1980);

COVRE, Maria de Lourdes Manzini Covre

(“A Formação e a Ideologia do Administrador de Empresa – Vozes – Petrópolis – 1982)

DURAND, José Carlos (“Educação e Hegemonia de Classe: As funções ideológicas da escola” – Org.- Jorge Zahar – 1979;  “A serviço da coletividade: uma crítica à sociologia das profissões. Revista de Administração – v. 15, n. 6 nov/ dez, p. 59-69, 1975);

BOURDIEU, Pierre-1930-2002/ CHAMBOREDON, Jean-Claude

(“Ofício de Sociólogo: metodologia na pesquisa na sociologia” – tradução: Guilherme João de Freitas Teixeira – 5ª Edição – Petrópolis – Vozes – 2004);

BOURDIEU, Pierre/ PASSERON, Jean Claude

(“A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino” – Tradução: Reynaldo Bairão – Francisco Alves – RJ – 1975);

BORDIEU, Pierre

(“Escritos de Educação” – Seleção/ Introdução/ Notas – Maria Alice Nogueira/ Afrânio Catani – Vozes – Petrópolis – 2ª edição – 1999);

BOURDIEU, Pierre (“A economia das trocas simbólicas” – introdução/ organização/ seleção – Sergio Micéli; tradução: Sérgio Micéli – et al. – Perspectiva – SP – 1974;

“Desencantamento do Mundo: estruturas econômicas e estruturas temporais – Perspectiva – SP – 1979; “A distinção: crítica social do julgamento” – tradução Daniela Kern/ Guilherme J.F. Teixeira – Zouk/ Porto Alegre – Edusp/ SP – 2007);

NOGUEIRA, Maria Alice/ NOGUEIRA, Cláudio Marques Martins

(“Bourdieu & a educação” – 3ª Edição – Autêntica – BH – 2009);

O GRUPO de ECONOMIA DA PUC/ RIO. Dominante no GOVERNO FHC:

ANDRE LARA RESENDE (Negociador da Dívida Externa/ Assessor do Presidente/ Presidente do BNDES; Vice-Presidente do Unibanco/ Fundador do Banco Matrix; PhD MIT-EUA);

ANTONIO FRAGA (Presidente do Banco Central; Diretor da Soros Fundation/ Diretor do Salomon Brother; PhD Yale -EUA);

EDMAR BACHA (Assessor do Ministro da Fazenda/ Presidente do BNDES/ Presidente da BBA Securities; PhD Princeton – EUA);

EDWARD AMADEO (Ministro do Trabalho/ Secretaria de Política Econômica/ Professor PUC/ Consultor; PhD Harvard-EUA);

ELENA LANDAU (Diretora do BNDES; Consultora do Bear Stearns/ Consultora do Opportunity; DSc. PUC/RJ);

FRANCISCO LOPES (Diretor do Banco Central/ Presidente do Banco Central; Consultor do Banco Denasa/ Presidente Macrométrica Pesquisa Econômica; PhD Harvard – EUA);

GUSTAVO FRANCO (Diretor do Banco Central/ Presidente do Banco Central; Trabalhou no Banco Garantika/ Sócio Rio Bravo (Swiss Re); PhD Berkeley – EUA);

PEDRO MALAN (Negociador da Dívida Externa/ Presidente do Banco Central/ Ministro da Fazenda; Diretor do Banco Mundial/ Diretor do BID; PhD Berckeley/ EUA);

PÉRSIO ARIDA (Presidente do Banco Central/ Presidente do BNDES; Fundador do Banco BBA/ Sócio do Oportunity; PhD MIT – EUA);

WINSTON FRITSCH (Secretário de Política Econômica; Presidente do Banco Dresdner do Brasil; PhD Cambridge – Inglaterra).

FONTE:OS HOMENS DO PRESIDENTE – banqueiros, financistas, grandes empresários e oligarcas que estão vendendo o Brasil e destruindo os direitos sociais” (Luiz Marcos Gomes; Editora Viramundo – Op. cit. – Pág. 80).

PARA SABER MAIS sobre a influência epensamento dos economistas, consultar: “CONVERSAS COM ECONOMISTAS BRASILEIROS” – (Volume I/ II – Organizadores: José Márcio Rego/ Ciro Biderman/ Luis Felipe L. Cozac/ Guido Mantega  – Editora 34 – 1996/ 1999)


Integração Universidade-Empresa pode reverter a perda de competitividade Regional? O Caso da Indústria Petroquímica de Salvador

Em Artigos, janeiro 27, 2010 às 3:11 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

O estudo de doutorado realizado por Maria das Graças Sodré Fraga Maia intitulado:  “A Integração Universidade-Empresa como Fator de Desenvolvimento Regional: Um Estudo da Região Metropolitana de Salvador”, baseado numa diversificada e abrangente revisão bibliográfica (437 referências), apresenta um panorama bem abrangente sobre o cenário da integração universidade – empresa, abordando os principais tópicos:

A HISTÓRIA DA INTEGRAÇÃO UNIVERSIDADE-EMPRESA – Mundo/ Brasil/ Bahia; Apoio à Integração Universidade/ Empresa – Entidades/ Programas/ Fontes de Financiamentos/ Fundos Setoriais;

MODELOS DE INTEGRAÇÃO – Relações Pessoais/ Informais/ Formais/ Institucionais/ Estruturas Especiais/ Impacto no Desenvolvimento Regional;

SISTEMA EMPRESARIAL BAIANO – Empresário/ Inovação/ Empreendedorismo/ Contexto Empresarial Baiano – Pólos Calçadista/ Automotivo/ Náutico/ Cerâmico/ Design/ Cosméticos/ Vestuário/ Moveleiro/ Papel e Celulose/ Mineração/ Sisaleiro/ Agronegócio/ Turísticos;

SISTEMA UNIVERSITÁRIO BAIANO – Periodização Histórica: 1808/1930 – 1968/ 1996 – 1996/ 1999 – Atualidade;

CASO DA INDÚSTRIA PETROQUIMICA – Setores/ Histórico e Desafios/ Pólos Petroquímicos)

Tendo como foco a análise de quatro (4) Instituições universitárias baianas: UFBA- Universidade Federal da Bahia; UNIFACS – Universidade de Salvador; UCSAL- Universidade Católica de Salvador; UNEB – Universidade do Estado da Bahia. E o segmento industrial petroquímico de Salvador, Maia realizou, entre os anos de 2002 e 2004, pesquisa empírica de campo  através de entrevistas pessoais semi-estruturadas e a aplicação de questionários segmentados para universidades e empresas enviados por mala direta.

Totalizaram 15 entrevistados do seguinte perfil: Universidades: 3 Chefes de Departamento, 2 Pró-Reitores de Pós Graduação, Pesquisa e Extensão, 1 Coordenador de Curso de Pós Graduação  e 2 Pesquisadores; Empresas: 2 proprietários, 1 superintendente, 2 diretores de área e 1 gerente de P&D. Já nos questionários por mala direta, dos 36 enviados, 12 foram respondidos. As funções dos respondentes eram: Coordenador de Qualidade, coordenador de P&D, Gerente, Assessor da Diretoria, Técnico Administrativo, Analista de Recursos Humanos.

