UNIVERSIDADE POPULAR ABERTA DO III MILÊNIO

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Arnaldo Niskier: “Hoje, temos condições de ter o dobro de universitários no Brasil, 14 milhões”

Em Entrevistas, agosto 23, 2009 às 11:48 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

Arnaldo Niskier: "A tecno-estrutura: tríplice aliança entre governo, empresa e universidade é indispensável à expansão econômica e social"

Arnaldo Niskier, atual presidente do CIEE Rio: "A tecno-estrutura: tríplice aliança entre governo, empresa e universidade é indispensável à expansão econômica e social"

PERFIL BIOGRÁFICO

Atual Presidente do CIEE Rio, membro da Academia Brasileira de Letras. Jornalista, professor, educador, administrador, ensaísta e orador. Fez vestibular para Engenharia, mas não teve êxito. Inscreveu-se depois para Matemática, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Começou a atuar na política universitária, sendo eleito secretário-geral e depois presidente do Diretório Acadêmico Lafayette Cortes. Licenciou-se em Matemática (1958) e Pedagogia (1962), também pela UERJ, onde começara a lecionar (1958). Tornou-se Doutor em Educação em decorrência de aprovação no concurso para Livre Docente na cadeira de Administração Escolar e Educação Comparada (1964). Catedrático por concurso na UERJ (1968), tornou-se professor titular de História e Filosofia da Educação. É professor credenciado pelo Conselho Federal de Educação em Teoria Geral da Administração e Orçamento Empresarial.

Como diretor das Empresas Bloch (Manchete), esteve à frente do departamento de Educação, onde produziu mais de 100 livros didáticos e realizou diversos projetos de incentivo à pesquisa e ao hábito de leitura. Foi secretário de Estado de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (o primeiro da América Latina), de 1968 a 1971. Além de outras iniciativas na área da pesquisa científica, foi o criador do Planetário do Rio de Janeiro (1970) e membro do Grupo de Trabalho que estudou a viabilidade de implantação da Universidade Aberta no Brasil (1973). De 1979 a 1983, foi secretário de Estado de Educação e Cultura do Rio de Janeiro. Exerceu também os cargos de Presidente da Fundação de Artes do Rio de Janeiro – FUNARJ; Presidente do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro; Presidente do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro e vice-chanceler da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.Foi membro do Conselho Federal de Educação. Presidiu a Câmara de Ensino Superior. Em 1996, por decreto do presidente Fernando Henrique Cardoso, Arnaldo Niskier foi nomeado para o Conselho Nacional de Educação.

Educação, Estágio e Trabalho, obra lançada com o apoio do CIEE, contém ensaios sobre a relação empresa-escola

Educação, Estágio e Trabalho, obra lançada com o apoio do CIEE, contém ensaios sobre a relação empresa-escola

Como você avalia a integração entre universidade-empresa?

A.Niskier: Nos países industrializados isso é uma realidade constante. Existe um termo definido pelo escritor canadense McLuhan, chamado tecno-estrutura, que é a tríplice aliança entre governo, empresa e universidade. Em seus livros, ele defende que quando esse enlace é feito de forma inteligente e positiva, os resultados são altamente satisfatórios, gerando um ciclo: o governo estimula a integração, a empresa, com este estímulo, recorre às universidades, e estas, preparam os recursos humanos indispensáveis a qualquer processo de expansão econômica e social. Essa relação é extremamente necessária para a realidade brasileira.

Quais os principais desafios dessa integração no Brasil?

A.Niskier: Um pouco mais de compreensão em relação aos elementos vinculados a este tripé. O governo não se preocupa muito com isto, a empresa tem certa desconfiança em relação ao governo, principalmente, por causa dos impostos. Vale ressaltar que a carga tributária brasileira é uma das mais elevadas do mundo, chegando a alcançar 35%. Um índice absurdo. A universidade, muitas vezes, fica fechada nela mesma, como se fosse uma torre de marfim, não se abrindo para a sociedade com a eficácia que seria indispensável. Há necessidade de um movimento que una esses três elementos. Isto seria altamente proveitoso para o Brasil. Falta uma maior organicidade no ensino superior brasileiro para que ele esteja mais integrado às reais necessidades da cultura e do povo brasileiro.

O que deveria ser feito para melhorar a integração deste tripé: Governo, Empresa e Universidade?

A.Niskier: A ordem dada por John Kenneth Galbraith é governo, empresa e universidade. Os elementos têm importância nesta ordem. O primeiro movimento deveria ser do governo, mas este está meio enrascado quanto à reforma universitária, que tem mexido em alguns pontos polêmicos como a autonomia das universidades. É preciso que haja uma reforma universitária mais integrada. Infelizmente, os empresários estão acostumados a não acreditar nos governos e, historicamente, tem uma crença parcial no valor da universidade. Ao contrário do que acontece, por exemplo, nos Estados Unidos, na Suécia, na Finlândia e na Coréia do Sul. São paises que cresceram muito nos últimos 30 anos em função de uma compreensão adequada entre governo, empresa e universidade.

A universidade no Brasil, por ser recente, possui maior dificuldade nesta integração?

A.Niskier: Com toda a certeza. A universidade brasileira não possui nem 100 anos. Temos universidades do século XIV. Universidades tradicionais como a de Bologna, Salamanca, Oxford, Cambridge, entre outras. O peso da tradição é muito grande. Isso facilita a colocação destas universidades em se projetar para o futuro. O Brasil ainda está caminhando. O Brasil tem hoje cerca de 7 milhões de universitários. Proporcionalmente, este número é menor que Argentina, Chile e México. Temos condições de abrigar pelo menos o dobro, 14 milhões de universitários. Pesquisei isto durante toda a minha vida acadêmica na UERJ.  Não se vê um grande movimento para que isso seja feito, mas teria que estar aliado com a qualidade do ensino, uma característica necessária. Infelizmente, a vida universitária hoje não se pauta pela qualidade, há muito a ser melhorado.

O que deveria ser feito para alcançar este número de 14 milhões de universitários?

A. Niskier: Tem que agir em duas vertentes principais: 1- aumento do número de vagas nas universidades públicas que, em geral, resistem ao horário noturno, com argumentos absurdos. 2-  as universidades particulares tem que se convencer de que há uma classe média baixa ansiosa em ingressar nas universidades, mas que não tem recursos para pagar as  mensalidades cobradas. Aumentar o número desta massa universitária é  importante para assegurar o desenvolvimento auto-sustentável do Brasil.

Por que a falta de qualidade no ensino?

A. Niskier: Temos uma crise de qualidade no magistério. Os professores, de forma geral, são mal formados. Há universidades que pagam 12 reais por aula para um professor universitário. Isso é descabível. É preciso valorizar o professor na formação, no aperfeiçoamento e na remuneração. Assim poderemos ter um avanço muito grande no ensino brasileiro.

O livro Educação a Distância: A tecnologia da esperança

Para Niskier, A Educação à Distância pode contribuir para melhorar o ensino

Qual você considera o principal papel da universidade?

A.Niskier: A universidade tem que garantir ao país a existência de recursos humanos que atendam as suas necessidades de progresso. É o lócus onde deveria funcionar a meritocracia. Por exemplo, a Petrobras: a descoberta do Pré Sal estabelece um novo cenário, que demandará recursos humanos qualificados. A universidade tem que estar integrada para prover mão de obra qualificada.

Qual a sua visão sobre o tripé: Ensino, Pesquisa e Extensão?

A.Niskier: A constituição brasileira exige a indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão. O ensino de graduação precisa ser melhorado, como já dito. A extensão é a vinculação dos cursos universitários mais para perto da comunidade, atraindo-a para a universidade. Muito importante, por exemplo, no atendimento às demandas curtas e específicas exigidas no mercado de trabalho. No caso da pesquisa, o Brasil possui um número pequeno de cientistas, é necessário multiplicar isto geometricamente. Precisamos reconhecer oficialmente a existência da profissão do pesquisador. Até para ser tratado e remunerado de uma forma mais adequada.

Falta pesquisadores em todas as áreas do conhecimento?

A.Niskier: Não, isso varia entre as áreas. Na informática, por exemplo, o Brasil hoje é uma das referências internacionais. Está nascendo um movimento de valorização da programação. O Brasil está entrando nesta indústria de software, que fez a glória da Irlanda, da Índia, entre outros. Em termos de hardwares são 45 milhões de pessoas utilizando computadores. Apesar de a população ser de 200 milhões, este número é bem significativo, e avança continuamente. Há outros setores como: farmacologia, clonagem, células tronco, petróleo, polímeros, que o Brasil pode se desenvolver ainda mais, resolvendo o problema da demanda interna, exportando, fazendo com que a riqueza aumente e se assegure melhores condições de vida para o povo brasileiro.

Falta visão empresarial na universidade?

A. Niskier: Não diria falta de visão, mas sim, ignorância. Há, na maior parte, uma dissociação entre o que se faz na universidade, sobretudo na pesquisa básica, e o que acontece na prática com as necessidades empresariais. Esta dissociação é condenável. É preciso uma junção maior entre o que se está pesquisando na universidade e o que nosso país precisa. Uma forma mais inteligente de fazer uma associação da pesquisa básica, que se faz de forma desinteressada, e das pesquisas aplicadas, de finalidades tecnológicas.

Muito da crise das universidades deve-se a uma falta de integração com o ensino médio?

A.Niskier: Claro. No ensino médio há um fenômeno muito grande de evasão e repetência, e isto, em médio prazo, vai prejudicar a entrada dos jovens na universidade brasileira.

Qual a sua visão sobre o novo ENEM?

A. Niskier: Eu sou totalmente a favor da política que o ministro Fernando Haddad tem adotado. O projeto do ENEM é altamente criativo, e precisa ser estimulado. Pode ser o fim da “aventura” do vestibular. Há uma compreensão crescente do que ele representa. Com a implantação do ENEM, nós chegaremos, em pouco tempo, a uma solução ideal para a admissão do jovem na universidade brasileira.

Por que há tanto abandono de curso nas universidades brasileiras, inclusive públicas?

A. Niskier: O jovem tem necessidade de emprego. Tem que trabalhar para viver. A universidade tem que ser atraente e o diploma tem que ser uma necessidade indissociável para que ele possa alcançar um bom emprego. A partir do momento que isto não é uma realidade, ele busca caminhos alternativos.

É necessária cada vez mais uma formação universitária generalista?

A.Niskier: É muito importante. Recentemente, em visita que eu fiz a cinco high schools na região de New England, onde nasceu a civilização americana, constatei isso. Eles estão revendo os seus currículos para que se estude mais inglês, história, religião, filosofia. Humanizando o estudo. O individuo passa a ter uma formação mais completa, de cultura geral, ao invés de uma formação especializada, estreita, que marcou por um tempo a vida universitária americana. Nós temos que fazer o mesmo. Se o individuo não tem cultura, nem uma formação adequada, isto prejudicará, inclusive, o seu desempenho profissional.

Tjerk Franken, o “Cientista” de Recursos Humanos: “A universidade se encastelou”

Em Entrevistas, agosto 21, 2009 às 2:27 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

Tjerk Franken: "A universidade olha para o seu próprio umbigo e busca ser o que quer, não o que a sociedade gostaria que ela fosse"

Tjerk Franken: "A universidade olha para o seu próprio umbigo e busca ser o que quer, não o que a sociedade gostaria que ela fosse"

“O conhecimento científico pode ser entendido, abstratamente, como um conjunto de conhecimentos ou dados cujo valor independeria dos homens que os produziram. No entanto, talvez o principal resultado desta pesquisa tenha sido a confirmação de que a ciência é, acima de tudo, o produto de uma comunidade de pessoas bem formadas, trabalhando com entusiasmo no ápice de sua inteligência e criatividade.

Esta definição dada por Simon Schwartzman no Projeto A História da Ciência no Brasil, desenvolvido em parceria da FINEP – Financiadora de Estudos e Projetos e CPDOC/ FGV- Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil mostra a importância das pessoas e da motivação também no desenvolvimento da ciência, humanizando-a. Referido projeto teve como objetivo prioritário contribuir  para a definição de novas estratégias de fomento cientifico – tecnológico com base nas reflexões contidas no Acervo de Depoimentos de 69 cientistas brasileiros, entrevistados entre 1975 e 1978.

Pessoas e Motivação. Duas palavras fundamentais no vocabulário de um profissional. Presentes nos mais diversos livros e manuais de administração, não constituem mais novidade na área empresarial em geral e de recursos humanos em particular. São pilares básicos, indispensáveis para o sucesso de qualquer organização.

Adolfo Martins Penha, Afrânio do Amaral, Bernhard Gross, Carlos Chagas Filho, Cesare Lattes, Crodowaldo Pavan, Darcy Ribeiro, Friedrich Gustav Brieger, Herman Lent, Jose Goldemberg, Jose Leite Lopes, Jose Ribeiro do Valle, Manuel da Frota Moreira, Marcelo Damy de Souza Santos, Mario Schenberg, Mario Ulysses Vianna Dias, Mauricio da Rocha e Silva, Olimpio da Fonseca, Oscar Sala, Otto Bier, Paulo Duarte, Paulo Sawaya, Paulo Vanzolini, Roberto Salmeron, Sergio Porto, Sergio Rezende, Zeferino Vaz.

Todos, renomados cientistas brasileiros. Seus depoimentos fazem parte do Acervo gerado pelo Projeto História da Ciência no Brasil.  O que possuem em comum? Todos foram entrevistados por Tjerk Franken. No total: mais de 150 horas de gravação.  Entrevistar e ter contato com estas personalidades científicas é um privilegio e marcaria a vida de qualquer um. Levar esta bagagem de cientista social para o âmbito das organizações como executivo de recursos humanos, é mais raro ainda. Um diferencial.

“Foi um projeto fantástico, que me marcou muito. Eu saía das entrevistas muito impactado, com outra visão de mundo. Esta experiência ajudou-me, até mesmo, como profissional de recursos humanos” relembra Tjerk, que considera que o “espírito” pioneiro e empreendedor destes cientistas, está cada vez mais ausente das universidades, e que o contato dos universitários com o pensamento destes cientistas deveria ser estimulado.

Formado em Sociologia pela PUC do Rio, Tjerk cursou o mestrado em Ciência Política no IUPERJ-Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro, sem, no entanto, defender a tese. Possui MBA em Gestão do Conhecimento pelo CRIE- Centro de Referência em Inteligência Empresarial da COPPE/ UFRJ. Foi professor da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro e em seguida desenvolveu sua carreira na FINEP, Mesbla, Accenture e Globo.com. Hoje é consultor de empresas nas áreas de Recursos Humanos e Desenvolvimento Organizacional. Além disso é membro do Conselho de Administração da ABRH Nacional.

Nesta entrevista exclusiva, Tjerk relembra a sua rica experiência como historiador da ciência e, com seus diversos “olhares científicos”, analisa os desafios da integração universidade-empresa e da formação universitária. Para ele: “A universidade se encastelou”.

Com a palavra, o entrevistador, desta vez, entrevistado, Tjerk Franken: o “Cientista” de Recursos Humanos.

Tjerk FrankEINSTEIN. Após ouvir tantos cientistas, Tjerk quase ficou assim.

Tjerk FrankEINSTEIN. Após ouvir tantos cientistas, Tjerk quase ficou assim. (Será?)

Como você avalia a universidade no Brasil, e sua integração com as empresas?