A Hipótese central que orienta o seu estudo é: a baixa integração universidade e empresa na rms (região metropolitana de salvador) deve-se à interveniência de variáveis temporais; geográficas, culturais, econômicas e políticas. Esta sua hipótese central foi desdobrada em 6 hipóteses parciais que foram respondidas em suas conclusões:

1-) O recente envolvimento da universidade baiana com a área petroquímica ratifica a dificuldade encontrada no processo de integração;

2-)  A reduzida contribuição para a produção tecnológica por parte das universidades da RMS, reduz a motivação para a integração;

3-) A transferência de grandes empresas da RMS para o Sudeste-Sul do país e a migração de recursos humanos qualificados dificultam a integração;

4-) A parceria profissional entre acadêmicos e empresários é dificultada pela diversidade tecnológica entre ambos;

5-) A inexperiência dos pesquisadores em atividades empresariais dificulta a integração na RMS;

6-) A existência de número significativo de pequenas e micro-empresas na RMS reduz a possibilidade de integração.

As dificuldades para a integração universidade-empresa em seu estudo são muito bem sintetizadas no quadro Barreiras a Integração Universidade – Empresa.

QUADRO 1 – Barreiras à integração
NATUREZA UNIVERSIDADE EMPRESA
C

U

L

T

U

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I

S

Lógica de Funcionamento Liberdade acadêmica Controle empresarial
Objetivo perseguido Formação de recursos humanos e criação e disseminação do conhecimento através do ensino e da pesquisa Produção e geração de riqueza. Portanto, lucro, através da produtividade e crescimento no longo prazo
Visão de pesquisa Ser orientada para o setor produtivo, caracteriza uma ciência impura Atendimento do mercado com produtos competitivos, menor custo e maior retorno
Maior preocupação Formação conceitual e acadêmica As teorias são inaplicáveis e distanciadas da vida real
Tempo dispendido Pesquisa de longo prazo, visão prospectiva Soluções de curto prazo, visão imediatista
Apropriação dos Resultados Publicação dos resultados Necessidade de sigilo e segredo. Proteção empresarial
Representação do conhecimento Publicação – transmissão de conhecimentos. (Conhecimento como patrimônio universal) Aplicação – transformação dos conhecimentos em novos produtos, processos, sistemas organizacionais. (Conhecimento como propriedade privada)
Medição de sucesso/ recompensa Número de publicações, citações, palestraa proferidas, prêmios obtidos Aumentos salariais, ascensão hierárquica, participação nos resultados financeiros
Filosofia das administrações Realização das necessidades sociais Satisfação do interesse dos proprietários
O

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G

A

N

I

Z

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C

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N

A

I

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Tecnologia Grande capacidade de desenvolvimento 1) é mais rápido e financeiramente viável licenciar do que desenvolver

2) Reduzida capacidade de absorção de tecnologia

Comunicação Pesquisador desconhece a linguagem administrativa Os pequenos e médios empresários, quando buscam informação têm dificuldades de dizer o que querem
Estrutura Complexa. Envolve Colegiados, por isso decisões demandam maior tempo Necessidade de estrutura mais hierarquizada, para promover a rapidez, na tomada de decisões
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S

Grau de atualização Docentes preparados para a pesquisa Equipes desmotivadas e desatualizadas (mudando)
Formação Monodisciplinar Necessidade de conhecimentos interdisciplinares
Grau de conhecimento outro Dificuldade de conhecer a realidade Falta de conhecimento do potencial e da capacidade das universidades
Tipo de pesquisa Maior valorização da pesquisa pura que da aplicada. Receio de mudança na direção, como manter a orientação para o desenvolvimento de produtos Necessidade de pesquisa aplicada, para a resolução de problemas
Habilidades exigidas Professor e pesquisador Administradores ou gerentes de recursos
Contato com a realidade Falta prática dos pesquisadores Necessidade de conhecimento prático
Fonte: Quadro elaborado a partir das leituras de: Rappel (1999), Alvim (1998), Cunha (2001), Velho (1996), Souza e Brandão (1999), Campos (1999), Nunes (1995), Segatto (1996), Natividade (2001), Vieira (2001), Cruz (2000).
MAIA, Maria das Graças Sodré Fraga – “A Integração Universidade-Empresa como fator de Desenvolvimento Regional: Um Estudo da Região Metropolitana de Salvador” – Tese de Doutorado – Universidade de Barcelona – 2005 – Págs. 44

Graduada/ Mestre em Administração (UNIFACS – 1978; UFBA – 1996 – Projeto Integrado Monográfico/ Dissertativo -  “Competitividade das Indústrias de Confecção de Salvador: um enfoque de custos”), Vice-Reitora para Desenvolvimento Interno da UNIVERSIDADE DE SALVADOR (UNIFACS), onde se bacharelou e atua desde 1979, cuja origem é a antiga Escola de Administração de Empresas da Bahia (1972), que atualmente conta, segundo o seu site, com trinta e oito (38) Grupos de Pesquisa (Engenharias e Ciência da Computação; Ciências Sociais Aplicadas e Humanidades) cadastrados na Plataforma Lattes (CNPq), Maia, apresenta as principais conclusões sobre a baixa integração universidade – empresa na Região Metropolitana de Salvador (Considerações Finais – Págs. 271/ 280):

  • A relação recente das universidades com as empresas.
  • A reduzida integração entre as universidades locais.
  • O reduzido número de cursos voltados para a área tecnológica. A diversidade ideológica entre acadêmicos e empresários.
  • A deficiente infra-estrutura laboratorial das universidades baianas, além da pouca disponibilidade de tempo dos docentes, seja pela elevada carga horária, seja pela diversidade de atividades realizadas, concorre para dificultar a execução de projetos de pesquisa.

Considera um dos pontos críticos da integração na RMS (Região Metropolitana de Salvador) a transferência da sede de muitas empresas de grande porte para o Sudeste/ Sul, onde as universidades são bem mais adiantadas em tecnologia petroquímica e outras, correlatas, considerando que embora o papel de inovar seja da empresa, universidades como a Unicamp, USP, UFRJ, entre outras, dispõem de  várias criações tecnológicas inovadoras, patenteadas e prontas para desenvolvimento e transferência para a indústria. Cita como um dos exemplos o Instituto de Macromoléculas da UFRJ, que mantém convênios com várias empresas (Petrobrás, Petroflex, Rhodia, Ipiranga, Nawa etc.) e intercâmbio com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Unicamp, USP, Universidade Federal de São Carlos, além de universidades no exterior e institutos de pesquisas.