Tjerk: A universidade no Brasil está voltada para o conhecimento científico, muito distante das reais necessidades do mundo empresarial. Está atrasada na formação de mão-de-obra com as características e os conhecimentos que a empresa precisa. Nós temos uma tradição muito livresca dentro da universidade. Tem áreas universitárias onde a pessoa acaba de se formar, faz o Mestrado, o Doutorado, sem nunca ter passado concretamente por uma organização, uma fábrica. Fica na universidade e transmite aos alunos o conhecimento que ele traz de livros e de pesquisa, não da prática, da vivência. A Universidade virou uma grande máquina burocrática de massa, uma fábrica de diplomas. Deveria voltar a refletir sobre as suas próprias raízes e missão.

Por que ocorre isso com a universidade?

Tjerk: Eu acho que a Universidade se encastelou. É insensível e rejeita a ingerência da sociedade sobre ela, como se isso fosse acabar com a autonomia universitária. É um absurdo porque a Universidade vive do dinheiro que a sociedade produz, e precisa prestar contas. Nos outros países, a sociedade diz para a Universidade os seus problemas a serem equacionados. Aqui, a universidade olha para o seu próprio umbigo e busca ser o que quer, não o que a sociedade gostaria que ela fosse.

Esta visão livresca ocorre em todas as formações?

Tjerk: Não, isto seria uma grosseira generalização. Existem áreas que são diferentes. Por exemplo, na área de medicina, os próprios médicos ensinam. Normalmente, possuem seus próprios consultórios, suas clínicas, seus equipamentos. Então, existe  uma certa ponte entre o conhecimento puramente científico e a sua aplicação, e transmitem isso para os alunos. Ele sabe fazer um diagnóstico, aplicar um tratamento, interpretar dados. Mas, mesmo ele, possui pouca noção sobre o funcionamento de um hospital, da parte administrativa, financeira, dos seus desafios gerenciais. Na universidade, o profissional não é treinado para que o seu conhecimento seja o mais produtivo possível dentro de uma dinâmica organizacional.

Como aproximar o mundo acadêmico do empresarial?

Tjerk: Nós trabalhamos na empresa com o conceito de ‘competência’, que se compõe de três elementos: 1- CONHECIMENTO, que é o que eu sei; 2- HABILIDADE, o que eu sei fazer com o que eu sei; 3- ATITUDE- o comportamento necessário que eu preciso ter para produzir um resultado concreto, palpável. É onde estão os fatores motivacionais. A universidade enfatiza muito mais o conhecimento em si e, muito menos as habilidades. A universidade deveria estimular, desde já, algumas dimensões comportamentais, como trabalho em equipe, visão estratégica, gestão de projetos, comunicação, entre outras. Ainda somos muito centrados no trabalho individual. Mas, além disso, a universidade tem que se abrir para o diálogo com o mundo empresarial, o que inclui discutir prioridades de investimento, perfis dos profissionais a serem formados, agendas de pesquisa etc.

Zeferino Vaz, criador da UNICAMP. Para Tjerk, uma concepção inovadora de universidade e de interação com a sociedade

Zeferino Vaz, criador da UNICAMP. Para Tjerk, uma concepção inovadora de universidade e de interação com a sociedade

Qual o principal papel da universidade?

Tjerk: Cláudio de Moura Castro, tempos atrás, me chamou a atenção para o fato de que nem toda universidade precisa produzir Ciência. Um grande papel da universidade é, realmente, formar mão-de-obra de alto nível para a sociedade. Ela não precisa fazer isso produzindo Ciência, mas sim a decodificando para que os alunos possam utilizá-la no seu dia-a-dia profissional, quando saírem da universidade. Então, temos dois papéis na universidade: 1- um grupo menor, que se dedica à produção científica; 2- um grupo bem maior, que são as escolas de formação profissional, que precisam ter excelência na aplicação do conhecimento.

Por que esta deficiência em aplicar o conhecimento?

Tjerk: Nós temos uma herança que eu chamo da “Maldição da Casa Grande e Senzala”. A nossa elite sempre achou que o seu problema era o conhecimento e não a aplicação do conhecimento aos problemas práticos. Tudo que era trabalho manual, propriamente produtivo, era feito pelas classes de baixo. Quanto mais você pertencia à elite, menos você ‘sujava as mãos’, menos você se preocupava com problemas concretos da vida. Nós não temos esse lado mais prático do anglo-saxão, de pegar um problema e tentar resolvê-lo, teorizamos muito. Além disso, o lucro na nossa herança cultural é visto como pecado, e por isso também a atividade empresarial era sempre vista como uma atividade menor, menos nobre. O ideal era ser dono de terras e ter muito dinheiro para não precisar trabalhar nunca. Os nossos Institutos de Tecnologia são muito pobres em comparação com os grandes Laboratórios de Tecnologia estrangeiros que produzem conhecimento aplicado aos grandes problemas concretos como: produção de medicamentos, construções, máquinas etc. Essa tendência de ficar no nível da teoria, se reflete na nossa posição no ‘ranking’ internacional de produção científica. Pelo que sei, em  publicações científicas estamos relativamente bem, mas quanto ao que diz respeito à  produção de patentes, estamos abaixo da crítica. Esta marca da Casa Grande e Senzala ainda é muito forte no Brasil.

O que se espera de um universitário?

Tjerk: Capacidade de pensar, de decompor os problemas, de ir para as causas, de ter disciplina no raciocínio.  Espera-se que ele tenha autonomia de pensamento, que ele produza a sua própria receita para resolver os problemas.

Qual a importância do método na formação universitária?

Tjerk: O método implica num profundo conhecimento numérico, quantitativo, das relações causais (geralmente complexas), dos problemas concretos da sociedade. Normalmente as soluções são superficiais porque se investe pouco tempo em analisar e identificar o real problema e suas implicações. Temos a resposta antes de ter a pergunta. No entanto, cada vez mais, temos empresas de conhecimento que em todos os níveis hierárquicos, demandam pessoas capazes de pensar, autonomamente, o problema. Para isso é necessário método e autonomia de pensamento. Eu não vejo a nossa Universidade nesta linha. É impressionante como nossos alunos querem tudo pronto, mastigado, onde eles, simplesmente, repetem o que está escrito, citando diversos autores, mas sem darem sua contribuição pessoal. Não há quebra de paradigma, método, pensamento sistêmico, inovação.

A ALUNA do Tjerk. Para ele o professor tem que "plantar minhocas" na cabeça dos alunos

A ALUNA do Tjerk. Para ele o professor tem que "plantar minhocas" na cabeça dos alunos

Como superar este comodismo dos alunos?

Tjerk: Mas é comodismo dos alunos? Os próprios professores universitários deveriam tomar para si esse papel de ir além da pura tecnicalidade do que eles estão ensinando. Eles precisam “plantar minhoca” na cabeça dos alunos. Deixá-los inquietos, questionando, com dúvidas. Estimular a ir fundo nos conceitos, e se envolver com o mundo em que eles vivem.

O BID ao investir na USP, adotou como critério de avaliação, o impacto profissional dos formandos. Qual a sua visão sobre isso?

Tjerk: É positivo. A Universidade, em algum momento, também tem que prestar contas e avaliar como esse dinheiro investido volta em termos de aumento de produtividade na sociedade. Mas até a palavra avaliação parece que virou palavrão. Por parte da maioria dos professores há aparentemente grande resistência. Isto vai na contramão da história.  Hoje tem toda uma preocupação nas empresas, de dimensionar o retorno sobre o investimento, em relação aos gastos com desenvolvimento, treinamento e capacitação. Avaliação é importante para a universidade, principalmente as públicas, que são mantidas pelos impostos que nós cidadãos pagamos.

Há uma deficiência no ensino médio brasileiro que dificulta uma maior integração com as universidades?

Tjerk: Isso é meia-verdade. Claro: se você já recebe uma mão-de-obra mal formada, o resultado final, normalmente, não é bom. Mas, se você submete o aluno que entra na universidade a um regime intensivo de recuperação, ele rapidamente pode ganhar qualidade e superar esta deficiência do ensino médio. Bastava serem feitos planos especiais nas universidades para superar esta deficiência de formação inicial.

Deveria existir maior integração entre graduação e pós graduação?

Tjerk: Obviamente. É bom que exista uma ponte, mas a Pós-Graduação tem que ter uma certa autonomia, porque ela é uma outra etapa da produção de conhecimento. No Brasil acontece o seguinte: a Escola Média tenta corrigir as deficiências da Escola Primária, a Universidade tenta corrigir as deficiências da Escola Média e a Pós-Graduação tenta corrigir as falhas de formação universitária. Isso é péssimo. Com isso, a qualidade da Pós-Graduação cai e ela deixa de cumprir o seu principal papel que é o de produzir conhecimento avançado.

A herança do Casa Grande e Senzala é uma das principais causas da integração teoria-prática para Tjerk

A herança do Casa Grande e Senzala é uma das principais causas da integração teoria-prática no Brasil para Tjerk

O Plano Diretor da UFRJ 2020 propõe a concentração de todos os cursos de graduação no campus da Ilha do Fundão. Qual a sua visão sobre isso?

Tjerk: Eu acredito muito no modelo universitário fisicamente integrado. Eu acho que o ambiente universitário só se cria quando você tem proximidade física, tem debate, tem informalidade de encontro, até de tomar cerveja, de conversar, ter um convívio acadêmico. Você vai para a Universidade de Stanford, tem aquele parque bonito, aqueles prédios funcionais, bem conservados e equipados, ali circula gente, andam de bicicleta, tem coral, tem os laboratórios de pesquisa, você encontra os seus amigos de outras formações universitárias, bate papo. Enfim, esse clima universitário se beneficia muito com o campus integrado.

Qual a sua avaliação sobre uma formação universitária mais multidisciplinar?

Tjerk: Acho essa questão multidisciplinar um pouco falsa, mal colocada. Ser multidisciplinar no sentido de obrigar o aluno a estudar assuntos que não mantém uma relação direta com o que interessa para ele ser um excelente profissional não acho útil. Por outro lado um bom profissional tem que ter curiosidade intelectual, tem que mergulhar fundo naquilo que não conhece, mas que quer entender. Isso é essencial. Esse desejo de ir além das aparências, do imediato, das fórmulas prontas e começar a pensar no real sentido das coisas. Pensar sistemicamente, entender como os diferentes campos do conhecimento se relacionam e são interdependentes é fundamental. Isto falta à formação universitária hoje. Eu costumo incentivar nas minhas palestras e aulas para irem além do senso comum. Lerem um bom livro, um bom romance, assistirem a um bom filme, fazerem curso de filosofia. Não ficarem restritos ao jogo de futebol e aos programas de auditório.  Por isso acho que é muito mais essa atitude que a gente precisava recuperar na universidade, essa atitude mais reflexiva, de pensar fora da caixinha.

Como a formação universitária multidisciplinar seria visto pelas empresas?

Tjerk: A empresa valoriza o profissional que, além da excelência técnica, tem visão estratégica, está a par do que acontece no mundo e o impacto sobre a organização e seus negócios, entende e lida bem com a complexidade do ser humano etc. A multidisciplinaridade, obviamente, ajuda a ter mais visão de conjunto, a ver como é que as peças da engrenagem funcionam e se integra no todo, e não ficar olhando exclusivamente pela ótica da sua especialidade. Isso, em qualquer profissão, é positivo.

Para Tjerk o projeto de um campus fisicamente integrado facilita a interação acadêmica entre as diferentes áreas do conhecimento

Para Tjerk o projeto de um campus fisicamente integrado facilita a interação acadêmica entre as diferentes áreas do conhecimento

Qual a sua visão sobre a oferta de MBA para todos os cursos de graduação?

Tjerk: Não vejo sentido nisso. O MBA surgiu para complementar a formação dos profissionais dentro das organizações que precisavam começar a assumir responsabilidades de gestão, a atuar como executivos. Mas nem todos têm vocação para ser gestor, muito menos para ser líder. As pessoas podem aprender muito nos livros, mas ser executivo e principalmente ser líder se aprende na prática,fazendo. Só se pode avaliar o potencial para o exercício de funções executivas, exercendo-as na prática. Só se forma um líder, dando a ele missões cada vez mais complexas, para que ele possa se testar e ver até onde ele vai. O ideal seria que só fizesse o MBA pessoas que estivessem dentro da empresa, praticando aquilo que aprendeu no dia-a-dia. Claro que cada segmento da sociedade tem especificidades gerenciais e desafios executivos: uma coisa é a gestão de universidades, outra é gestão de siderurgias, de hospitais, de empresas de tecnologia da informação etc. Neste sentido MBAs com foco em segmentos específicos fazem sentido.

Liderança se aprende?

Tjerk: Isso é uma discussão interminável e sem conclusão. Tem gente que diz que liderança se aprende, tem gente que diz que você nasce líder. Para mim, o verdadeiro líder tem que ter uma vocação inata. Se você não tiver essa base inata, você pode aprender o que quiser que, dificilmente, será um grande líder. E não há nenhuma vergonha nisso.  Se todo mundo fosse um grande líder, seria um caos. Mas isso é uma coisa. Outra é passar a dominar determinadas competências que os líderes também possuem em grau maior ou menor: transmitir visão, alinhar ações, inspirar e motivar pessoas, comunicar, colocar desafios etc. Isto tudo, um bom gerente tem que ter, mas não necessariamente o transforma num grande líder.

Qual a importância de participar de um projeto como A História da Ciência no Brasil?

Tjerk: Isso aí foi um projeto fantástico. Foi um dos projetos mais bonitos de que eu já participei. Fiz com imenso prazer e me marcou muito. Essas figuras são multifacéticas, não se dedicam obsessivamente a uma coisa só, e não se satisfaziam com as coisas superficiais. Eu saía da entrevista muito impactado, com outra visão de mundo. Eram personalidades muito fortes e com idéias muito próprias. Tinham um projeto na cabeça e lutavam por ele. Hoje na minha opinião falta esse espírito na universidade. De certa forma, esta experiência me ajudou até mesmo como profissional de RH. Eu sempre fui uma pessoa muito curiosa e fascinada pelas coisas. Ter contato com estes cientistas foi realmente marcante.

Carlos Chagas Filho, criador do Instituto de Biofísica da UFRJ. Conciliou atividade acadêmica e científica com a executiva e empreendedora. Para Tjerk, um grande exemplo.

Carlos Chagas Filho, criador do Instituto de Biofísica da UFRJ, conciliou a atividade acadêmica e científica com a executiva e empreendedora. Para Tjerk, um grande exemplo.

Carlos Chagas Filho e Zeferino Vaz, ambos entrevistados por você, são duas grandes referências em minha formação. Que exemplos podemos tirar deles?

Tjerk: Ambos foram grandes Institution Builders. Conciliaram a atividade acadêmica e científica com a executiva e empreendedora. Tinham um ou talvez vários sonhos. E para realizá-los não mediram esforços, eram destemidos. Além de grandes cientistas, foram grandes empreendedores. Usaram suas redes de influência, inclusive na esfera política, para construir duas grandes referências científicas no Brasil e no mundo. Carlos Chagas Filho criou o Instituto de Biofísica da UFRJ, que renovou a maneira de se fazer ciência no Brasil e formou uma elite científica brasileira de primeira linha. E o Zeferino Vaz, que criou a UNICAMP, uma concepção absolutamente inovadora de universidade e de seu relacionamento com a sociedade e seus problemas. Claro que não fizeram isso sozinhos. Pelo contrário,  foram capazes de atrair para os seus projetos um time invejável de talentos, e a isso se deve grande parte do sucesso. São duas personalidades marcantes. Deveria ser estimulado o contato dos estudantes com o pensamento destes e de outros cientistas. Enriquece a visão de mundo.

No Livro Fantasia Organizada, biografia do Celso Furtado, Eugenio Gudin sugere que Furtado deveria ser romancista e não economista. Qual a sua visão sobre isso?

Tjerk: Eu acho que a realidade comporta ambas as coisas. O que seria o Brasil sem Furtado ou sem Gudin? Em minha opinião, mais que um Economista, Celso Furtado foi ideólogo. Gudin, certamente, era mais cientista, no sentido de ir para os dados, para as relações causais, entender o intricado mecanismo do governo e da economia. Furtado tinha um desejo de justiça, de erradicação das desigualdades, de desenvolvimento, de mudança que era mais forte do que  sua vocação para a pesquisa científica. Mas estou me metendo em seara alheia, em assuntos de que não entendo. E não existe atitude mais anti-científica do que essa.

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Assistam ao filme “Um Homem de Moral” - Documentário sobre o cientista Paulo Vanzolini

Ciência, Música e Arte: Paulo Vanzolini (entrevistado pelo Tjerk), idealizador da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), ativo colaborador no Museu de Zoologia da USP e um dos principais zoólogos mundiais. Além disso, grande compositor da Música Popular Brasileira.” Ronda ” e “Volta por Cima” são suas composições.

O filme já saiu de cartaz nos cinemas

“El Brujo” Homero Icaza Sanchez, o Primeiro Analista de Pesquisa da TV Globo

Em Entrevistas, agosto 12, 2009 às 2:58 am

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

El Brujo Homero Icaza Sanchez. O apelido foi dado pelo escritor Rubem Fonseca

Homero Icaza Sanchez. O apelido de "El Brujo" foi dado pelo escritor Rubem Fonseca

Primeiro analista de pesquisa da TV Globo, contratado por José Bonifácio Oliveira Sobrinho, o Boni, então superintendente de Produção e Programação, Homero Icaza Sanchez, mais conhecido como “El Brujo”, aos seus 84 anos de idade, afirma: “Analista de pesquisa não existe, e nunca existiu no Brasil”.

Para Homero, até hoje não se desenvolveu no Brasil a cadeira acadêmica de análise de pesquisa, que demanda uma visão universitária multidisciplinar. Para Sanchez as principais matérias básicas a serem estudadas deveriam ser: Sociologia, Estatística, Psicologia Social, Introdução a Comunicação de Massa e Opinião Pública. “Você não pode ser analista de pesquisa sem saber sociologia. Esta base é fundamental” enfatizou Homero, que considera a seleção criteriosa de uma amostra, imprescindível para o sucesso de uma pesquisa.

Homero conta que o apelido de “El Brujo” foi dado pelo escritor Rubem Fonseca, numa reunião de amigos, que ocorria periodicamente, para discutir sobre música e cantores brasileiros, em que participavam Nelson Motta, Artur da Távola, Zuenir Ventura, dentre outros. Recorda Icaza Sanchez: “Numa reunião eu interrompi a discussão e comecei a falar: ‘Eu acredito na sociologia….’ Rubem Fonseca virou-se para mim, em tom de brincadeira, e disse: “Cala a boca, porque você é bruxo. A partir daí o apelido ficou”.

O apelido de “Bruxo”, popularizado por suas brilhantes análises da expectativa do público transformadas em novas grades de programação tem a sua razão de ser. A novela das 18 horas, o programa a Grande Família, o Globo Repórter, entre outros, tiveram seu sucesso diretamente ligados às suas análises. Sánchez passou a decifrar e a humanizar as pesquisas de audiência da Rede Globo. Antes de começar a trabalhar na emissora, as análises eram feitas com base na pós-exibição dos programas. Ele sugeriu que se passasse a fazer pesquisas sobre tendências de comportamento, hábitos e expectativas do telespectador, levando em consideração as variáveis de sexo, idade, grau de instrução, local de moradia e religião. Foi a partir dessas considerações que ele passou a fazer o cruzamento entre os critérios da pesquisa socioeconômica, já tradicional, e o da sociocultural. Assim, verificou que um mesmo indivíduo pode ser, economicamente, da classe C, mas se comportar e ter desejos que caracterizam a classe A. Esse seria o caminho para adequar a programação às expectativas dos telespectadores. Não se trataria, portanto, de uma pesquisa apenas de audiência, mas também de comportamento.

Homero considera José Bonifácio Oliveira Sobrinho, o Boni, um gênio da Televisão

Homero considera José Bonifácio Oliveira Sobrinho, o Boni, um gênio da Televisão

Este panamenho, nascido em 10 de janeiro de 1925, veio para o Brasil em 1943, após ganhar uma bolsa de estudos do Itamaraty junto com outros dois companheiros: Jose Perigault e Virgilio Javier Garcia. Formou-se em direito pela UFRJ e, ao mesmo tempo, fez um curso de especialização em sociologia na FGV Rio.

Foi Perigault quem lhe indicou ao Boni, considerado por Homero um “gênio”e um dos “pais” da televisão do Brasil, junto com Joe Wallach e Walter Clarck, para humanizar as pesquisas encomendadas ao IBOPE, muito grandes e cheia de números. O seu papel foi humanizá-las, interpretá-las e explicá-las para um público leigo no assunto.  Neste momento, em 1971, surge o departamento de análise e pesquisa da Rede Globo, com Homero sendo o primeiro diretor. Antes, já havia trabalhado no jornal O Dia, na revista Realidade, na Rádio Nacional e junto do apresentador Chacrinha na TV Tupi.

José Perigault, que já era um dos diretores do IBOPE, junto com Paulo de Tarso Montenegro, Guilherme Torres e Hairton Santos, desde 1950, quando o fundador Auricélio Penteado deixou a direção, fornecia as pesquisas de caráter não confidencial para que Sanchez pudesse treinar o que havia aprendido em sua formação, analisando-as.

Homero considera José Perigault um pioneiro, tendo sido quem introduziu a Pesquisa Política e aplicou Sociologia à Pesquisa de Opinião Pública no Brasil; além de ter realizado outras diversas pesquisas sobre o comportamento sexual, e sobre o perfil do carioca, do paulista, entre outras. Numa época em que ninguém acreditava em pesquisa de opinião pública, e os fregueses que as compravam escondiam os resultados.

“Dom” Joaquim Lauria, Presidente do Grupo LET RH: “Não faltam empregos, mas sim qualificação profissional”

Em Entrevistas, agosto 11, 2009 às 6:09 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ


Joaquim Lauria, Presidente do Grupo LET RH: "Acho fantástica essa sua formação híbrida em Administração de Empresas e Comunicação"

The Godfather. Joaquim Lauria, Presidente do Grupo LET RH: "Acho fantástica essa formação híbrida em Administração de Empresas e Comunicação"

Diretor Presidente do Grupo LET Recursos Humanos, que atua em segmentos como recrutamento e seleção, mão de obra temporária, busca de novos talentos, executive search, check up profissional e treinamento, Joaquim Lauria, graduado em Arquitetura e Administração de Empresas, com pós graduação em Engenharia Econômica pela UFRJ, Recursos Humanos pela PUC Rio e Marketing pela Fundação Getúlio Vargas possui uma trajetória profissional de sucesso de quase 40 anos na área de Recursos Humanos.

Começou sua carreira na GGS Indústrias Gráficas em O&M (Organização e Métodos), passando, logo após essa primeira experiência, para a área de Recursos Humanos. Identificou-se e fez uma carreira vitoriosa. Trabalhou na CCPL, empresa de laticínios; no Banco Boavista, na Rioquima, no SERPRO (Serviço Federal de Processamento de Dados), Natrom, empresa do ramo de engenharia; e Soletur, acumulando experiência e conhecimento até tornar-se um empreendedor e criar o Grupo LET (inicialmente LET Consultoria Empresarial) no ano de 2000.

Desde a sua criação o Grupo LET cresceu sempre 100% ao ano, tanto em atendimento, quanto em corpo funcional e números de faturamento, passando a ser considerada uma empresa de grande porte nos setores de terceirização e disponibilização de mão de obra temporária. Inicialmente, Joaquim prospectava pessoalmente todos os seus clientes. A sua habilidade para o ofício é inquestionável. “Todo santo dia procuro cumprir as minhas metas; sou ambicioso, porque sem ambição não chegamos a lugar nenhum” revela o vascaíno Lauria em depoimento.

Hoje o Grupo conta com um leque de clientes como: Ambev, Agora Corretora (veja entrevista feita com o seu diretor Álvaro Bandeira), Rede Globo de Televisão, TIM, ITAÚ, Petrobras, GSK, entre outros. Com uma equipe de profissionais, dividida em seus escritórios do Rio de Janeiro (matriz), São Paulo e Curitiba (filiais) o grupo possui também como negócios, dentre outros, a KL Produções e Eventos, com o objetivo de organizar, apoiar e promover peças de teatro, oficina de atores e atrizes, shows e eventos; e o Instituto Capacitare (Junto com a Leyla Nascimento, Presidente da ABRH), que busca ser um elo de ligação entre estudantes, instituições de ensino e mercado de trabalho.

Diante de tal trajetória, não há quem não conheça nas empresas e entre os profissionais de recursos humanos a sigla LET e Lauria. Guarda, inclusive, certa similaridade com os grupos mafiosos italianos, cuja personificação em Dom Vito Corleone (Marlon Brando), personagem principal do filme de Francis Ford Coppola, O Poderoso Chefão é marcante. Nas máfias italianas fala-se sobre assaltos, crimes, corrupção. Nos grupos dos mafiosos de recursos humanos é diferente. Fala-se em busca de talentos, capacitação profissional, qualificação.  Aqui o mãos ao alto também é para pedir a carteira, porém, a de trabalho. Os assaltantes são os recrutadores. As suas armas: os testes psicológicos, a dinâmica de grupo, as entrevistas.

Poderoso Chefão que se preze tem que estar preocupado com a sucessão. Para isso, Joaquim conta com a nova geração LET, seu filhos Kryssiam e Tatynne Lauria (Completam a trilogia do filme O Poderoso Chefão), que o acompanham e aprendem diariamente novas habilidades para sucedê-lo.

Nesta entrevista exclusiva, concedida em duas partes: na sede do Grupo LET na Barra da Tijuca e no Congresso da ABRH Rio: Além do Ocidente e do Oriente é possível conhecer um pouco mais o perfil de Joaquim e de seus discípulos Kryssiam e Tatynne Lauria. Aqui, Godfather, Godfather 2 e Godfather Girl.

Como aproximar teoria e prática nas universidades?

J. Lauria: É muito comum os alunos saírem da universidade com um plano didático maravilhoso na cabeça, mas sem saber o caminho para colocá-lo em prática. Se os professores já atuaram no lado profissional, ele conhece tanto o lado das demandas empresariais, quanto do lado acadêmico. Ao conhecer o outro lado, tem maior facilidade na hora de explicar e passar os conceitos para os alunos.  Por exemplo, ao explicar como montar um planejamento estratégico de uma organização, ou estruturar um projeto financeiro, ou qualquer outra atividade, ao ter vivenciado na prática o assunto, a facilidade de transmissão é muito maior. Isto é bom para professores e alunos. Nesse sentido, as universidades públicas estão atrás, em relação às privadas. Os professores deveriam vivenciar mais os problemas das empresas.

Qual o principal papel da universidade?

J.Lauria: A universidade tem que fortalecer a base do aluno, principalmente, no primeiro ano. E no final, além de continuar estimulando a pesquisa, imprescindível, e mais do que necessária hoje, aproximá-lo da realidade do mercado de trabalho. Eu não seria absolutamente nada sem a minha formação acadêmica, mas os currículos escolares hoje são muito grandes e extensos para o mundo moderno. Estuda-se por quatro, cinco anos e, muitas vezes, ao final, parte do aprendido está obsoleto, tendo que ser reatualizado. Os avanços tecnológicos ocorrem numa velocidade enorme.  Todo dia temos algum conhecimento novo a ser aprendido. Ter capacidade de aprender a aprender que é fundamental.

O que poderia melhorar pelas empresas?

J.Lauria: As empresas e os governos poderiam ceder mais o seu material conceitual e humano para ajudar as faculdades na formação de pessoas. Por exemplo: a Petrobras tem a sua fundação para formação interna. Capacita profissionais, principalmente engenheiros, para a área de petróleo. Se, além disso, estimulasse essa formação dentro da própria universidade, cedendo esse conhecimento, poderia ser extremamente benéfico. O formando já teria algum conhecimento sobre petróleo, não iniciaria do zero. Veja, por exemplo, a área de logística. Hoje, diferentemente do passado, é extremamente procurada, e há ausência de pessoas qualificadas. Há os cursos de extensão universitária, mas os profissionais do setor é que tem mostrado o dia-dia da função para formar este profissional. A inércia da universidade é muito grande.

Formação universitária multidisciplinar é cada vez mais importante?

J.Lauria: É fundamental. Eu, por exemplo, dificilmente leio um livro inteiro de uma vez só.  Leio dois livros de assuntos completamente distintos juntos, um capítulo de cada um, e consigo interagi-los. Um livro técnico junto com um romance se integra perfeitamente na minha cabeça.  Por exemplo: um engenheiro que tivesse oportunidade de paralelamente estudar economia ou qualquer outra área que adicionasse aos seus conhecimentos, terá uma mente muito mais aberta, muito mais factível para receber informações. Ter a oportunidade de conjugar e interpretar essas informações multidisciplinarmente é um grande avanço. As empresas estão necessitando cada vez mais de profissionais deste tipo.

Tatynne Lauria (cachecol azul) e Talita, coordenadora de Mkt e Comunicação da ABRH-RJ, no Congresso RH-Rio 2009: Além do Ocidente e Oriente. Apesar de atriz e jornalista de formação, a filha traz nas veias habilidades de empresária e executiva

The Godfather Girl. Tatynne Lauria (cachecol azul) e Talita, coordenadora de Mkt e Comunicação da ABRH-RJ, no Congresso RH-Rio 2009: Além do Ocidente e Oriente. Apesar de atriz e jornalista de formação, Tatynne traz no sangue habilidades de empresária e executiva

O Plano Diretor da UFRJ 2020 propõe a concentração de todos os cursos na Ilha do Fundão.  Qual a sua visão sobre isso?

J.Lauria: Muito positiva. Eu acho fantástica essa integração dentro do mesmo campus. Isso existe no mundo inteiro e eu acho que é um projeto que já podia estar pronto. Pena estar previsto somente para 2020. Buscar uma maior integração entre as diversas áreas do conhecimento é fundamental. A localização num mesmo campus poderá facilitar a locomoção dos alunos e a interação.

Qual a importância do trabalho temporário?

J.Lauria: O trabalho temporário é importante tanto para o funcionário que tem a oportunidade de aprender algo a mais, de mostrar na prática o que ele sabe fazer, de conhecer, selecionar e definir com mais critérios a empresa que vai trabalhar; quanto para a empresa que tem oportunidade de avaliá-lo em ação. As organizações incorporam em sua estrutura muitos destes trabalhadores temporários. Os dois lados ganham, é extremamente útil.

O que acha em oferecer visão de gestão/MBA para alunos de todos os cursos de graduação?

J.Lauria: A proposta é fantástica, mas não é fácil de concretizá-la. O sistema educacional no Brasil ainda é muito segmentado, dificultando essa interação. Hoje, termina-se a graduação para depois fazer o MBA. Se fosse feito de forma paralela à formação universitária seria uma vantagem, poderia ajudar.   Por exemplo: um nutricionista, ou um músico, que além de ser um especialista na sua função, possua visão gerencial é um diferencial. Claro que o grau de um maior ou menor sucesso dependerá do perfil de cada um, além de variar entre as organizações. Não há uma receita.

Cuidado com a "Máfia" do Grupo LET! Se você for um talento poderá ser sequestrado (recrutado)

Cuidado com a "Máfia" do Grupo LET! Se você for um talento poderá ser sequestrado (recrutado)

É cada vez mais necessária uma formação generalista?