O estudo de Maia traz grandes contribuições à nossa reflexão sobre a importância da integração universidade-empresa como fator de alavancamento econômico- regional, porém, se situado numa visão jornalística contraditória, poderiam ser feitos os seguintes questionamentos:

1- O Polo Petroquimico de Camaçari implantado durante o governo Geisel (1974/ 1978), que ocupara anteriormente a presidência da Petrobrás, baseado no chamado modelo economico tri-partite (composição acionária de capital: nacional/ estatal/ multinacional – gestão partilhada por holdings: petroquisa/ norquisa), idealizado por Rômulo de Almeida (think tank baiano – chefe da assessoria econômica – governo vargas – década 1950), foi analisado na dissertação de mestrado de Marcus Alban Suarez (Petroquimica e Tecnoburocracia – Capítulos do Desenvolvimento Capitalista no Brasil – EAESP/ FGV – Orientadores: Henrique Ratner/Luiz Carlos Bresser Pereira – 1985), mostrando claramente que dado seu artificialismo intervencionista (resultados econômicos baseados em reserva de mercado/ lobby político), sofreria forte impacto negativo/ inviabilização operacional no contexto de uma economia capitalista aberta/ globalizada, como de fato passou a ocorrer a partir da década de 1990. Será que estes fatores histórico-estruturais desconsiderados no trabalho não seriam mais significativos como barreiras a integração universidade-empresa na região petroquímica de Salvador, do que as sugeridas pela autora?

2- Bibliografias como: FORMAÇÃO DA COMUNIDADE CIENTÍFICA NO BRASIL/ UNIVERSIDADES E INSTITUIÇÕES CIENTÍFICAS NO RIO DE JANEIRO – Simon Schwartzman; HISTÓRIA DA CIENCIA NO BRASIL – Acervo de Depoimentos – FINEP/ CPDOC-FGV (UNICAMP – ZEFERINO VAZ; COPPE/ UFRJ – ALBERTO COIMBRA; INSTITUTO DE BIOFÍSICA/ UFRJ – CARLOS CHAGAS FILHO);  MONTENEGRO – As Aventuras do Marechal que fez uma Revolução nos Céus do Brasil – Fernando Morais;  IMA-INSTITUTO DE MACROMOLÉUCLAS – 30 Anos – 1977/ 2007  – Prof. Eloísa Biasotto Mano; PASTEUR – Biografia Não Autorizada; resgatam a historicidade e a gênese de como foram construídos e desenvolvidos os principais centros pensantes do Brasil. Apesar das 437 referencias utilizadas por Maia, tais fontes foram desconsideradas. Será que a maior integração das empresas com as universidades da região sudeste e sul, não estariam mais ligadas a produção intelectual de fronteira desses centros Pensantes, necessitando resgatar a sua historicidade e gênese de como foram construídos, para contrapor á realidade encontrada na Região Metropolitana de Salvador e servir de paradigma para o seu desenvolvimento?

3- A metodologia utilizada pela autora, denominada de diagnóstico analítico descritivo por indução, é baseada num texto antigo de MOTTA, Paulo Roberto de Mendonça (Diagnóstico e inovação organizacional: dimensões teóricas.coletâneas Modernização Administrativa e Diagnóstico Administrativo. IBAM, 1976), centrado em projetos de consultoria. Considerando a definição de Newton Sucupira no parecer 977/ 1965, que regulamenta a pós graduação no Brasil, podemos considerar este estudo de doutorado, verdadeira pesquisa cientifica Stricto Sensu, voltada para estudar um caso particular para, a partir daí, extrair uma teoria geral, ou caracteriza-se mais como um projeto de consultoria, voltado para aplicação em casos específicos?

Repara-se que apesar da comunicação ser apresentada como uma das barreiras a integração. Tal fator não tem importância central no estudo de Maia, como constata-se em suas conclusões, como alavancador do Desenvolvimento Regional e da Integração Universidade-Empresa.

Por um Jornalismo Empresarial Brasileiro Investigativo e Crítico

Em Artigos, janeiro 27, 2010 às 1:20 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Artigo Postado no Observatório da Imprensa em 19/01/2010

O jornalismo empresarial brasileiro deve ser repensado. A abordagem superficial, comumente adotada pela imprensa de negócios no Brasil, impede que ele exerça um papel fiscalizador, seja mais ativo e influente no aprimoramento da gestão das empresas e contribua, significativamente, para desenvolver uma maior consciência gerencial na população.

Muitas vezes, ao reproduzir o discurso formal da cúpula dirigente e matérias pautadas pela área de relações públicas e assessoria de imprensa das empresas de forma acrítica, como verdades absolutas, acaba funcionando como passarelas para os executivos mostrarem os seus “rostinhos” e divulgarem as suas marcas na calçada da fama, similar ao ocorrido nos desfiles fashion de moda e programas de colunistas sociais.

Normalmente, têm-se artigos escritos por especialistas, ou cases, histórias e biografias de sucesso reproduzidos pelo discurso (bla-bla-blá) empresarial, formalizados, impossibilitando o leitor e/ou acionista de tomar contato com o contraditório dos fatos e fazer um julgamento mais criterioso da realidade. Transmitindo uma realidade ilusória – “mentiras bem contadas” – sobre a verdadeira dinâmica e funcionamento do sistema capitalista. Histórias para “boi dormir”, para quem entende do assunto.

Business, palavra non grata

Investigação e crítica não fazem parte da rotina da imprensa de negócios no Brasil. Analisar (fuçar) documentos típicos do universo corporativo, como atas de reunião, relatórios de atividades, balanços financeiros, demonstrações contábeis ou comunicados aos acionistas não é comum. Questionar e colocar “contra a parede” os entrevistados, ao invés de ser “engolido” por eles, menos ainda. Falar em abordagens “tipo” Watergate, e em casos como os retratados por Frederico Vasconcellos em seu livro Anatomia da Reportagem: Como Investigar Empresas, Governos e Tribunais (Ed. Publifolha, 2008), ainda é pura miragem quando o assunto são empresas. Infelizmente. Tem-se mais propaganda do que reportagens efetivamente jornalísticas.

Demandam-se capacitar recursos humanos capazes de integrar formação jornalística com gestão empresarial. Normalmente, tem-se o administrador de empresas sem o entendimento, a vivência e o interesse necessários de jornalismo; e o jornalista, sem o entendimento, a vivência e o interesse necessários de administração de empresas. Para mudar, é necessário, acima de tudo, questionar a própria formação universitária que contribui para manter esta situação.

As universidades, divididas por departamentos, áreas do saber, dificultam a realização de formações híbridas, multidisciplinares, necessidade crescente no mercado de trabalho, em geral, e na imprensa em particular. Muitas vezes, a saída são programas de trainees, formais e informais, aos recém-formados, para suprir tal deficiência. Esse viés na formação reproduz-se nas redações. Ainda há grandes resistências e, muitas vezes, até certo preconceito, entre os profissionais de imprensa, quando o assunto é gestão. Business é palavra non grata.

Papel da imprensa é mais pedagógico

Em termos de senso comum, a expressão empresa está associada com a idéia de entidade lucrativa privada hierarquizada, significando de maneira simplória que seus dirigentes possuem a mais ampla autonomia discricionária em seu processo decisório, quando comparada com outras instituições públicas, sociais e filantrópicas, associando-se o seu funcionamento à visão intuitiva de pequena empresa familiar. Isto é um equívoco. Deixa-se de perceber que a busca da racionalidade operacional e resultados superavitários (lucro) é condição para a sobrevivência de qualquer tipo de organização a médio/longo prazo. Não há como contrariar a lógica e competição do mercado.