J.Lauria: Acho que sim. O mundo de hoje não convém mais a especialidade. A pessoa tem que conhecer de tudo.  A própria área de recursos humanos no passado era completamente estanque, você tinha área de cargos e salários, assistente social, departamento de pessoal. Hoje é cada vez mais estratégica e integrada a todas as áreas empresariais.

Como antecipar a formação de novas lideranças executivas?

J.Lauria: Para chegar a CEO de uma empresa tem que conhecer profundamente a organização, passar pelo menos por 30/40 % dos seus postos. As empresas tentam cada vez mais abreviar o processo dos seus CEO’s. Nos Estados Unidos, por exemplo, hoje estão trazendo de volta aposentados que tem uma bagagem interna da organização muito grande e colocando-os como Staff/ coaching de jovens executivos. É um processo caro, mas há muitas organizações fazendo isso hoje. Para um grupo seleto isto é possível.

Liderança é aprendida?

J.Lauria: É passível de ser aprendida, mas quem já possui características inatas para liderança é muito mais fácil de desenvolver. Líderes natos são identificados numa breve conversa e dinâmica, possuem habilidades marcantes.

Qual a importância da dinâmica de grupo na avaliação comportamental?

J.Lauria: É fundamental. Estar trancado com uma pessoa numa sala conversando, é diferente de estar com dez, muda todo o ambiente de trabalho. Acho tão eficaz, que até em recrutamento de executivos (headhunter), que tem todo um lado confidencial, já realizei. Permite, em pouco tempo, avaliar melhor o potencial e as habilidades do candidato. Os testes psicológicos e comportamentais servem, apenas, como orientação. Uma boa dinâmica de grupo e entrevista é fundamental.

O Poderoso Chefão 2. Kryssian Lauria é nova geração do Grupo LET. A sua experiência em organização de festas e eventos contribuiu para que  desenvolvesse habilidades para lidar com o público

The Godfather 2. Kryssiam Lauria é nova geração do Grupo LET. A sua experiência em organização de festas e eventos contribuiu para que desenvolvesse habilidades para lidar com o público

Qual a importância do estágio na formação?

J.Lauria: Estagiar em organizações agrega valor, tanto profissionalmente, quanto academicamente. Muitas empresas não sabem aproveitar os estagiários, interpretando-os como mão de obra barata, infelizmente. As empresas ainda trabalham mal a competência dos seus funcionários. Poderiam ser mais soltas, daria um retorno para as organizações muito maior. O Luis Carlos Campos, já falecido, que foi presidente da ABRH nacional, lutou a vida inteira pela obrigatoriedade dos estágios nas empresas. É uma atividade de fundamental importância na formação. Aproxima o mundo acadêmico do das organizações.

Como avalia esta minha formação hibrida em Administração de Empresas e Comunicação/ Jornalismo?

J.Lauria: Acho fantástica. Você está generalizando o seu conhecimento ao unir administração, que já é uma área ampla, com comunicação. Quem dera que todo mundo conseguisse fazer isso. Qualquer tipo de cruzamento de formações, seja qual for, é somatório. Dificilmente uma empresa terá uma área específica com um cruzamento dessas áreas de comunicação e gestão, geralmente, são áreas que não se falam no seu dia-a-dia. Teria que ser feito estágio nas duas áreas separadas. Mas visão multifuncional é o que as empresas buscam cada vez mais.

Quais são as principais dificuldades encontradas hoje em recrutamento?

J.Lauria: Falta de qualificação profissional. Nunca faltou empregos, existe sim, gente despreparada para os cargos. No Grupo LET eu devo ter hoje umas cento e trinta vagas abertas, com dificuldade de fechar. Qualquer grande empresa tem sempre vaga em aberto. No ramo da tecnologia, nem se fala, há carência de mão de obra em escala global. A formação não acompanha a velocidade das alterações tecnológicas.

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O Treinamento de uma Godfather Girl

Desde criança exerça os seus direitos

Lições: Tamanho não é documento. Trate todos da mesma forma. Prefira Pepsi a Coca.

Godfather costuma ter bom gosto

Recordar é Viver.


O Capiano Revolucionário Érico Magalhães, Diretor de RH da TV Globo: “A universidade tem que ensinar a pensar, falar e fazer”

Em Entrevistas, agosto 10, 2009 às 6:42 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ


O Capiano Érico Magalhães, diretor de RH da TV Globo: "Nosso negócio é ShowBusiness. Formar profissionais que integrem estas duas visões é um desafio"

O Capiano Érico Magalhães, diretor de RH da TV Globo: "Nosso negócio é ShowBusiness. Formar profissionais que integrem estas duas visões é um desafio"

Com formação básica no Colégio de Aplicação da UFRJ, criado para ser um laboratório pedagógico e formador de lideranças brasileiras, Érico Eduardo Magalhães, atual diretor da Central Globo de Recursos Humanos pode ser considerado um Capiano Revolucionário, mais uma cobaia pedagógica bem sucedida do CAP UFRJ.

Pode parecer ousado e confuso, num primeiro momento, este universitário definir o Diretor da Rede Globo, responsável por RH, Recursos Artísticos, Planejamento e Controle, Finanças e Pesquisa de Audiência (Ufa! Quanta responsabilidade e função!) de tal forma.

Porém, explico. O livro Intelectuais e Guerreiros: O Colégio de Aplicação da UFRJ de 1948 a 1968, da professora Alzira Alves de Abreu, defende a paradoxal tese: o processo educacional do Colégio de Aplicação da UFRJ contribuiu para formar revolucionários que entraram na luta armada, a ponto de seqüestrarem o embaixador americano. César Benjamin, Cid Benjamin, Franklin Martins, Alfredo Sirkis, todos do CAP, são os mais conhecidos.

Infelizmente, ou felizmente, não é possível anexar esta façanha de seqüestrador, ao currículo de Érico Magalhães, o colégio tinha correntes mais moderadas, menos radicais, bem dividas entre os célebres jornais: A Forja, de cunho mais radical de esquerda, e A Voz, menos politizado. Será que a semente para o ramo de comunicação em seu perfil, foi plantada pelo envolvimento com estes jornais? Difícil responder.

Porém, é visível a influência dessa experiência do CAP, até hoje, em sua formação, “tudo que é conceito eu aprendi a pensar como o Colégio de Aplicação me ensinou” afirma ele, que entende que a universidade tem o papel de ensinar a pensar, falar e fazer.

Isto, o Colégio de Aplicação fez com Érico, que analisa planilhas da TV Globo, fundamentado em conceitos da Lei dos Grandes Números, aprendida em suas memoráveis aulas de física do professor Ancelmo, jogador de basquete, assim como ele, quando estudante.

Formado em engenharia civil pela UERJ, com mestrado em administração pela Puc Rio com a tese: Uma Metodologia de Planejamento para Empresa Pública: Teste no Setor de Processamento de Dados e pós graduação por Stanford, Érico nunca atuou como engenheiro, desenvolvendo sua experiência profissional, principalmente, na área de Planejamento e Recursos Humanos, na Serpro – Serviço Federal de Processamento de Dados (trabalhou junto com o atual reitor da UFRJ, Aloísio Teixeira) e na Mesbla, antes de ingressar na Rede Globo.

Nesta entrevista exclusiva, em sua sala rodeada de fotos de suas netas, este avô orgulhoso, vencedor do Prêmio Profissional do Ano ABRH-Rio 1994, retrata os desafios de recursos humanos nas emissoras de televisão, da integração entre universidade-empresa e, sem se dar conta, mostra seu grande perfil de educador.

Para ele, não há diferença entre o professor, o pai e o chefe, todos são comunicadores. Educar, em sua visão, é definido por Cícero: tirar a motivação do outro para o que se quer transmitir. Este cuidado fica claro em toda a sua fala, mais voltada para gerar reflexão, do que estabelecer determinadas verdades. A essência do processo educacional para ele.

Conheça um pouco mais deste eterno Capiano Revolucionário,  Intelectual e Guerreiro, mais uma Cobaia Pedagógica  bem sucedida, Érico Eduardo Magalhães.

"Hay que endurecer, sí, pero perder la ternura, jamás!" Em sua época de estudante do CAP UFRJ, o líder revolucionário Ernesto Che Guevara era uma grande influência de Érico.

"Hay que endurecer, sí, pero perder la ternura, jamás!" Em sua época de estudante do CAP UFRJ, o líder revolucionário Ernesto Che Guevara era uma grande influência

Como você avalia a integração entre universidade e empresa?

Érico: Esta dicotomia a universidade e as empresas ainda não conseguiram resolver. Se um dia o país apostar na educação como grau de alavancagem, as empresas e as universidades se virem como parceiros adequados para desenvolverem as suas estratégias, e buscarem jogar juntas, ao invés de separadas, será benéfico para ambos: universidade e empresa.

O que poderia ser melhorado pelas universidades?

Érico: Os professores e a universidade como um todo se dedicam menos do que deveriam ao mercado. Acham que vão se poluir, se se aproximarem das empresas. Nos Estados Unidos, as empresas financiam pesquisa pura e aplicada, buscando soluções e gente. Lá, a universidade não sobrevive sem a aproximação com as empresas. Eu estudei em Stanford e via como as universidades têm salvado os Estados Unidos, como foi na época em que a Europa era dominante. Esta capacidade de passar conceitos, passar valores, filosofia de cada uma das matérias, de cada uma das disciplinas, das profissões, ao mesmo tempo em que se aproxima da vida real e da realidade econômica, que é fundamental, seja através das empresas, do estado ou de ONGs. A sabedoria está em olhar para os negócios e para o futuro para que não ensine para o passado. Ensinar para o passado é um dos grandes problemas de nossa universidade hoje.

Qual você considera o principal papel da universidade?

Érico: O principal papel da universidade é ajudar os alunos e a sociedade a pensar, falar e fazer. Normalmente, temos dois blocos. As universidades que ensinam a fazer, e as que ensinam a pensar. A primeira gera, muitas vezes, os analfabetos funcionais, que fazem tudo através da repetição de técnicas, mas sem pensar. A segunda, filosófica demais, com excesso de conceitos. O grande desafio é o meio termo desses dois modelos. Pensar e fazer são partes da mesma moeda, eles não são diferentes. Eu vou para o pensar, mas não consigo executar? O intelectual que só pensa, ele pensa e escreve uma tese, um livro, uma música, faz uma partitura. A ordenação do nosso pensamento está na bíblia, e em qualquer filosofia humana. Pensar, falar e fazer. Pensamento, palavra e obra. Esta é a essência da vida.

Qual foi a importância da educação básica em sua formação?

Érico: Eu estudei no Colégio de Aplicação da UFRJ aqui da Lagoa, na época da ditadura. Era um colégio que ensinava exatamente isso: a pensar. E ele aplicava os conceitos na realidade, através de atividades extracurriculares. Eu lembro de um professor de física chamado Ancelmo que me adorava porque ele jogava basquete, e eu também jogava basquete no Botafogo. Ele durante os dois primeiros períodos ensinou a lei dos grandes números. A aula inteira era: “qual a distância do homem para a lua. Em quanto tempo uma formiga atravessa o deserto do Saara.” Até hoje, quando eu recebo uma planilha, na mesma hora analiso pela lei dos grandes números e, muitas vezes, digo se está correta ou não, sem fazer contas. Educar, em Cícero, significa tirar do outro a motivação para o que eu quero transmitir. O CAP me motivava para o estudo. Até hoje, eu como Diretor da TV Globo, tudo que é conceito eu aprendi a pensar como o Colégio de Aplicação me ensinou. Marcelo Madureira, César Benjamin, Cid Benjamin, Edna Palatinik, Ricardo Vilas, Mauricio Maestro, David Tygel, entre outros, foram de lá. Tenho boas lembranças.

Intelectuais e Guerreiros. Pedagogia do CAP UFRJ influenciou na formação de grandes líderes brasileiros. Cobaias pedagógicas bem sucedidas

Intelectuais e Guerreiros. Pedagogia do CAP UFRJ influenciou na formação de grandes líderes brasileiros. Érico foi mais uma cobaia pedagógica bem sucedida

Historicamente, o sucesso dos diretores de TV é decorrente de características inatas e intuição, ou de capacitação profissional?

Érico: Gestão você passa por ter visão, ter a estratégia e  gerir resultados através das pessoas. Ela sempre vai se juntar com duas características humanas: a capacidade de ter a intuição e as coisas que são inatas, até as técnicas que você vai aprendendo ao longo do tempo. Raros são os gênios, que conseguem ter somente um dos lados e serem bem sucedidos em todo o momento. Uma pessoa altamente intuitiva, mas que não utiliza nenhuma técnica de gestão de empresas, seja de TV, ou outra qualquer, encontrará dificuldades. Todos os grandes visionários, por exemplo, o Bill Gates: era de Harvard, criou o seu software num fundo de quintal, mas juntou-se logo com outro que tinha habilidades que ele não possuía para complementá-lo. Esta visão do extraordinário, dos intuitivos, normalmente é visão que se tem dos gestores de empresas nascentes. Após a fase inicial, mais heróica, visionária, a empresa adquire uma dimensão que é necessário estruturar-se. Igual a uma família, que passa de um para cinco filhos, terá que se planejar melhor e alterar o seu modelo de gestão para suportar esta nova realidade. Hoje é diferente. Não se gerencia mais TV como há 20 anos atrás.

Como conciliar visão artística com gerencial num mesmo profissional? Em outras palavras, como unir os pontos fortes do Boni e da Marluce?

Érico: Esta equação entre artístico e gestão vai sendo aprendida ao longo do tempo, avançando mais em um dos lados de acordo com o momento da vida. O Boni, por exemplo, era ultra intuitivo e criativo, veio do mercado publicitário, da Lintas, foi aprendendo visão sobre gestão, para ter condições de gerir uma empresa, e construiu/ catalizou, junto com outras pessoas, modelos de gestão que estão presentes até hoje na TV Globo. A Marluce, que gerenciava a empresa mais completamente, já que nem a área comercial e administrativa estava com o Boni, é psicóloga, se origina de Recursos Humanos e depois de ser consultora, entra na Globo, numa função similar a minha hoje. Ao longo do tempo, assume a Direção Geral e começa a dominar também o entendimento sobre a equação artística, aprovando projetos, grade, trazendo talentos para a programação. O seu gosto por artes plásticas, esculturas e sua sensibilidade de psicóloga fez com que se aproximasse do universo artístico sem grandes dificuldades.

Qual a especificidade de gerenciar o RH de uma emissora de TV?

Érico: É gerenciado com a mesma matemática de outras empresas, mas com contas diferentes. A matemática são os princípios de respeito, a forma de tratar todos os funcionários iguais, independente do nível hierárquico, estimulando o trabalho em equipe. Neste universo televisivo só se tem sucesso com trabalho em equipe. Não adianta ser um grande ator, se o câmera enquadra mal, a edição não é boa. Ser um grande jornalista, se não há sinergia entre a reportagem, as imagens captadas e a edição. Dentro da TV existem universos distintos entre os profissionais. Artistas são mais de 1500. Jornalistas são mais de 1000. Engenheiro de sistemas mais de 1000. Comerciais são mais de 500. Operários são quase 2000. Todos com visões bem diferentes.

Psicóloga Marluce Dias, ex-principal executiva da TV Globo e Hans Donner (talvez crie um novo visual grafico para este blog), na entrega da medalha do Guerrilheiro para o Érico. Por traz deste sorriso grandes idéias revolucionárias, capazes de sequestrar embaixadores

Psicóloga Marluce Dias, ex-principal executiva da TV Globo e Hans Donner (talvez crie um novo visual gráfico para este blog ou envie um estagiário do IMPA), na entrega da medalha de Guerrilheiro para o Érico. Cuidado! Por trás deste sorriso e destes braços de jogador de basquete há grandes idéias revolucionárias!