Como qualquer outra instituição social, as empresas são órgãos que influenciam e são influenciados, reciprocamente, pela sociedade. Devendo prestar contas. Há uma dimensão pública inerente à lógica do seu processo decisório, passível de uma gestão mais participativa (co-gestão). Ainda mais nos últimos anos, em que conceitos de governança corporativa e transparência empresarial passaram a ser atributos mais valorizados pelo mercado, a comunicação de “portas abertas” tornou-se essencial. A crescente importância e desenvolvimento da área de relações com investidores nas empresas é um bom indicador disso.

Esta visão “reducionista” de gestão empresarial presente na cultura popular, induz a um comportamento de impotência e submissão frente às organizações. Os meios de comunicação reproduzem este “telefone sem fio”, ao invés de revertê-lo.

Hoje, conhecimentos sobre administração, assim como português, inglês ou informática, possuem, cada vez mais, um caráter básico, são necessários a todas as pessoas, de qualquer tipo de formação. A cidadania empresarial veio para ficar. Basta repararmos no crescimento generalizado dos cursos MBA´s e de empreendedorismo. Tais assuntos não poderão mais restringir-se a editorias especializadas e publicações segmentadas de negócios para públicos específicos. Devem ir além. A imprensa tem um papel pedagógico a exercer, produzindo pautas mais relacionadas e contextualizada ao cotidiano do leitor comum, motivando o seu entendimento e participação no debate.

As universidades e as redações

Nesse sentido, a universidade, lócus de geração de conhecimento, através das suas atividades de pesquisa, ensino e extensão, também poderia exercer um importante papel junto à mídia como fonte de informação e notícia e indutora de pautas “inovadoras”.

Jose Luiz Proença, chefe do departamento de jornalismo e editoração da Escola de Comunicação e Artes da USP, ainda na década de 90, em projeto de pesquisa intitulado “A participação da USP na produção jornalística”, identifica um potencial inexplorado pela universidade como fonte de informação para a produção da notícia. Defendendo uma maior proximidade entre o “saber” acadêmico e o “informar” jornalístico no seu dia-dia, que vá além das editorias especializadas. Para o professor:

“Identificar as grandes tragédias não exige maiores genialidades dos jornalistas, mas é nos fatos rotineiros que se escondem os pequenos avanços que ocorrem continuamente. Nesse momento do processo jornalístico, rapidez e clareza são atributos dos mais valorizados pelos jornalistas e os cientistas mais capazes de fornecerem informações rápidas e precisas tem seus pontos de vistas usados com mais freqüência pela mídia.”

Há um grande espaço inexplorado para a universidade ser mais ativa junto à mídia. É necessário preenchê-lo. Esta proximidade entre as universidades (cientistas) e o cotidiano das redações, com potencial para dinamizar a produção de notícias, ainda é muito restrita. Falta um elo para induzi-la.

São grandes as deficiências

Assim como o professor Proença, constatei tal potencialidade na UFRJ, em especial, no curso de Administração, como fonte de notícias. Tal evidência ficou clara ao desenvolver projeto monográfico e laboratório, o Jornal de Educação Empresarial, agência universitária de notícias independente e blog acadêmico (ver aqui), criado no âmbito do grupo de pesquisa Laboratório de Educação Estratégica Empresarial (ADM/ FACC/ UFRJ – coordenador científico: professor Luis Eduardo Potsch), para proporcionar maior integração entre universidade e empresa e induzir novas pautas jornalísticas, principalmente, em assuntos relacionados a negócios. Urge dinamizar o tripé universidade-mídia-empresa através de um agente de comunicação integrador. É interesse comum.

A estabilização da economia, a consolidação do mercado de capitais, o aumento do número de investidores e a crescente profissionalização e competição das empresas estimulam um cenário de governança corporativa e transparência, ampliando a necessidade por informações e o interesse e a participação da população em assuntos de gestão.

Nesse contexto, crescem os desafios e a importância do jornalismo empresarial no noticiário brasileiro. São grandes as suas deficiências. Reconhecê-las é o primeiro passo para superá-las. Mesmo com as limitações comerciais e publicitárias, que podem inibir uma possível abordagem mais investigativa e crítica frente às empresas pelos veículos de comunicação, temos muito a avançar. O próprio Observatório da Imprensa (TV/rádio/internet) deveria dar maior atenção e importância ao tema, estimulando o debate e contribuindo para o seu aprimoramento.

HIGHER EDUCATION FOR BUSINESS, O LIVRO QUE REVOLUCIONOU O ENSINO DE ADMINISTRAÇÃO NO BRASIL, COMPLETA 50 ANOS

Em Artigos, janeiro 13, 2010 às 1:35 am

POR MARCELO GUIMARÃES

Administrador: Conheça a sua Fonte de Origem

Poucos são os livros que entram para a historia por influenciar a formação de pensamento de inúmeras gerações. Quando isso ocorre, os definimos como clássicos. A sua leitura e citação torna-se quase que obrigatória para entender-se, em profundidade, determinado assunto. Contamina alunos, professores, fundamentando a base em que  será desenvolvida toda uma linha de pensamento e raciocínio, toda uma escola. Similar ao ocorrido nas religiões, em que a bíblia seria o livro clássico e, de acordo com a sua interpretação, são geradas diversas ramificações.

O ensino de administração no Brasil também possui a sua bíblia. O livro Higher Education for Business.

Lançado há mais de 50 anos, em 1959, por Robert Aaron Gardon e James Edwin Howell, pela editora da Universidade de Columbia, o livro, um estudo encomendado pela Ford Foundation para diagnosticar e repensar todo o ensino de business administration nos Estados Unidos, preparando a nação com recursos humanos/ quadros capazes de atender a consolidação do sistema capitalista durante a Guerra Fria, caracterizado, à época, principalmente pela expansão das multinacionais, constitui a gênese e o DNA do pensamento administrativo brasileiro.

Fruto da necessidade de capacitar melhor os futuros executivos, principalmente, de grandes empresas, através da formação universitária, em contraste a uma formação prática e intuitiva, típica dos gestores de empresas pequenas, e familiares, diante das transformações e necessidades organizacionais surgidas na passagem do denominado capitalismo financeiro monopolista para o capitalismo informacional e a crescente globalização da economia, seus conceitos permeiam, até hoje, o projeto pedagógico dos cursos de administração tupiniquins.

Diferentemente do habitualmente propalado sobre as características do ensino de administração, de que se trata de um curso prático e instrumental, de baixa capacidade reflexiva e teórica, totalmente voltado para o mercado de trabalho, similar a um profissionalizante, este tratado chega a seguinte conclusão: o ensino de administração deve ser mais teórico do que prático, enfatizando uma formação generalista, e não técnica-funcional, devendo possuir, em sua base curricular, 60% de matérias de formação geral, de ciências humanas, sociais e naturais, como: filosofia, sociologia, antropologia, ciência política, literatura, psicologia e matemática. E o restante de matérias organizacionais, como: finanças, produção, recursos humanos e marketing; e instrumentais, como: economia, direito, contabilidade e estatística.