Qual a diferença entre as visões destes profissionais: artista, jornalista, engenheiro, comercial?

Érico: Faço a seguinte metáfora: 2 + 2 para um artista pode ser -100 ou +1000. O lado emocional costuma ser muito oscilante. Altos e baixos. Eles têm a capacidade de interpretar bandidos, mesmo sendo uma pessoa pura. Por exemplo, a Patrícia Pillar, fez a vilã da novela anterior, uma serial killer, e você achava que ela era assim, apesar de ser uma simpatia em pessoa. Para um jornalista, se você falar que 2 + 2 é igual a 4. Ele vai perguntar o porquê. Ele foi treinado para fazer perguntas, para buscar entender a verdade dos fatos. Para um engenheiro 2 + 2 é igual a 3,9 ou 4,1. Um engenheiro que disser que 2 + 2 é igual a -100 ou 1000, a TV sai do ar, o prédio cai. É mais esquemático, é mais preciso na comunicação. Para um comercial 2 + 2 é igual a 6. Para ele dar 33% de desconto e chegar em 4. É da natureza do comercial comprar mais barato e vender mais caro, seja  numa loja de departamento, ou numa agência de automóveis.

Qual o desafio das emissoras de TV, em termos de formação profissional?

Érico: Nosso negocio é Show, e é Business. O americano reduz muito bem para ShowBusiness. Toda vez que se vai para o lado do show, perde-se rentabilidade, se perde rentabilidade, não se tem condições de realizar o show. Se você enfatiza só rentabilidade, só resultados, ainda mais numa empresa de sonhos, que trabalha com o intangível, com a motivação e o imaginário de um cliente que ele mal vê, através de uma telinha, diferente do varejo que avalia in loco a satisfação do consumidor, você alcança resultados insatisfatórios, menos potencializados. O sucesso está em balancear esta equação entre o Show e o Business. Formar profissionais que integrem esta visão é um desafio.

É cada vez mais necessária uma formação generalista e multidisciplinar, ao invés de técnico-especializada?

Érico: Tem que ter um equilíbrio, não podemos ser absolutistas. A metáfora do Show Business cabe aqui também. Tem que ter capacidade de atender ambas as demandas. O problema é que não é isto OU isto, mas sim, isto E isto. As opções são mais cômodas dessa forma. A grande sabedoria do século XXI é sermos convergente: ser isto E aquilo.

É possível formarmos executivos de TV através das universidades?

Érico: A TV Globo é repleta de profissionais formados em universidades, mas de muito tempo de casa. A formação se dá aqui dentro. Na minha avaliação não terá mercado suficiente para as universidades se interessarem por produzir executivos de TV. Não tem demanda para uma formação especifica, o setor é oligopolizado. É preferível recrutar um jovem universitário e prepará-lo dentro da empresa. Normalmente, a sucessão vem de dentro. Tem que ter um tempo para conhecer a essência do negocio. É muito especifico, tem muito macete. Nós vivemos o segundo. O que afetar o vídeo atinge 90 milhões de pessoas. Por exemplo: A Ana Maria Braga passou mal e não pode apresentar o seu programa pela manhã. Fica um buraco no ar? Não pode. Se for uma IBM, adia o projeto. Aqui se vive o segundo, é uma cultura muito própria. Por isso que trazer um CEO da IBM ou NESTLE e colocar nesta indústria, dificilmente vai dar certo. Várias tentativas, aqui e no mundo, fracassaram. É claro que quem tiver a visão comercial, a visão artística e a visão do consumidor estará mais preparado para exercer essa função.

Como explicar que nos EUA desde a década de 60/70 temos formação especifica para dirigentes de cúpula de TV (Publisher:Comunicação+ Gestão) diferentemente do Brasil?

Érico: Nos Estados Unidos você tem mercado. Lá tem centenas de pequenas emissoras, milhares de produtoras independentes e um mercado gigante, pelo menos 11 vezes maior que o brasileiro. Lá tem mercado suficiente para absorver estes formandos. São milhares de projetos com uma enorme gama de profissionais independentes, terceirizados. Este formado é absorvido no mercado em atividades totalmente diferentes: vídeos, cinema, programas para tv aberta, fechada, vídeos institucionais, entre outros. Um profissional de programação trabalha para vários canais. O mercado publicitário brasileiro é de 15 bilhões de dólares, lá são mais de 150 bilhões. Formar pessoas para o entretenimento, tem que ser para uma cadeia de valor mais ampla. Enquanto ela não existir, não tem economia de escala que permita o surgimento destes profissionais no Brasil em grandes quantidades. Seria inviável economicamente.

Como você avalia esta minha formação experimental (cobaia pedagógica) em Administração de Empresas e Comunicação/ Jornalismo?

Érico: Entre o saber pensar como um jornalista, ou relações públicas, ou publicitário, de forma estanque, e ter uma visão equilibrada entre o conhecimento técnico da sua especialização com a visão de negócios é um grande avanço. Eu me formei engenheiro civil, que tem também seus graus de especialização, sem nenhum aprendizado em negócios.  Então se eu for jornalista, terei que saber como escrever bem um artigo, como apurar e responder as perguntas básicas do lead: o que, quando, como, onde, por que. Ao mesmo tempo, eu tenho que ter uma visão humanista, com sociologia, antropologia, filosofia, entre outras. Ter sólida formação cultural. Quanto mais um profissional ter essa visão do todo melhor. Esta visão integrada e de negócios é um diferencial.

Existem programas de trainees estruturados na TV Globo para formação de lideranças executivas?

Érico: Temos vários programas de trainees. Exemplo: na área artística, a pessoa se forma em direção e passa por um período como assistente de direção, aprendendo a ser diretor. Na área comercial tem um programa de trainee. Na área de jornalismo também.

Não é um programa de trainee institucionalizado como o nosso Programa Estagiar. Primeiro, porque não teríamos quantidade suficiente de vagas e, segundo, porque o aprendizado na TV, principalmente, da atividade fim é muito lento. Não se forma um autor para escrever uma novela das oito, antes de 15/ 20 anos. Um diretor antes de 15/ 20 anos. Na produção antes de 5/10 anos. Aprender sobre determinado produto, leva um tempo. Mas não igual a TV. A pessoa sai gerente de produto numa empresa de consumo e vai para uma no setor de serviços, e vice versa. Na TV é diferente. Por exemplo, na há 20 anos atrás, eu, Marluce e Tjerk Franken criamos a Pós Graduação em varejo específico para a Mesbla, que depois foi incorporada ao Coppead.. Foram formados mais de 300 executivos nesse curso. Executivos fantásticos para o varejo, que foram presidentes da Alpargatas, Sky, TVA, entre outros.  Na Televisão não é possível fazer isso, não tem mercado para comportar como no varejo. Vai para a concorrência.

Qual a sua visão sobre a obrigatoriedade do diploma em jornalismo?

Érico: Sou contra. A minha posição é: nós queremos o melhor talento, que certamente, terá passado pela universidade, mas só poder escrever em jornal, quem tenha passado pela universidade, é uma visão muito cartorial no Brasil. Eu posso ter talento para escrever para um nicho específico e o público achar o máximo. Nada me impediria, em termos técnicos, de escrever, expressar minha visão. É obvio que as empresas estruturadas não deixarão as universidades de lado. Mas buscam talentos bem preparados, e não o diploma em si. Isto também para outras áreas. No caso da Administração, o CRA, por que tem que ter um título de técnico em administração? O importante é estar preparado. No meu caso, sou engenheiro, tenho mestrado em Administração pela Puc Rio, pós graduação por Stanford em administração, e não posso exercer nenhuma função administrativa. A carteira do conselho é um aspecto secundário. Busca uma reserva de mercado disfuncional na dinâmica do mercado de trabalho.

Qual tem sido o papel dos cursos universitários na formação dos profissionais das emissoras de TV nas diversas áreas funcionais?

Área de Recursos Humanos e Administrativa:

Érico: Na área administrativa, de recursos humanos, são áreas que são obviamente demandadoras de recursos das universidades, porque as universidades ensinam o que é básico para qualquer indústria. Gente é semelhante para qualquer indústria e empresa. Os pressupostos utilizados de gestão de gente são os mesmos na IBM, Vale ou TV Globo. As questões financeiras e de tecnologia também. A matemática é a mesma, mas as contas são diferentes, ao lidar com gente. Normalmente um analista de sistemas é entrada na IBM. Um engenheiro, geólogo na Vale do Rio Doce e um artista na TV Globo. São negócios e culturas diferentes. A forma de recrutar, treinar, remunerar, motivar, desafiar, avaliar, serão distintas. Eu tenho para artistas um plano de carreira, uma estrutura de salários, compatível com a IBM e a Vale, porém, não igual, pois eu tenho sistemática e processos diferentes. Aqui, por exemplo: um ator participa da Malhação, faz uma ponta na novela das oito, é um sucesso, e já vai estrear na próxima novela. Isto em outros setores dificilmente ocorre.

Engenharia:

Érico: Neste caso engenheiros tem que vir da universidade, até pela certificação profissional. Este profissional se mantém sempre junto da universidade, instituições de pesquisa, pois pelo avanço tecnológico, tem que estar atualizando-se constantemente.

Jornalismo:

Érico: No caso do jornalista tem o Programa Estagiar, espalhado por todas as universidades. Recebemos 11 mil candidatos para 100 vagas. É 1%. Eu recruto matéria prima de qualidade da universidade, talentos, e treino para a televisão. Os universitários atuam como estagiários e não como mão de obra barata. Tem tutor, tem formação. Pedro Bial e Wiliian Álvares são alguns dos exemplos do Programa Estagiar.

Produção:

Érico: É quem faz a infraestrutura e coordena todos os recursos, colocando-os a disposição para o artista aplicar em seu trabalho. A área de produção tem sido composta, principalmente, por universitários da área de engenharia de produção. O diretor de produção é uma das funções mais importantes em artes cênicas. Nas indústrias é comparável com a logística e produção, que busca saber se os fluxos de produção são os mais econômicos para alcançar o resultado. Ele tem o orçamento na mão e o artista tem um sonho. Deste conflito sairá o produto que vai ao ar. O artista, diretor, autor, gostaria de fazer uma novela gastando 1 bilhão de reais por minuto, porém, só tem 100 mil. A produção faz essa intermediação. Nasceram lá no passado com os práticos, com poucos modelos de gestão, aprendendo no dia-dia, no improviso. Existia na TV e no rádio o contra regra, que foi até um personagem do Chico Anísio. Este nome porque ele fazia tudo contra as regras. Hoje, é altamente sofisticado, por computador. É totalmente a favor da regra, apesar do nome. Por exemplo: O Show do Roberto Carlos no Maracanã para 70 mil pessoas. Foram meses de planejamento para saber sobre a entrada do público, segurança, logística. Isto tudo é responsabilidade do profissional de produção.

Diretor de Programa:

Érico: Ele tem um duplo papel. É o responsável e o gerente do produto. É o intermediário entre o que o autor escreve, o que o elenco vai interpretar e o que a produção vai colocar à sua disposição. De todos os profissionais da área de entretenimento, ele é quem mais intermedeia o hemisfério artístico e o de produção. Quem formou esses diretores ou foi a sua experiência no cinema, ou na publicidade, ou principalmente dentro da TV Globo, onde temos a Oficina de Atores, a Oficina de Direção e a Oficina de Autores, que preparam os talentos descobertos no mercado para esta indústria da televisão. Não adianta atrair um talento do teatro, se você não treiná-lo porque a marcação é diferente. Teatro é a arte do corpo. A televisão é a arte do rosto, do gesto.  As universidades deixam uma lacuna na formação profissional deste perfil. A aposta da TV Globo foi montar escolas, universidades próprias.

Programação:

Érico: Ele interpreta o desejo do consumidor, do telespectador, e produz diretrizes para a área de criação de entretenimento e para a área de criação de jornalismo e esportes desenvolver produtos que ele gostaria de ver na grade. Ele faz isso através de pesquisa de audiência e de sua própria sensibilidade.  A TV possui dois clientes: o cliente que nos compra é o mercado publicitário: anunciantes e agências. Mas quem consome o nosso produto é o telespectador. Os anunciantes e agências só compram nosso produto porque atingimos o seu consumidor. Caso isso não ocorra, comprarão com outro. O mercado publicitário é tão importante quanto o telespectador e os projetos do criador. O mix destes três gera uma programação. Este profissional não é formado em escolas porque são muitas variáveis. Este tipo de pessoa não se forma numa única escola com a visão do todo. Hoje, no Brasil, com o advento da televisão fechada, aumentaram o número de programadores.

Roberto Terziani, Diretor de RI da OI: ” A função de Relações com Investidores é polivalente”

Em Entrevistas, agosto 10, 2009 às 4:55 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

 

 

Roberto Terziani, Diretor de RI da OI. Política de transparência absoluta adotada desde 1999 pela Telemar, quando assumiu a área de RI, contribuiu para construir uma imagem positiva junto do mercado

Roberto Terziani, Diretor de RI da OI. Política de transparência absoluta adotada desde 1999 pela Telemar, quando assumiu a área de RI, contribuiu para construir uma imagem positiva junto do mercado

Roberto Terziani atua há mais de 40 anos no mercado de capitais. Começou a trabalhar em 1970 na corretora Caravello (não existe mais) como Gerente do Departamento de Análise, de 1970 a 1976, foi para a Companhia Internacional de Seguros (não existe mais), também no setor de análise, de 1976 a 1980, foi Diretor Financeiro da seguradora Generali do Brasil, de 1980 a 1985, e superintendente de investimento do Grupo ARBI por quase 10 anos. Foi também Diretor de Investimentos do Banco Boreal; Diretor superintendente da Arca Capitalização, do Jornal O Dia. Trabalhou como consultor na empresa montada junto com o Alvaro Bandeira e outro sócio até assumir a área de RI da Telemar em 1999, hoje OI. Na ABAMEC (atual APIMEC), Terziani foi conselheiro, Diretor Presidente Rio em 1979, 1985 e 1986; Vice-Presidente Nacional e eleito analista do ano em 1976. É formado em Estatística pela UFRJ, com Pós Graduação em Economia pela FGV Rio. Com a palavra, Roberto Terziani.

 

A EVOLUÇÃO DA ATIVIDADE DE RI NO BRASIL

Década de 70: Escuridão Corporativa

 A década de 70 é a fase da “Escuridão Corporativa”. A Informação era “ativo de natureza sigilosa, a divulgação era feita por balanços anuais e muito sintéticos, as empresas abertas eram familiares, estatais ou estrangeiras; e as indústrias monopolizadas ou oligopolizadas. A informação privilegiada era prática absolutamente usual. Tivemos a criação da ABAMEC em 1970, a Nova Lei das SA’s e a criação da CVM em 1976. O Mercado de Ações era baseado em incentivos fiscais e artificialismos institucionais como correção monetária limitada e o Decreto Lei nº 157 (permitia os contribuintes utilizarem parte do imposto devido quando da Declaração do Imposto de Renda, em aquisição de quotas de fundos administrados por instituições financeiras de livre escolha do aplicador).

Década de 80. Abertura Lenta

Nos anos 80 temos uma lenta abertura. Os analistas mais atuantes, exigem transparência, porém, com baixa resposta. Os Fundos de Pensão expandem-se de forma descontrolada, gerando problemas éticos graves. Com o Plano Cruzado (1986), temos um Recorde de IPO’s, ficando explicito o despreparo das empresas. A Petrobrás realiza a sua primeira reunião com analistas em 1986. O Diretor Financeiro é o “fornecedor das informações oficiais”. Com o início das privatizações, se tem os controles compartilhados, gerando maior profissionalismo. A correção monetária integral dos balanços gera maior transparência. A CVM, na década de 80, decidiu que todas as empresas abertas deveriam ter 1 Diretor de Relação com o Mercado que, posteriormente, mudou o nome para Diretor Geral de Relações com Investidores. Esse Diretor tinha a função de ser o elo de ligação da CVM com as empresas abertas. Antes dessa exigência da CVM, algumas empresas já praticavam relações com o mercado, porém sem grandes formalidades. Promoviam reuniões com Investidores, principalmente, com Analistas, através da ABAMEC, surgida no início da década de 70, onde apresentavam seus resultados.