Em suas 491 páginas, num total de dezoito capítulos, divididos em cinco partes principais: 1- The Present State of Business Education; 2- The Needs to be Served: The Development of Business Competence; 3- A Critical Survey of Business Curricula; 4- Students, Faculty, Teaching, and Research; 5- The Need for Action; é possível entender toda a filosofia de uma Business School. Os conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias a um businessman de sucesso. Os perfis de alunos e professores. A estrutura curricular e o seu projeto pedagógico. As oportunidades profissionais diversificadas no campo da gestão. Programas de graduação, pós graduação, especialização e MBA`s.

Recentemente tive oportunidade de realizar amplo estudo sobre o ensino de administração no Brasil, com ênfase na elaboração de projetos pedagógicos, tendo pesquisado, dentre outras obras: O Novo Currículo da Graduação em Administração da UFRJ, elaborado pelo professor titular Carlos Alberto Fontenelle Bessa em 1994; a recente tese de doutorado do professor Synval de Sant’Anna Reis Netto, Uma  contribuição educacional ao Curso de Graduação em Administração : formação do perfil gerencial para o século XXI, as obras do autor best seller, o Paulo Coelho sobre o ensino de administração, Rui Otavio Bernardes de Andrade, Projeto Pedagógico Para Cursos de Administração, Gestão de Cursos de Administração e Gestão de Instituições de Ensino. Apesar das propostas feitas serem, em boa parte, similares às presentes no livro de Gordon, há um total desconhecimento sobre a sua obra, que não é citada em nenhuma das bibliografias.

HIGHER EDUCATION FOR BUSINESS E KARL MARX

Apesar de ser um estudo baseado nos cursos de administração dos Estados Unidos, a sua influencia é marcante no Brasil. A implantação e consolidação da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, primeiro curso de administração de empresas brasileiro em nível universitário, de 1954, (já existia a ESAN- Escola Superior de Administração de Negócios de São Paulo, fundada, em 1941, pelo padre jesuíta Sabóia de Medeiros, porém, não era considerada de nível superior), teve a sua filosofia de ensino estruturada nas propostas do Higher Education for Business.

Mesmo sendo lançado em 1959, após a criação da escola, as suas conclusões norteavam as diretrizes da missão americana da Michigan State University, responsável pela sua implantação, promovendo o intercambio e a formação de professores, parte do acordo assinado entre o Brasil e Estados Unidos, através do MEC-Ministério da Educação e Cultura e USAID- United States Agency for International Development, denominado ponto 4, durante o período desenvolvimentista brasileiro, sob a presidência de Getulio Vargas, que suicidou-se em 1954, ano de fundação da escola, e buscava aprimorar a formação de pessoal qualificado para a administração publica e privada, desde a criação do DASP- Departamento Administrativo do Setor Publico em 1938, sob a liderança de Luis Simões Lopes, que exerceu, quase como numa ditadura, a presidência da FGV de 1944 a 1992.

A transposição deste modelo generalista proposto no livro para as condições brasileiras da época, provocou o surgimento de um pensamento administrativo heterodoxo e original. É o que constatou Luis Eduardo Potsch, em sua tese de doutorado: O Modelo de Educação em Negócios da FGV/SP (1954/ 1986). Os alunos, nos dois primeiros anos, de formação básica, sofriam grande influencia, principalmente, das obras de Karl Marx, através de seus professores de pensamento materialista histórico dialético, em grande parte, formados na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP, na Rua Maria Antonia.

Quando, nos anos posteriores, os alunos tinham que cursar as matérias profissionais, já estavam com a cabeça feita, questionando, inclusive, o próprio sistema. Não é à toa, que o professor Luis Carlos Bresser Pereira, em seu artigo GV-A Formação Contraditória das Classes Dominantes, publicado em março de 1980 na revista Senhor, faz as seguintes afirmações sobre a escola: “Para alguns, uma agencia ideológica da burguesia; para outros, uma ponta de lança das empresas multinacionais; para outros ainda, uma escola com perigosas tendências esquerdistas.”

Tal “tendência esquerdista” motivou, inclusive, a professora Maria de Lourdes Covre, à época, aluna da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP, a estudar se, diante de tanta influência marxista, de que lado o administrador de empresas formado pela GV, ficava na hora H: do lado do capital ou do trabalho? Chegando a conclusão, aparentemente óbvia, se não fosse esta influencia heterodoxa, em seu livro, A Formação e a Ideologia do Administrador de Empresa, de que o administrador serve aos interesses da acumulação do capital.

A GV caracterizou-se por estabelecer uma grande integração com as empresas, convidando grandes empresários para comporem o seu conselho administrativo, numa gestão colegiada. Caco Barcelos em artigo publicado na revista Senhor em 1980, intitulado: GV – A Escola do Poder: Difícil encontrar uma grande empresa que não tenha um ou vários executivos formado por essa escola de líderes; mostra o sucesso deste modelo. Porém, dizem as más línguas, que o sucesso da escola deveu-se mais ao sobrenome dos seus alunos, das elites dirigentes, do que à sua proposta de ensino inovadora. A “máfia” da EAESP.

Fofocas a parte, na realidade, a EAESP foi modelo para a implantação dos posteriores cursos de administração no Brasil, além de ter sido a principal referência para se estabelecer o Currículo Mínimo do Curso de Administração, através do Parecer MEC n° 307/ 66, cujo relator, foi o professor Durmeval Trigueiro Mendes.

Todos os cursos de administração no Brasil possuem, direta e indiretamente, alguma semente da GV e, consequentemente, de Higher Education for Business em sua fórmula, mesmo que a maior parte da comunidade acadêmica, e pasmem, até o próprio Conselho de Administração, responsável em regulamentar a profissão de administrador, não tenha consciência disso.

Assim como há muitos praticantes religiosos que não leram a bíblia, temos, em relação ao ensino de administração no Brasil, a mesma situação. Muitos não leram a bíblia Higher Education for Business. São muitos praticantes, sem saber a fonte teórica do seu surgimento.

Carlos Alberto Serpa, Presidente da Fundação CESGRANRIO: “O autodidatismo é estratégico nos dias de hoje”

Em Entrevistas, janeiro 6, 2010 às 11:25 am

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/UFRJ

Carlos Alberto Serpa, presidente da Fundação CESGRANRIO: "O empreendedorismo é uma grande mudança ocorrida na cabeça das pessoas. Passam a adotar visão de patrão e não de trabalhador"

Carlos Alberto Serpa de Oliveira, possui graduação em Engenharia Industrial e Metalúrgica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1964) . Atualmente é Presidente da Fundação Cesgranrio, Diretor da Casa de Arte e Cultura Julieta de Serpa, Membro do Conselho da International Association of University Presidents, Presidente do Associação Cultural da Arquidiocese do Rio de Janeiro, Membro do Conselho Diretor da Faculdades Católicas (Associação Mantenedora da PUC/RJ), Primary Member da International Association for Educational Assessment e Consultor do International Linkages da National Association of State. Foi reitor interino, e vice-reitor da PUC Rio. A atuação da FUNDAÇÃO CESGRANRIO, criada em 1971, extrapola as atividades de seleção, pois se volta, também, para planejamentos e pesquisas sócio-educacionais; treinamento, reciclagem e aprimoramento de recursos humanos; promoção de congressos, seminários e simpósios nacionais e internacionais; consultoria organizacional/empresarial; entre outras.A FUNDAÇÃO CESGRANRIO tem como atividades principais: Avaliação; Mestrado em Avaliação; Capacitação de Professores; Certificação; Área de Pesquisa; Área de Saúde; Área social; Área cultural; Fóruns; Publicações; Vestibulares;Concursos públicos e/ou processos seletivos públicos. Conheça um pouco mais sobre a visão deste discípulo do Professor Newton Sucupira.