Anos 90. Libertação das Amarras

 Nos Anos 90 temos a fase da “Libertação das Amarras”. A Privatizações de Setores e Grandes Empresas, o início da Profissionalização da Gestão das Empresas, a abertura do Mercado a Investidores Estrangeiros, o início da Governança Corporativa, o registro dos Programas de ADR`s brasileiros na NYSE, a atuação mais ativa das entidades de classe como: ABAMEC, IBGC, AMEC, ABRAPP, entre outras,geram maior transparência. Os analistas buy e sell side exigem fluxo contínuo de informações mais detalhadas e consistentes. Temos maior profissionalismo. O Jose Marcos Treiger foi o precursor, o primeiro Diretor de RI, com o lançamento de ADR’s na bolsa de Nova York pela Aracruz Celulose no início da década de 90. As empresas começaram a entender que precisavam de um profissional dedicado a esta área, que passou a ser cada vez mais estratégica. Um dos fatores que contribuiu enormemente para o surgimento dessa atividade de RI foi o Programa de Privatização, que foi implementado a partir da década de 80, início da década de 90, e Investidores Internacionais passaram a fazer parte das empresas e exigir cada vez mais informações.

Anos 2000 …..Novo século, novos tempos, novos desafios, novo mercado

O crescimento da área de RI

Temos a atualização da Lei das SA’s, com a volta do tag along, a diferenciação de dividendos para ações preferenciais, entre outras mudanças relevantes; a expansão dos Investidores Globais para mercados emergentes; a CVM melhor estruturada, mais preparada, atuante e punitiva; os analistas aumentam a cobertura e investidores ampliam  as áreas geográficas; as novas tecnologias possibilitam análises mais apuradas, gerando cada vez mais demandas dos agentes de mercado; os investidores mais exigentes e ativos, requerem representantes em Conselhos; praticamente todas as empresas abertas criam área de Relações com Investidores.

Cada empresa, evidentemente, implementou essa área de RI de maneira diferenciada, não tem um padrão. Tem empresas que essa área tem as mais diversas atividades: tem empresa que tem comunicação, às vezes atividades legais, Jurídico, outras vezes de Controle, de Controladoria, outras vezes de Tesouraria.

As melhores práticas de RI da Telemar foram incorporadas pela OI

As melhores práticas de RI da Telemar foram incorporadas pela OI

O caso  Telemar/ OI

Eu estou aqui na Telemar desde o início de 1999, quando a empresa tinha acabado de ser privatizada e já tinha um Departamento de RI com duas ou três pessoas na ocasião, e um contingente de Acionistas. Tinha uma base de acionistas internacionais enorme, que vinham se reunir 2-3 vezes por semana para  entender qual seria o futuro da empresa, os planos, enfim, como ia ser administrada. A Telemar Norte – Leste, num grupo de 12 empresas de Telecomunicações  tinha sido uma das únicas adquirida na privatização por brasileiros. Desde o primeiro momento, percebi que existia pouco conhecimento dos Investidores sobre a operação do Setor de Telecomunicações no Brasil.

As políticas adotadas na Telemar

Adotei as seguintes políticas: 1- todas as pessoas que solicitavam reunião, eram atendidas da mesma forma, independente de serem acionistas. Tinha uma função de catequese: mostrar ou ensinar para essas pessoas o que era a companhia, o que ela fazia e para onde ela ia. 2- Independente se a informação era positiva ou negativa para a companhia, ela era fornecida aos investidores. Isto contribuiu para criar uma relação de confiança com os agentes de mercado. 3- Participar ativamente em todas as conferencias que os bancos e as corretoras promoviam junto aos seus clientes e Investidores.

Isso foi importante porque a gente estabeleceu um relacionamento muito franco, ético e honesto. Apesar da tentativa de muitos amigos terem vindo aqui na tentativa de buscar informações privilegiadas, elas eram iguais, acabavam desistindo. Todos eram tratados da mesma maneira. Hoje a OI é muito bem conhecida e avaliada pelo mercado, analistas e investidores por essa política adotada de transparência absoluta.

A Falência da ENRON e o Disclosure na Telemar (OI)

As Vozes de Wall Street

Em 2002, quando houve, nos EUA, o escândalo da ENRON, a SEC americana estabeleceu uma política de DISCLOSURE, uma transparência  justa junto ao mercado. Na TELEMAR, adotamos imediatamente esta política. Toda a informação nova que a companhia dá a qualquer agente de mercado, analista, investidor, imprensa, é incluída no web-site, passando a ser pública.  Qualquer solicitação da parte de investidores, analistas ou profissionais do mercado, fornecemos no máximo em 48H. Nós passamos a fazer a máxima, a média e a mínima das projeções dos analistas que acompanham e divulgam nos relatórios, e disponibilizá-las no website. Isso ajuda: 1-o Investidor a entender o que o mercado está projetando para a empresa; 2- os próprios profissionais perceberem o que o mercado está projetando vis-a-vis. Se o Analista está projetando um número muito fora dessa faixa máxima e mínima alguma coisa deve estar errada. Recentemente, isso ocorreu. Um analista fez uma projeção da empresa, para o ano de 2008, que era muito positiva, além do que o mercado estava projetando, pois havia esquecido de considerar a entrada da empresa no mercado de São Paulo. Ao entrar no mercado de SP, em telefonia móvel, evidentemente, no 1º momento, a empresa teve prejuízo com a operação, fez investimentos, tem despesas, a receita costuma ser menor, ele não estava considerando isso. Alertamos para que fosse corrigido.

Preparamos um Relatório Mensal,  que é distribuído para toda a alta Gerência da Empresa e para o Conselho de Administração, que chamamos de “Vozes de Wall Street”, com tudo que foi divulgado, e solicitado sobre a empresa, avaliando a percepção do mercado.

A Atividade do Profissional de  Relações com Investidores

A atividade do profissional de Relações com Investidores é polivalente, têm várias  funções importantes. Tem que conhecer um pouco de Economia, de Finanças, de Leis, de Comunicação, de Operações Financeiras, de Macroeconomia, Política, Operações da própria empresa. Os Analistas de Investimentos, quando vem fazer reuniões, não querem saber apenas o resultado da empresa naquele ano, quer saber, por exemplo, a nossa opinião sobre a evolução macroeconômica do país, qual a nossa percepção em relação ao desenvolvimento do País, com relação à evolução do setor onde nós atuamos, ao ambiente competitivo onde nós estamos, com relação as inovações tecnológicas. Querem saber sobre uma decisão do Governo ou do Congresso, ou da CVM, ou da Agência Reguladora e o seu impacto nos negócios. Então, é polivalente. E quanto mais profundamente conhecer, melhor. Não pode ser apenas um Analista das Demonstrações Financeiras da empresa ou de seus Registros Contábeis. Tem que conhecer muito mais do que isso, tem que estar permanentemente atualizado com o que é dito, com o que é escrito, com o que é publicado a respeito da empresa, a respeito do setor em que a empresa atua. Em função da internacionalização do mercado de capitais brasileiro, esse profissional, evidentemente, tem que ter a língua inglesa e, cada vez mais,  será necessária outras línguas como Espanhol, Francês, Chinês.

Objetivos de um Diretor de Relações com Investidores

Conseguir que a empresa seja avaliada “justamente” pelos agentes de mercado. Construir credibilidade e reputação da Companhia,  que é um ativo intangível valiosíssimo. Desenvolver instrumentos para fidelizar investidores. Desenvolver instrumentos para reduzir a volatilidade e aumentar a liquidez das ações. Incentivar a cobertura adequada dos analistas. Criar mecanismos para obter feedback dos agentes de mercado.

Comunicação Corporativa e Ética

Comunicação Corporativa e Ética é: atender prontamente todas as solicitações  de informações, até o limite do que é estratégico e do que já foi divulgado pela Companhia; originados por qualquer agente de mercado, independentemente do seu porte econômico, de sua origem, característica ou perfil. Falar sempre a verdade, com franqueza e sinceridade, não escondendo a realidade dos fatos negativos e não sobre valorizar os fatos positivos. Gerenciar e coibir o uso de informação a amigos ou parentes ou terceiros. Ser ético, e exigir que o interlocutor seja ético. Praticar a transparência justa (fair disclosure). Permitir o acesso simultâneo à informação da empresa. Conhecer o Investidor, conhecer o analista, conhecer o interlocutor.

“Tia” Leyla Nascimento, presidente da ABRH Rio: “No mundo do trabalho é necessário pensar global e agir local”

Em Entrevistas, agosto 10, 2009 às 2:34 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

Leyla Nascimento, Presidente da ABRH Rio: "Formação universitária híbrida é uma necessidade para as empresas"

Leyla Nascimento, Presidente da ABRH Rio: "Formação universitária multidisciplinar é uma necessidade para as empresas"

Atual Presidente Executiva da ABRH Rio (Associação Brasileira de Recursos Humanos) e do Instituto Capacitare (junto com o Joaquim Lauria do Grupo Let RH), Leyla Maria Félix do Nascimento, atua há mais de vinte anos em trabalhos e programas voltados para o desenvolvimento de Recursos Humanos, tendo sido durante 23 anos a principal executiva do CIEE Rio (Centro de Integração Empresa-Escola).

Formada em pedagogia pela UERJ, Pós graduada em Educação e Desenvolvimento de Recursos Humanos pela UFRJ e Mestre em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) com a dissertação: Transformações no Mercado de Trabalho Exigidas aos Estagiários e Recém-Formados em Empresas com Características da Sociedade Pós-Industrial é marcante a sua experiência como professora em seu perfil.

Leyla, nesta entrevista exclusiva, ao abordar o papel do profissional de recursos humanos nas organizações, o compara ao educador nas universidades e o define como um “agente de transformação”, e considera que as habilidades comportamentais são as mais difíceis de desenvolver, pois depende da formação básica: familiar e oferecida nas escolas desde o primário.

Com conhecimento de fronteira sobre Integração Universidade – Empresa, típica dos doutores, e com a simpatia e a didática das professoras primárias, típica das “tias”, transmitida em sua fala, se comparássemos as relações nas organizações com a conhecida Novela Mexicana Carrossel, transmitida pelo SBT na década de 1990, cujos personagens como: Cirilo Rivera, um menino pobre e negro; Maria Joaquina, menina rica bonita e egoísta que desprezava os seus colegas; Laura Gignoni, uma gordinha comilona e romântica, Jaime Palillo, um gordinho de coração enorme que sempre dizia: “Mas que droga de cabeça”, Firmino, um velho porteiro amigo dos alunos; dentre outros, tinham as suas emoções “gerenciadas” pela jovem professora Helena. Tutora paciente, amiga e querida por todos os alunos. Leyla Nascimento poderia ser considerada, por muitos, como a professora Helena dentre os profissionais de Recursos Humanos. Com a palavra, “tia” Leyla.

“Toda turma,  zero em comportamento”

Por que esta falta de integração universidade-empresa?

Leyla: A integração entre universidade e empresa, entre educação e trabalho é um problema mundial, não é um problema somente do Brasil. A educação é muito departamentalizada, as informações são dadas partilhadas, e não de forma sistêmica. Edgar Morin fala: dividimos tudo por disciplinas. No mundo do trabalho é necessário ter visão sistêmica. Pensar global e agir local. Os cenários organizacionais mudam com muito mais  rapidez do que o cenário educacional, criando um “gap”. As universidades, muitas vezes, ao rechaçarem qualquer orientação por parte das empresas, se fecharam em seu ”mundinho”, formando profissionais para mercados inexistentes, para carreiras que já estão “anos-luz” em transformação.

Como melhorar esta integração pelas universidades?

Leyla: Com uma maior interação do mundo acadêmico com os problemas da sociedade. Muitos professores universitários, principalmente, das instituições públicas, estão fora do ambiente empresarial, não entendendo as suas reais demandas e necessidades. Isto é muito ruim, porque ficam com uma visão muito acadêmica e teorizada, repassando isso para os alunos. Por exemplo: na Alemanha, a discussão entre universidade-empresa é tão bem sintonizada, tão interativa, que os professores das universidades vão para dentro das empresas e os profissionais de mercado participam de reuniões nas universidades para explicitar as suas demandas. O Projeto de Desenvolvimento de vários países é discutido de forma interativa, sintonizando melhor os perfis dos profissionais a serem formados, às verdadeiras demandas da sociedade. Temos uma riqueza de material acadêmico inexplorado pela sociedade, como monografias, teses de mestrado e doutorado. Estão aí muitas das soluções dos problemas de nosso país. É um beneficio a serviço da sociedade não aproveitado.

Há um discurso ainda muito romanceado por parte das universidades?

Leyla: Muito romanceado e distante da realidade do mercado de trabalho. As Universidades não falam sobre Liderança, sobre resultados, network, relações de grupo. Isso é “pecado” dentro das universidades, mas são pontos altamente estratégicos nas empresas. Quando o universitário entra em contato com esta realidade, muitas vezes, é surpreendido. Há por parte das Universidades uma necessidade de rever esses conceitos. Cada um de nós, dentro do seu papel, é uma mão-de-obra que tem que gerar resultados. Isso é indiscutível. Fui a um seminário em que uma reitora declarou que Marketing não existia, era uma criação, que o grande problema da universidade era acreditar nisso. Um absurdo.

Como as empresas buscam melhorar essa integração?

Leyla: As empresas buscaram saídas sozinhas, criando escolas próprias. Muitas universidades corporativas foram criadas sem nenhuma participação de universidade ou Centro de Ensino. As melhores empresas para trabalhar, por exemplo, têm na área de Treinamento e Desenvolvimento, excelentes parcerias com universidades de ponta, porque elas entendem quanto é importante ter essa integração. Quando buscam soluções sozinhas, não se chega a lugar nenhum.

O ensino profissionalizante também faz falta?

Leyla: Existem profissões intermediárias entre o ensino superior e técnico que fazem falta no mercado brasileiro. No Community College and Technical Institute, no estado da Carolina do Norte, chamam de politécnico. É um curso intermediário entre a graduação de 4 anos, mas classificado como ensino superior. Por exemplo: curso de assistente do dentista, que oferece todo o suporte técnico, é um politécnico, classificado como ensino superior. O sistema de ensino brasileiro custou a entender que precisava trabalhar o aspecto profissionalizante, o aspecto técnico, não atendendo muitas das demandas das empresas.  Por exemplo, hoje, uma demanda como a da VALE S/A tem no Brasil, por mais que se queira trabalhar o profissional dos cursos existentes, não irá conseguir. Necessitam do engenheiro de mineração, mas também do técnico em mineração.  A Vale, assim como outras, buscam parcerias com instituições de ensino locais para suprir a carência por esses profissionais.

No Carrossel de Recursos Humanos, Leyla tem a simpatia,o carisma e a competência da professora Helena

No Carrossel de Recursos Humanos, o carisma, a simpatia e a competência da professora Helena, são do perfil da líder Leyla Nascimento

Qual a importância da universidade na formação profissional?

Leyla: A educação formal dada pelas universidades, ela é vital, ela é preponderante para o êxito profissional. Repercute no aspecto comportamental, na formação do líder e na liderança das equipes. A maior dificuldade hoje do líder é ficar muito particularizado, não ler cenários, não pensar no global.

Qual a grande dificuldade dos profissionais hoje?

Leyla: Existem líderes e profissionais fantásticos que são demitidos pelo aspecto comportamental, porque não sabem trabalhar em equipe, não sabem compartilhar.  Essa dimensão de não saber fazer, e fazer com que o outro complemente, é que é o grande X da questão nas organizações. Quando os lideres entendem que o sucesso deles depende de um grupo, que o chancelou e ratificou, crescendo junto, fantástico. Agora, quando o líder tem sucesso por ele mesmo, vai acabar em pouco tempo. Muito se fala em gestão do conhecimento, mas poucos possuem habilidade para fazer. Muitas pesquisas demonstram hoje que muitos profissionais são admitidos pela competência técnica e demitidos pelas competências comportamentais.

Como desenvolver estas habilidades comportamentais?

Leyla: Essas habilidades comportamentais vêm da educação familiar, da educação formal na escola, desde o Jardim de Infância, em que o jovem vai incorporando determinados valores, e “construindo” a sua formação, que refletem diretamente em seu comportamento e suas atitudes. Por mais que a empresa faça treinamento de integração, de relações interpessoais, de trabalho em equipe, não tem jeito, o comportamento vem de sua história de vida. Passar as habilidades técnicas é mais fácil.

Qual o papel do profissional de Recursos Humanos nessa integração?

Leyla: O profissional de Recursos Humanos tem um papel fundamental, é um agente de transformação, de educação dentro da empresa, é o canal de comunicação com a Universidade. É tão importante quanto o educador dentro da Escola. Na educação tem uma parte que é básica, quase imexível, mais filosófica, e tem uma parte que é profissionalizante, trabalhado na experiência profissional.

Qual a sua avaliação sobre o fim do mestrado Stricto sensu e maior aproximação com a graduação?

Leyla: Eu sou contra. Eu sou favorável que cada um tenha o seu espaço e o seu papel. A Pós-Graduação exige dois fatores importantes: a formação e a experiência profissional. Muitas pessoas, sem ter experiência profissional, terminam a graduação, e ingressam na Pós Graduação. Estão fazendo Mestrado e Doutorado, muitas vezes, como mais um diploma. Isso pode ser prejudicial para a sua carreira profissional. Há uma total falta de sintonia entre a teoria e a prática.

O trabalho temporário é importante como critério de seleção?

Leyla: Eu acho muito importante. Nas empresas muitos trabalhadores temporários são efetivados pelo que apresentaram. Por exemplo: a fábrica da Volkswagen de ônibus e caminhões, em Resende, é constituídas por módulos de empresas terceirizadas. É um case mundial de sucesso. A relação de trabalho, hoje, não é tão importante.

Formação universitária multidisciplinar é cada vez mais necessária?

Leyla: Sim. Hoje as empresas estão ficando enxutas e os profissionais estão ganhando uma amplitude maior, tendo que ser multifuncionais. O organograma das organizações, hoje, é feito a lápis porque a toda hora o cenário muda, e as caixinhas mudam. Eu tenho vagas no mercado, mas não tenho funcionários qualificados para preenchê-las. Por exemplo, eu fiz Pedagogia e nunca imaginei estar com tantas atribuições e ter que entender de Comunicação, de Marketing, de Contabilidade entre outras funções.

Programas de trainee contribuem para essa formação?

Leyla: Contribuem, mas hoje, há uma tendência do Programa Trainee terminar, e serem substituídos por programas de estágio, cada vez mais estratégico nas organizações. Como os organogramas tornam-se mais enxutos e horizontais, acabam não gerando a perspectiva do cargo gerencial para o trainee após o programa.

Os Conselhos de classe são um entrave nesta visão universitária multidisciplinar?

Leyla: Os Conselhos ainda estão no aspecto legal da profissão, não na formação e nos próximos cenários dessas carreiras e dessas profissões. Apesar de ter melhorado bastante, ainda ficam restritos a buscar uma reserva de mercado.

Qual a sua visão sobre a visão de MBA/ gestão em todos os cursos de graduação?

Leyla: É  importante ter essas diferentes visões dentro de um Curso de MBA. Mas não pode ser visto como um produto que se basta por si mesmo. É de fácil obsolescência. Tem que ser atualizado de acordo com as carreiras e profissões.

Como avalia esta formação híbrida que tive em Administração de Empresas e Comunicação?

Leyla: Este tipo de formação é uma necessidade para as empresas, não vejo nenhuma dificuldade para ser aceita. Cada vez mais as empresas precisam de profissionais híbridos. Comunicação, hoje, é uma das áreas mais estratégicas de uma organização. Se unir comunicação com o entendimento da estratégia das organizações através da gestão,  têm-se um salto qualitativo muito grande, porque supera uma visão mais especifica e restrita que se tem da atividade, relacionada a jornal, revista, comunicação institucional, entre outros,  influenciando  mais no dia-dia, no operacional das empresas.

A Trajetória do APÓSTOLO SÃO Ronaldo Nogueira e as suas EPÍSTOLAS no Reino de Relações com Investidores

Em Entrevistas, agosto 6, 2009 às 12:08 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

O Apóstolo Ronaldo Nogueira, diretor da IMF, lendo a sua principal Epístola: a Revista RI

O Apóstolo dos RI's, Ronaldo Nogueira, diretor da editora IMF, lendo a sua principal Epístola, a Revista RI. "As empresas brasileiras precisam ser educadas em RI, a visão de Relações com Investidores é importante para qualquer profissional"

Os apóstolos cristãos foram homens judeus que teriam sido “enviados” por Jesus para pregar o Evangelho em todo o mundo, sendo responsáveis pela influência e a importância histórica que a religião assumiu. Paulo de Tarso, mais conhecido como São Paulo, é considerado, por muitos, como o principal discípulo e difusor das idéias de Jesus. As suas Epístolas formam uma secção fundamental do Novo Testamento.

Preferências religiosas a parte, se fossemos fazer uma metáfora com a difusão da atividade de Relações com Investidores no Brasil, poderíamos considerar Ronaldo Nogueira, o São Paulo, a revista de RI a sua Epístola e os livros de Willian Mahoney Manual do RI – Princípios e Melhores Práticas de Relações com Investidores e Relações com Investidores- O Guia dos Profissionais para Marketing Financeiro e Comunicação a bíblia? Vejamos a sua trajetória e tiremos nossas conclusões.

Como tudo começou

Formado em Economia pela UFRJ- Universidade Federal do Rio de Janeiro, quando o curso ainda funcionava na Marques de Olinda em Botafogo, antes de ser transferido para  a Urca, no Campus da Praia Vermelha, Nogueira foi aluno de grandes referências do pensamento econômico brasileiro como:Eugenio Gudin, Roberto Campos e Octavio Gouvêa de Bulhões.  Além de ter sido colega dos também alunos, hoje professores titulares, Carlos Lessa, ex-reitor da UFRJ e Presidente do BNDES e Maria da Conceição Tavares. Teve uma formação privilegiada.

São Paulo, o Apóstolo dos Gentios escrevendo as suas Epístolas. "“Fiz questão de anunciar o evangelho onde o nome de Cristo ainda não havia sido anunciado” (Romanos 15,20).

São Paulo, o Apóstolo dos Gentios, escrevendo as suas Epístolas. "“Fiz questão de anunciar o evangelho onde o nome de Cristo ainda não havia sido anunciado” (Romanos 15,20).

Desde estudante, Ronaldo demonstrava interesse pela área financeira e de mercado de capitais, prospectando trabalho sempre nesse setor.  A sua primeira experiência profissional foi como corretor da bolsa, que na época, funcionava como regime feudal. Para atuar tinha que ter o símbolo de preposto. Negociou com um corretor que não tinha sucessores, participação nos negócios, conseguindo a sua nomeação como corretor preposto. A forma como funcionava a bolsa, incomodava-o: “Era uma bagunça, tinha sujeito que no pregão declarava: Vendo apartamento”, relembra Nogueira.

Titio Bulhões

Mudanças eram necessárias.  Inconformado, junto com um amigo, ligou para o Ministro da Fazenda Octavio Gouvêa de Bulhões, que chamava de “tio”, pois era parente da família de sua mulher, explicando a situação, que, sensível ao assunto, convidou-o para jantar. Após o encontro, Bulhões pediu para que Ronaldo escrevesse um relatório com todas as propostas e idéias que haviam discutido. O seu espírito de Relações com Investidores começava a aparecer.

Durante 15 dias ficou estudando e preparando o relatório para entregar ao Ministro, que só deu a devida importância após uma “alfinetada” da tia (a tia do Bulhões era avó da mulher do Ronaldo), que morava no mesmo prédio do Bulhões, na Avenida Atlântica, próximo ao Posto 6 (que vista maravilhosa!) e tinha muito contato com o Nogueira, pois adorava os seus bisnetos, dentre eles, o conhecido Diretor Editorial da Revista RI, Ronnie Nogueira (Gu-gu-da-da! Que neném bonitinho!)  e ia sempre vê-los.

Numa das visitas, ao perguntar sobre o retorno obtido com o relatório entregue, Ronaldo respondeu: “Até agora, não tive nenhum retorno, mas só se ele tiver muito peito e coragem é que irá fazer o que eu sugeri”, desafiou. Ao receber este recado, na mesma hora, o Ministro leu o documento, que tinha engavetado, e determinou que fosse criado um grupo de trabalho para realizar um estudo. O rascunho deste relatório, escrito em mãos, em folhas de caderno, é guardado até hoje por Ronaldo Nogueira, na biblioteca de seu escritório (É um documento histórico. Companheiros, contribuam na pressão para que o tornemos público!).

Gugu-Dadá: Ronnie Nogueira, Diretor Editorial da Revista RI, um neném fofo, contribuiu para a Lei de Mercado de Capitais Lei 4.728

Gugu-Dadá: Ronnie Nogueira, Diretor Editorial da Revista RI, um neném fofo, contribuiu para a primeira Lei de Mercado de Capitais, Lei 4.728

Participaram do grupo de trabalho, além do próprio Ronaldo Nogueira, Ney Souza Ribeiro Carvalho (Bolsa de Valores do Rio), Ernesto Barbosa Tomanik (Bolsa de Valores de São Paulo), Denio Chagas Nogueira (SUMOC), Ary Waddington (preposto do corretor Henrique Guedes de Mello), Pedro Leitão da Cunha (diretor de companhia de investimentos), José Cavalcanti Neves (Procuradoria Geral da Fazenda Nacional), Sérgio Augusto Ribeiro (Caixa de Amortização) e Norman Poser (representante da NYSE). O trabalho realizado foi a base para a criação da Lei nº 4.728, a Lei do Mercado de Capitais, de 14 de julho de 1965, que disciplinava o mercado de capitais e estabelecia medidas para o seu desenvolvimento.

De vilão a herói da bolsa

O estudo foi visto muito positivamente pelos demais ministros, que resolveram publicá-lo no jornal, como numa novela, parte a parte do estudo. No último capítulo, saía publicado o nome dos participantes. A proposta era de colocar “ordem na casa” e acabar com toda a “mordomia” da bolsa de valores. Ronaldo lembra que quando chegou no dia seguinte ao seu escritório na bolsa, tinha sobre a sua mesa, uma carta como se ele estivesse pedindo demissão (como preposto não podia ser demitido) para ser assinada. Esta carta chegou ao conhecimento do Ministro, que repreendeu imediatamente o Presidente da Bolsa (Ney Carvalho) dizendo que não admitia pressão ao seu grupo de trabalho.

Apesar disso, Ronaldo passou a ser considerado Persona Non Grata na bolsa e, sem nunca ter assinado a carta de demissão, afastou-se por um breve período, no qual trabalhou na Casa de Amortização, e foi para a Universidade de Nova York fazer um curso sobre Mercado de Capitais de um ano, patrocinado pela USAID e financiado, em parte, pelo BNDES, onde teve oportunidade de vivenciar uma estrutura mais séria e profissional de mercado, além de ter sido aluno de Edward Demming, criador do conceito de qualidade total.

A Biblia do Reino de RI

A primeira BÍBLIA do Reino de RI

Fizeram também este curso o Júlio César Belisário Vianna e Ricardo Marques, que, assim como Nogueira, participaram posteriormente da fundação da ABAMEC (Ronaldo Nogueira é o membro de número 4). Quando voltou ao Brasil, o estudo já tinha se transformado em lei. De vilão da bolsa, passou a ser visto como herói. Continuou atuando como corretor, trabalhando, dentre outras, na corretora Ney Carvalho e na Marcelo Leite Barbosa, considerada a Merril Lynch brasileira.

O Globetrotter

Na Bolsa de Valores do Rio, era responsável pela organização de eventos. Promoveu diversos seminários pioneiros na época, sobre: Bolsa de Mercadorias e Futuros, Fundos de Investimento, Bancos de Investimento, Offshore, entre outros. Estes seminários geravam uma ampla visibilidade e rede de relacionamento em nível de presidência com todo o mundo. Nesta sua atividade de Globetrotter pelo mundo dos investimentos, além de ter sido representante de um banco inglês, conheceu o responsável em lançar o Fundo Korea, que ao lançar similar no Brasil, convidou-o para ser diretor do Brazil Fund, que contou também com a participação ativa do Daniel Dantas,  profissional que, polêmicas a parte, Ronaldo considera um “craque”.

Manual do RI: Princípios e Melhores Práticas de Relações com Investidores - A Bíblia do Reino de RI

Manual do RI: Princípios e Melhores Práticas de Relações com Investidores - O NOVO TESTAMENTO do Reino de RI

Ao participar de um seminário internacional no Centro de Estudos Estratégicos em Washington, sobre as barreiras que impediam os investimentos no Brasil, foram abordados os pontos comuns, como: societários, contábeis, jurídicos, financeiros, da credibilidade das instituições. A conclusão foi de que mesmo com todos esses pontos equacionados, não ocorreria investimento estrangeiro, pois faltavam informações sobre as empresas e o mercado brasileiro. Como solução, o diretor da seguradora Prudential forneceu um exemplar de uma Company Hand Book, e sugeriu publicação similar no Brasil. Daí é criada a editora IMF e produzido o primeiro Brazil Company Handbook.

Na varanda de Petrópolis com o Mahoney

Em 1994 a IMF promoveu o primeiro seminário de Relações com Investidores no Brasil, convidando empresas estrangeiras listadas na Bolsa de Nova York com características semelhantes as brasileiras, com controle familiar e capital pouco pulverizado para participarem; além de conferencistas diversos, e profissionais de Relações com Investidores para esclarecer melhor sobre a importância desta atividade. Nesta ocasião, ao organizar todo o material coletado ao fim do seminário, de maneira casual, tomou conhecimento de um livro trazido pelo presidente do NIRI (National Investor Relations Institute) sobre Relações com Investidores. Era o livro do Willian Mahoney, Investor Relations: The Professional’s Guide to Financial Marketing and Communications. O pensamento de Mahoney “caiu como uma luva” no que se discutia no Brasil. Ronaldo entrou em contato para adquirir os direitos autorais do livro junto da editora, que havia sido vendida, e publicá-lo.

Guia IMF- Uma das Epístolas

Guia IMF- Uma das Epístolas

O IBRI

Neste momento já começava a nascer a idéia de criar o IBRI (Instituto Brasileiro de Relações com Investidores), na época ABRI (Associação). Ronaldo conta que a “semente” da idéia nasceu junto com o seu filho Ronnie Nogueira em seu próprio escritório, que selecionaram e enviaram uma carta para umas 30 empresas brasileiras explicando a proposta. O retorno foi imediato. A White Martins e, principalmente, o Banco do Brasil deram total apoio a idéia, tendo sofrido uma pequena resistência por parte da ABRASCA, que tinha a proposta de criar um departamento próprio de RI.  Ronaldo relembra como foi: “Após eu e o Ronnie termos enviado a carta, o diretor financeiro do Banco do Brasil Gilberto Caetano ligou dando total apoio a iniciativa, e marcou uma reunião. Patrocinaram o lançamento do livro do Mahoney, houve um acordo com a ABRASCA e criou-se o IBRI ”.