Quais os principais desafios enfrentados hoje pela universidade?

Serpa: A universidade brasileira vive hoje um momento das maiores contradições de sua história, porque antigamente formavam-se as pessoas para uma realidade praticamente estável. Tinha-se uma formação básica e profissional adequada a realidade do mercado de trabalho. Entre a investigação e a inovação, que é a aplicação no dia-dia, o tempo está cada vez menor. Antigamente, inventava-se algo, que era aplicado quarenta anos depois, hoje, em países desenvolvidos como o Japão, por exemplo, este tempo entre a pesquisa e a aplicação da inovação, às vezes, é de dois anos. Isso faz com que nenhum curso seja capaz de preparar para a realidade de uma empresa que tenha ciência e tecnologia como seu foco de ação. Hoje, pela dinâmica da realidade, a indissociabilidade entre a pesquisa, o ensino e a extensão, consagrada por Newton Sicupira, é mais que necessária. É inviável ensinar sem pesquisar, pois estará ensinando para um mundo diferente da realidade que o formando encontrará. O contexto mudou.

Esta mudança ocorre em todas áreas do saber?

Serpa: Isso é menos acentuado na área de ciências humanas e sociais, que possui uma estabilidade maior em seu núcleo central. Há mudanças de conceitos, dogmas, a maneira de encarar a realidade social, mas muda menos velozmente que a ciência e tecnologia. A filosofia, a sociologia passaram a ser mais valorizadas hoje, antes, eram considerados mais viagens intelectuais.  Hoje há profissionais utilizando esses conceitos no dia-dia. Os projetos de políticas sociais e públicas são bons exemplos de sua funcionalidade. Mas na ciência e tecnologia, a aplicação é mais visível.

O que a universidade deveria fazer?

Serpa: A universidade tem que dar uma forte base de educação geral, dos conceitos básicos, que não mudam facilmente. Fazer isso, estimulando que o formando seja dono de sua própria carreira, patrão de si mesmo no futuro. O empreendedorismo é uma grande mudança ocorrida na cabeça das pessoas, que passam a adotar visão de patrão e não de trabalhador. Essa é uma nova abordagem na universidade, uma modernização. Para isso, o ensino fundamental e médio devem mudar também as suas idéias. Necessitam de professores formados em nível superior em maior quantidade e qualidade com esta nova mentalidade. O professor deixou de ser uma figura respeitada, um ídolo, como antigamente. Hoje, o aluno olha o professor com grande desprezo, muitas vezes, desrespeito. A dignificação da carreira docente também é importante. O ensino básico e superior tem que caminhar juntos.

Quais as mudanças que ocorrem nesta integração?

Serpa: A universidade hoje ampara o nascimento de uma empresa. Essa nova relação tem trazido benefícios e avanços enormes para a sociedade. Esse conceito de incubadora de empresas é muito importante. Passou a ser a oportunidade de a universidade ir e voltar dentro da empresa, estreitando esse laço, e se aproximando da realidade. A parceria é um fenômeno do século XXI. Quem pensa que sozinho pode realizar alguma coisa está fadado ao fracasso. A complementação entre as pessoas, a unidade diante das diversidades, juntas, criam algo importante. Universidade e empresa devem ser parceiras. O incentivo fiscal, também, é importante para estimular as empresas a se envolverem em projetos ligados a pesquisa, principalmente, nas pequenas e médias empresas.

E as mudanças no corpo docente?

Serpa: O corpo docente mudou nos seus interesses. Antigamente tinha um foco muito voltado para a pesquisa pura, de professores de horário integral, pesquisadores, doutores. De repente, ocorre uma revolução, a empresa entra na universidade, a extensão adquire uma nova concepção, que antes era de mera prestação de serviços. Passamos a ter grandes saltos tecnológicos. A sociedade mudou, a universidade mudou, o perfil do aluno mudou.

O professor Newton Sucupira, quem definiu o conceito de pós graduação no Brasil, através do Parecer MEC 977/65, foi um grande influenciador de Serpa

Qual a sua visão sobre o estágio?

Serpa: A noção de estágio é um aprendizado muito mais importante que antigamente, pois faz parte integrante da formação do indivíduo que entrará no mercado de trabalho. Hoje, auxilia a adiantar o que vai ser o futuro para comparar com a teoria que você está recebendo no presente. Não para deter uma técnica, um instrumento para ser aplicado imediatamente, mas sim, para ampliar a visão sobre as possibilidades de realizações que podem ser feitas dali para frente, como se fosse a abertura de uma janela.


O autodidatismo é importante nos dias de hoje?

Serpa: O autodidatismo é estratégico nos dias de hoje. Será cada vez mais necessário e estará presente, crescentemente, na vida das pessoas. Atualizações formais, via pós-graduação, cursos de especialização, entre outras, não serão suficientes. Mudou a realidade do mercado de trabalho. Cada vez mais o lazer e o turismo crescerão. O tempo do trabalho no conceito de antigamente, de suor, de força, diminui nesse cenário. Educação e formação ganham importância cada vez maior. Tem que aprender a se renovar por si só. Aprender a aprender pelo resto da vida. Se for um engenheiro mecânico, por exemplo, tem que aprender sobre petróleo. E assim por diante.

Como “diplomar” esta auto-aprendizagem?

Serpa: Hoje, a própria dinâmica do nosso sistema educacional é no sentido de permitir que tudo aprendido na vida, e que não são ensinados no banco escolar, seja considerado como portfólio na sua formação. Por exemplo: Amador Aguiar e Magalhães Pinto. Eles aprenderam tudo que a vida pode oferecer, sem aprender em banco escolar. Ninguém reconheceu nenhum atributo acadêmico neles. Hoje poder ser certificado. A certificação permite isso. Buscar mais subjetividades. A certificação é a conseqüência prática da auto-aprendizagem, que é um fenômeno do mundo moderno, além de ser um fator de inclusão social.

A Fundação CESGRANRIO nasceu de uma associação pioneira de 12 instituições universitárias em 1971, que tornou possível a criação do Centro de Seleção de Candidatos ao Ensino Superior do Grande Rio

O que fazer para melhorar a relação ensino-aprendizagem?

Serpa: Promover a melhoria na formação do corpo docente, não tanto no sentido acadêmico, mas incorporando processos mais modernos, enfatizando-se mais a formação, e não tanto a informação. O velho conflito entre a pedagogia, como ato de educar, e o conteúdo, como ato de saber, de adquirir conhecimentos. Há pessoas que defendem que o professor numa determinada formação, deva ser bom, conhecer e dominar profundamente o assunto; há outras que defendem que mais importante que conhecer algo, é ter pedagogia para fazer o aluno aprender. Educar é tirar de dentro para fora. Vai trabalhar o interior. Ensinar no sentido de Instruir é o contrario. O ato de ensinar no sentido de transmitir conhecimentos é menos importante que o seu ato de aprender. Domina-se a visão de transmissão de conhecimento, ao invés de educador. Esta dicotomia entre ensinar e aprender vai à raiz de nossa educação. O processo fundamental no ensino-aprendizagem também é a auto- estima. Por isso também a importância da avaliação. O professor que reprova o aluno por 0,1 por exemplo, considerando apenas a avaliação naquele momento, é como cometesse um crime, pois acaba com a auto-estima do aluno, desestimulando-o. Gera alto índice de evasão e repetência, às vezes, desnecessariamente.


Formação multidisciplinar é cada vez mais importante?

Serpa:Acabou a especialização hoje no mundo. Tem que ser um generalista com grande capacidade de adaptação e visão multidisciplinar. A falta de orientação profissional nisto é um problema. As pessoas se especializam e ficam “bitoladas” naquilo. Os EUA foi o grande defensor disto. Até brincava-se, em  relação ao grau de especialização do engenheiro mecânico americano. Dizia-se que tinha o engenheiro de porca e o engenheiro de parafuso. Um não sabia mexer na porca e outro no parafuso, apesar de um não existir sem o outro. Essa é uma paródia para criticar o excesso de especialização. A realidade hoje é outra.

Qual a sua visão sobre o novo ENEM?

Serpa: Possui três características fundamentais: 1- interdisciplinaridade – na vida você não vai separar os conhecimentos, ele está integrado. 2- Não é uma prova básica de conhecimentos, busca avaliar as suas aptidões, as suas capacidades e habilidades. Buscar saber como você pensa, a sua capacidade de resolver questões, de interpretar. Isso é muito mais importante para a sua vida do que o famoso decoreba. 3- Tem um grande desafio de fazer um número de questões para garantir a universalidade dos conhecimentos a que o aluno foi submetido. Não acredito nesses meus 50 anos de vestibular, que algum instrumento seja forte suficiente para mudar o sistema de ensino. É um indicador para mostrar o que se espera que uma escola faça em relação ao ensino, tanto para cima, quanto para baixo. É um marco regulatório importante. Um bom sinalizador.

Liderança é aprendida?

Serpa: Liderança está dentro do indivíduo. O contexto faz com que aflore. Acredito que líder vem do berço, não tem como desenvolver artificialmente.

Paulo Alcântara Gomes: “Matérias de gestão e empreendedorismo deveriam ter em todos os cursos, até em filosofia”

Em Entrevistas, janeiro 5, 2010 às 11:56 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/UFRJ

Paulo Alcantara Gomes: “Se não tem formação multidisciplinar, não está formando o profissional para o século XXI”

Paulo Alcântara Gomes é Presidente do Conselho Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro, do Conselho Diretor da Rede de Tecnologia do Rio de Janeiro e do Conselho Deliberativo do SEBRAE Rio. Ex-presidente do CRUB (Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras), livre docente e ex-reitor da UFRJ, o atual reitor da Universidade Castelo Branco,  possui graduação em Licenciatura em Física (1966) e Engenharia Civil (1967) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro , mestrado (1968) e doutorado (1977) em Engenharia Civil pelo Instituto Alberto Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE). É um dos discípulos de Alberto Luiz Coimbra, responsável pela implantação da primeira pós graduação stricto sensu no Brasil, de engenharia química, que desdobrou-se no COPPE . Até hoje, faz constantes visitas ao professor Coimbra em sua casa em Teresópolis. Conheça um pouco mais a visão de Alcântara.

Como avalia a atual integração entre universidade e empresa?

P.A.G.: Não existe integração, mas sim articulação, pois possuem objetivos distintos. O objetivo da universidade é formar profissionais, gerar novos conhecimentos, aprofundá-los e difundi-los. Já o objetivo da empresa é desenvolver processos, produtos e metas. Duas coisas diferentes, não podem se integrar, mas se articular. Essa articulação no Brasil ainda é muito incipiente, pois falta para as empresas uma cultura da competitividade. Isso vem mudando no mundo inteiro, mas as empresas brasileiras ainda não entenderam que podem utilizar a universidade para o desenvolvimento da cultura da competitividade, inovando, adaptando tecnologias, apropriando essas tecnologias ou executando-as. Este é um ponto crítico das empresas brasileiras, principalmente, as micro e pequenas, são muito problemáticas. Muitas são criadas sem um projeto. Isso leva à inúumeras falências, precocemente. Para melhorar é necessário assegurar uma melhor formação de quadros gerenciais. As universidades, apesar de possuírem programas regulares formais de graduação e pós graduação, ainda não conseguiram, por exemplo, disponibilizar cursos de curta duração capazes de atender a necessidade dessas empresas.

No lado das empresas, o que poderia ser feito para melhorar esta integração?

P.A.G.: Buscar as universidades para buscar aprimorar a formação de seus profissionais com cursos dentro da empresa. Levar para a universidade, projetos que ela possa desenvolver. Nos EUA existe um open house ao contrário, ao invés de as universidades mostrarem seus laboratórios, os empresários levam os problemas para a universidade, que propõe soluções. Isto pode ser feito e deve ser estimulado.

O que é valorizado na formação, hoje, pelas empresas?

P.A.G.: Hoje, tem três parâmetros importantes: 1- a empresa exige agilidade na formação para entrar mais rapidamente no mercado; 2- compromisso com a nova tecnologia da informação e comunicação, que vão gerar uma cultura da educação continuada; e 3- compromisso com a responsabilidade social, que faz parte do dia-dia de qualquer cidadão.


Qual um dos principais problemas da universidade?

P.A.G.: As universidades estão com as estruturas curriculares muito pesadas. Cargas horárias muito elevadas. Programas conceitualmente bem elaborados, mas com pouca adaptabilidade ao emprego nos diversos setores. Quando a universidade adotou tempo integral para os seus professores, abandonou um grande contingente de pessoas que tinham experiência empresarial, tanto na gerência, como na execução e no desenvolvimento de novas tecnologias. Esses professores de tempo parcial desapareceram, prejudicando as universidades e a aproximação com as empresas.

O que poderia melhorar pelas universidades?

P.A.G.: A universidade tem que reformular sua estrutura curricular. Para isso, tem que mudar o projeto pedagógico. O perfil do egresso profissional das universidades possui alguns pontos críticos. Um ponto é que os profissionais que formamos são capazes de formular problemas, mas nem sempre são bons para propor soluções. Tem que estimular no currículo que ao lado da formulação de problemas, acompanha-se a solução. No NCE – Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ, na época em que o Paulo Bianchi era coordenador, havia uma frase muito interessante: “se você tem um problema, mas não tem a sua solução, você virou parte deste problema.” Outro ponto importante é fortalecer a sua linha de prestação de serviços, tanto nas empresas de ponta, quanto nas médias e pequenas empresas. Isso para todas as áreas do conhecimento.

PIT STOP em TERESÓPOLIS. O professor Alberto Luiz Coimbra, responsável pela primeira pós graduação stricto sensu do Brasil, foi um grande influenciador de Alcântara. Seminários em sua casa em Teresópolis são constantes

A estrutura da universidade, por departamentos, dificulta a integração?

P.A.G.: Em parte sim. A estrutura da universidade departamentalizada está desaparecendo, muitas, já não possuem, pois na sociedade do conhecimento a tônica é a interdisciplinaridade. As transformações ocorrem numa velocidade cada vez maior e as estruturas tem que mudar. Hoje as áreas permeiam umas com as outras. As linguagens se cruzam nas diversas áreas do saber, estão interligadas. Tem que organizar as universidades como grandes escolas, que tenham grande capilaridade entre as diversas áreas do conhecimento, preservando a multi e a transdisciplinaridade. Isso seria feito definindo um plano estratégico para a universidade, reorganizando a sua estrutura por campos do saber ou laboratórios, por exemplo.


Deveria enfatizar-se mais o ciclo básico na formação universitária?

P.A.G.: Não existe mais ciclo básico. Existem hoje três núcleos de matérias na universidade: de formação geral; de formação profissional geral; e de formação profissional especifica. Em formação geral temos as matérias ligadas a cidadania. Por exemplo: Contexto brasileiro, empreendedorismo, sociologia, informática. Presente em todos os cursos. Nas estruturas curriculares, elas deveriam ser inseridas no decorrer do curso, não somente no inicio, pois isso leva ao abandono. Misturar alunos de distintas áreas e períodos, também recupera a noção de universidade. Em profissional geral temos, por exemplo, em Administração, matemática financeira. Atende também ao curso de contabilidade, economia, atuária. Em profissional específica  são as matérias ligadas a determinada área. Tem que repensar a estrutura curricular diante destes núcleos de matérias. O ciclo básico afasta os alunos.


Qual você considera a principal causa de abandono de curso?

P.A.G.: A configuração de uma incompatibilidade entre o que o aluno esperava do curso, e o que encontra no curso. Por exemplo, em engenharia, muitos alunos desistem, pois tem muito contato com física e matemática, sem ter contato com produção. Este foi meu caso. Na medicina isso não ocorre porque no primeiro dia ele já vai para o laboratório de anatomia, tendo contato com a realidade.

Como este contato com a realidade poderia ser estimulado?

P.A.G.: Eu defendo que ao invés de ter um trabalho de conclusão de curso, seja feito trabalho de conclusão em todas as disciplinas, integrando com um tema mais geral. Isso facilitaria a integração do projeto curricular como um todo. Na Universidade Castelo Branco, por exemplo, estamos desenvolvendo um projeto chamado Mão na Massa, que busca aproximar o aluno com a realidade da profissão, realizando inúmeros trabalhos de campo.

Formação universitária multidisciplinar é cada vez mais necessária?

P.A.G.: Ela não é necessária, é decisiva. Se não tem formação multidisciplinar não está formando o profissional para o século XXI. A universidade está muito atrasada nisso. Ela é pouco ágil e flexível. No Brasil e nas universidades há muitas resistências a inovação. É importante todo o programa que estimule a multidisciplinaridade. Quando se articula áreas diferenciadas, que estão afastadas, aprimora a formação do profissional, do cidadão, na amplitude e no aprofundamento dos conhecimentos.

O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas tem importante papel na integração universidade-empresa para Alcântara

Como ex-presidente do CRUB, acha que as universidades estão mais sensibilizadas para esta formação multidisciplinar?

P.A.G.: As universidades estão mais sensíveis, mas as normas existentes no Brasil restringem o avanço. Há um excesso de controle credencialista, em relação aos diplomas. Há pouco tempo atrás tínhamos o currículo mínimo, hoje, as diretrizes curriculares nacionais, que são mais flexíveis. Porém, ao criar uma norma geral para determinado curso, acaba, de certa forma, engessando as universidades, dificultando a sua adaptação. Deveria ter maior flexibilidade no decorrer dos cursos, com uma avaliação de qualidade no final, como ocorre nos EUA, por exemplo, com algumas certificações.

Como conciliar uma universidade teórica e outra pragmática?

P.A.G.: O meio termo não necessariamente é o ideal. Há espaço para universidades com perfil pragmático, formando para o mercado de trabalho e há também espaço para instituições científicas que formem pesquisadores e doutores que vão mudar a ciência. Há espaço para todas as matizes entre esses tipos. Tem que criar mecanismos para que as universidades se desenvolvam de acordo com as suas aptidões, vocações e peculiaridades com a sua localidade. Uma universidade no Acre será diferente de uma na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, na questão ambiental, de energia, formação de pessoal entre outras. A universidade tem competência- doutores que produzem ciência de qualidade, publicações de teses, etc, pertinência – capacidade da universidade responder às demandas da sociedade e equidade- obrigação da universidade contribuir para igual distribuição das oportunidades . Isto forma um triângulo. O ideal é que se tenha um triângulo eqüilátero. Por exemplo, considero que a UFRJ tem muita competência e pertinência, tem menos equidade. As formas do triângulo vão variar de acordo com as universidades.

E a interação entre ensino básico e universitário?

P.A.G.: Interação ensino básico e universitário não existe. O Ensino médio no Brasil tem um problema seríssimo. Não tem professores qualificados em quantidade suficiente. Não tem metodologia de ensino para integrar o estudante. Não tem a incorporação ao ensino das novas tecnologias de informação e comunicação.


Qual a sua visão sobre o novo ENEM?

P.A.G.: O ENEM eu acho um avanço. É inovador, pois está criando um parâmetro importante em âmbito nacional do que deve ser exigido no ensino médio. Não é novidade, é similar à avaliação utilizada na França.

Qual a sua visão sobre os Conselhos Profissionais?

P.A.G.: É preciso desregulamentar as profissões. Só deveria regulamentar as profissões que envolvem risco de vida ou de qualidade de vida. As demais é inviável. A velocidade das transformações leva a extinção de determinadas profissões e ao surgimento de novas a cada momento.

Noções de gestão são cada vez mais necessárias?

P.A.G.: Matérias de gestão e empreendedorismo deveriam ser implantadas em todos os cursos, até mesmo em filosofia. Ë básico para qualquer curso. Nesse sentido, minha visão sobre empresa júnior é muito boa,  deveria ser estimulada em todos os cursos de graduação.

Qual a sua visão sobre o novo Plano Diretor da UFRJ 2020?

P.A.G.: O Plano diretor do Campus facilita a interdisciplinaridade. Sou a favor do plano diretor da UFRJ. As unidades que forem para o Fundão vão crescer muito, passarão a trabalhar mais integradas.

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