Quando o IBRI foi criado, em 1997, foi feito um seminário na ABAMEC sobre Relações com Investidores com a participação do Willian Mahoney. Nogueira convidou-o para passar o final de semana em Petrópolis, onde, na varanda, discutiram a criação da Revista RI, que, inicialmente, seria uma Newsletter, similar a publicada pelo NIRI. Em março de 1998 saiu o primeiro número da Revista RI, uma parceria do IBRI com a IMF Editora, tendo Mahoney como editor internacional. São mais de 11 anos de publicação ininterruptas.

Curso de RI na FGV

Atualmente está desenvolvendo junto com a FGV do Rio, um curso totalmente voltado para RI, em mais uma iniciativa em propagar a importância da atividade para os profissionais e o mercado e superar a falta de base e de conhecimento na área. Nogueira considera que muitos dos profissionais ganharam “bagagem” somente com a experiência, devendo também se aprimorar teoricamente.

Para ele, as empresas brasileiras precisam ser educadas para a área de RI, que não é vista como uma atividade estratégica, criadora de valor, restringindo-se, muitas vezes, a serviços operacionais como: preparação de relatórios, prestação de contas a CVM, criação de sites, reuniões com analistas entre outras. Atividades necessárias, porém não suficientes para um bom trabalho de RI, cuja principal função é, ou, pelo menos deveria ser, a de criar valor para a empresa. Prova disso é que em período de crise um dos primeiros profissionais a ser cortado é da área de RI.

Revista RI: Idealizada na varanda em Petrópolis, é a sua principal Epístola

Revista RI: Idealizada na varanda em Petrópolis, é a principal Epístola

Ronaldo considera que esta visão de RI é importante para profissionais que atuem em qualquer área. “Se um vendedor, ou, até mesmo um porteiro ,aplicarem esta visão de RI em sua atividade, irão se destacar dos demais. É um diferencial” afirma, lembrando que a educação é fundamental para desenvolver o mercado e que o medo do desconhecido é que afasta os investidores, por isso impulsionou a criação do INI – Instituto Nacional de Investidores, em parceria com a NAIC (National Association of Investors Corporation), cujo fundador Thomas Ohara, foi um grande influenciador.

É impressionante a trajetória de Ronaldo Nogueira como propagador das melhores práticas profissionais no mercado de capitais brasileiro. Participação ativa na Lei nº 4.728 – a Lei do Mercado de Capitais, na fundação da ABAMEC, do IBRI, do INI. Sua importância é histórica. Diante de tudo isso, no Reino de Relações com Investidores do Brasil, Ronaldo Nogueira pode ser considerado o principal Apóstolo, o São Paulo, que com a sua bíblia (livros do Mahoney) e as suas Epístolas (Revista RI, seminários, cursos e publicações IMF), catequiza o mercado e difunde a atividade de RI. Então, saudemos: AVE NOGUEIRA!

Augusto Lyra e a História do Clube ASA de Investimento. O Mais Antigo do Brasil

Em Entrevistas, agosto 4, 2009 às 8:00 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

Filósofo da Bolsa. Lyra com a sua bíblia profissional: Como Investir em Ações. Nem os próprios autores possuem mais

O Filósofo da Bolsa Augusto Lyra em seu home office com a sua bíblia profissional: Como Investir em Ações. Uma Raridade. Nem os próprios autores possuem mais.

Desde 18 de Abril de 1968

O CLUBE ASA DE INVESTIMENTO fundado em 18 de Abril de 1968 é o clube de investimento mais antigo do Brasil ainda em funcionamento. Seu criador e gestor, Augusto de Almeida Lyra, é referência no mercado de capitais brasileiro. Para bom entendedor, meia palavra basta. Quem é do mercado, dificilmente, ainda não ouviu falar no “Lyra”.

O Clube ASA surgiu na Corretora Almeida e Silva Associados (ASA), que já desapareceu há muitos anos, com a união de indivíduos já dedicados ao mercado, em busca de maior seriedade nos negócios e permuta de informações mais ordenadas.

Augusto Lyra, que fez o estatuto e a primeira ata, apesar de não ser advogado, pressentia que o Clube seria um bom negócio e começou a chamar, junto com outros, amigos e parentes para aderirem à empreitada. As reuniões eram realizadas, inicialmente, no Hotel Luxor em Copacabana (atual Tulip Inn), cujo diretor Walter Soares Ribas, também foi um dos fundadores do clube.

No decorrer do tempo os participantes foram se renovando. Ou os cotistas  naturalmente deixavam de participar ,  na definição de Lyra: “Como brasileiro não vai nem em reunião de condomínio do mesmo edifício, a participação diminuía, mas o clube continuava” , ou, saíam porque esperavam uma atividade mais especulativa do clube, contrária a sua filosofia de investimento para longo prazo, baseada em muita leitura e na análise dos fundamentos da empresa.

“Não tem uma receita do sucesso. Quando compramos uma ação, examinamos os fundamentos da empresa, a qualidade das pessoas que a administram, o ponto-de-vista macroeconômico, porque sem macroeconomia não há chance. Há muito clube de investimento que só funciona na base do grafismo, da escola técnica, costuma ser mais fácil. Este não é o nosso caso” caracteriza.

Os números por si só já mostram o sucesso do Clube. Hoje, o ASA possui 139 cotistas (150 é o limite), representando aproximadamente 79 milhões em investimento. O cotista médio do clube é de R$ 565.000,00 (Quinhentos e sessenta e cinco mil reais). Ao completar 40 anos, os resultados aos cotistas foram assim apresentados: em termos reais (descontada a inflação), o ASA multiplicou por 80,858 vezes o patrimônio investido. Trazendo a valor presente, quem aplicasse no ASA, em 18 de abril de 1968, o valor de 1 apartamento de R$ 1.000.000,00, (um milhão)teria hoje, 80,858 apartamentos de R$ 1.000.000,00, ou seja R$ 80.858.000,00 (oitenta milhões e oitoscentos e cinquenta e oito mil reais).

Para ele, a melhor ocasião para se investir é quando se tem dinheiro sobrando. A quantia inicial investida tem que ser um valor que represente uma importância significativa para o cotista, para que tenha interesse em acompanhar. Muitas vezes, recebe investidores curiosos para saber mais sobre o mercado de ações. Lyra conta caso em que, por indicação, foi consultado por um Chefe do Departamento Econômico de um banco, que, após algumas conversas, retirou parte do investimento de sua instituição e investiu no clube e, assim que saiu, transferiu toda a sua renda. Não é a toa que muitos o denominam como o Filósofo da Bolsa.

Nascido em 1927, em Araxá, Minas Gerais, Lyra iniciou o curso de engenharia civil na Escola de Minas em Ouro Preto e concluiu seus estudos na Escola de Engenharia da Universidade do Brasil (UFRJ) no Largo de São Francisco. Para ele, o curso de engenharia foi extraordinário, a base de cálculo era tão forte que os formados saíam quase matemáticos, isto, até hoje lhe facilita na administração das ações. Com facilidade para o cálculo, antes de terminar a faculdade, começavam a surgir os primeiros trabalhos particulares como calculista free lancer. “Como eu já tinha o meu filho Heitor, qualquer trabalho para uma renda extra era bem vindo. Aperto é ruim, mas obriga a gente a se desdobrar” relembra.

Lyra trabalhou durante mais de 20 anos no escritório técnico do DASP – Departamento Administrativo do Serviço Público, fazendo cálculo estrutural, e participou da construção da Cidade Universitária da Ilha do Fundão, além de ter sido por 26 anos presidente do conselho fiscal da Petrobras e por 33 anos  consecutivos seu membro. Em 1968, logo após a fundação do ASA, deixou de realizar seus cálculos estruturais, passando a se concentrar somente no mercado de ações. O retorno era melhor.

Sucessão em boas mãos. Tal pai, tal filho. Heitor Lyra propaga o sucesso dos "Lyra". Presença marcante em reuniões com investidores

Sucessão em boas mãos. O filho Heitor propaga o sucesso dos "Lyra". Presença marcante em reuniões com investidores

Início Curioso

O seu contato com o mercado de capitais foi curioso. Conta que no escritório da Cidade Universitária, viu sobre a mesa de um colega de trabalho uma revista de economia, um dos primeiros números da Conjuntura Econômica da Fundação Getúlio Vargas, ainda mimeografada e com grampos. Ao folheá-la, deparou-se ao final com várias estatísticas que mostravam a rentabilidade das ações. Interessou-se e buscou entender melhor o funcionamento deste mercado. Foi até a bolsa de valores. Lá conheceu alguns corretores que lhe deram algumas dicas, e passou também a fazer visitas freqüentes ao seu Departamento Técnico, que funcionava no subsolo, e era composto por muitos estudantes de economia. Bonificação, assembléia, estatuto, dividendo, Jornal do Comércio, corretoras passavam a fazer parte do seu vocabulário.

As primeiras ações adquiridas por sugestão de seu corretor foram da Belga e da Brahma. Os resultados não foram tão satisfatórios, quando comparado com o rendimento de outros papéis.  Ao perceber isso, transferiu toda a sua renda para ações da Vale do Rio Doce, que apresentava grande crescimento na época. Aprendia aí as suas primeiras lições sobre investimento: empresas que sobem muito podem estar com a sua possibilidade de alta esgotada, e corretores, muitas vezes, não possuem o dom de adivinhar, como se pensava na época.

Sem fazer nenhum curso específico em ações, Lyra, principalmente nos seus primeiros 5 anos de bolsa, diz que aprendeu tudo “dando cabeçada” no dia-dia, com muito esforço e leitura. Quando três americanos trouxeram para o Brasil, por volta de 1965, o livro manual: “Como Investir em Ações”, leu inteiro, de “ponta a ponta”.  Foi a sua “bíblia” profissional. Até hoje o possui em sua biblioteca. Nem os próprios autores possuem mais. Numa recente visita ao Brasil, um deles lhe pediu para retirar uma cópia.

Pioneirismo de Luis Fernando Lopes Filho

Augusto Lyra considera o trabalho realizado por Luis Fernando Lopes Filho na corretora Ney Carvalho pioneiro no Brasil, contribuindo muito para a profissionalização do mercado. Até hoje os relatórios da Consultoria Lopes Filho são imprescindíveis para o seu “ritual” de investimento, cuja análise nos finais de semana, transformou-se praticamente num hobby. “Aos sábados pela manhã, retiro na portaria do escritório da Consultoria Lopes Filho os relatórios, leio e analiso. Na manhã de segunda-feira, já estou pronto para iniciar com as ordens de compra e venda na bolsa” diz ele, que passa praticamente o dia inteiro lendo relatórios, jornais e analisando ações, com uma pequena parada de descanso após o almoço. Mais que merecida. Aliás, são 82 anos de vida, e 46 anos de dedicação ao mercado de capitais.

O seu corretor de confiança, de longa data, é o Nogueira, que atua na Geração Futuro. Lyra considera muito eficaz o sistema de marketing utilizado pela corretora, voltado para administrar clubes de investimento no varejo, com cota inicial de R$ 100,00, razão que considera um dos principais pontos do seu sucesso. Nuno Cruz da Diretoria Comercial da Geração Futuro explica a filosofia: “O nosso maior e melhor marketing é o boca a boca, feito por nossos próprios clientes, que satisfeitos, vão nos indicando. Tivemos um crescimento exponencial de nossos clubes de investimento, que gerou a necessidade da abertura do fundo Geração Programado FIA. Nossa base de clientes saltou  de 1200 para quase 70 mil clientes, desde o ano 2000. “

Tal Pai, Tal Filho, Tal Neta

Augusto Lyra pode sentir-se um privilegiado quando o assunto é sucessão. Também não há quem não conheça nas apresentações da APIMEC e nas rodas de investidores o seu filho Heitor. Suas perguntas e opiniões são sempre pertinentes e muito elogiadas.  Heitor Lyra, engenheiro de produção pela UFRJ, desde a década de 80 participa da gestão do clube ASA, e impulsionou a abertura de outros clubes: o THOR, o ODIN e o BRAGI. Pai e filho fazem uma dupla “pensante” de inegável sucesso na administração de carteiras de investimento, feita num home office, no aconchego do lar, no Largo do Machado, próximo ao Parque Guinle.

É evidente a felicidade de Augusto com a continuidade de sua obra. Está em ótimas mãos. Atualmente, a sua neta, a economista Laura, começa a se juntar ao clube. O sucesso passará a ser em trio. Se depender de sucessão, por muito tempo ainda ouviremos falar nos “Lyra” e no Clube ASA de Investimento.  A saga continua com a nova geração.

Luis Erlanger, Diretor de Comunicação da TV Globo, ex ECO UFRJ: “A universidade é uma usina de idéias e profissionais. Um laboratório em ebulição”

Em Entrevistas, agosto 3, 2009 às 2:37 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

Luis Horta Barbosa Erlanger, ex aluno de jornalismo da Escola de Comunicação da UFRJ, atual diretor da Central Globo de Comunicação, responsável pelas áreas de Relações Externas, Projetos Sociais, Propaganda, Vídeographics e pelo Centro de Documentação, em entrevista exclusiva ao universitário Marcelo Martins Guimarães para o seu projeto de pesquisa: Integração Universidade-Empresa: A Importância da Formação Universitária Multidisciplinar (O Caso do Publisher), relembra o seu tempo de estudante universitário em que se tinha dificuldade de criar “um jornalzinho clandestino” (era época da ditadura militar) e define qual deveria ser o verdadeiro papel da universidade. “Uma usina de idéias e profissionais. Um laboratório em ebulição”.

Erlanger, que ingressou como estagiário no Jornal O Globo em meados da década de 70 e foi muito influenciado por Evandro Carlos de Andrade, diretor de jornalismo do Jornal O Globo e da TV Globo por longa data, é um entusiasta do estudo e da pesquisa, “se pudesse só estudaria” afirma ele.

Vivenciou toda a proposta de revolução cultural junto das universidades em sua época de estudante, e acredita que uma formação multidisciplinar é cada vez mais necessária, e será crescentemente reconhecida pelas empresas como um diferencial.

Conheça um pouco mais as opiniões deste eterno universitário, o “especialista em generalidades”, Luis Erlanger.

Luis Erlanger Diretor de Comunicação da TV Globo: "As empresas darão prioridade a profissionais com esta formação híbrida em Administração de Empresas e Comunicação"

Luis Erlanger Diretor de Comunicação da TV Globo: "As empresas darão prioridade a profissionais com esta formação híbrida em Administração de Empresas e Comunicação. É um diferencial."

O Plano Diretor da UFRJ 2020 propõe a concentração de todos os cursos no Campus do Fundão. Qual a sua visão sobre isso?

Erlanger: A idéia do campus é extremamente sedutora. Proporciona um estado de espírito diferente de faculdades isoladas. Do ponto de vista operacional, acredito que dificilmente vão querer sair da Zona Sul para ir para o Fundão. Eu estudei na Praia Vermelha e, se fosse hoje, preferiria a Urca. Caso tenha um campus tão apetitoso, com infra-estrutura, recursos, com atrativos que justifiquem a transferência, acho válido. Até hoje, quando entro no campus e vejo a garotada com livros de baixo do braço, eu fico imaginando que ali você vai ter teatro, cinema, debates. Para mim é extremamente estimulante entrar num ambiente onde tem outras pessoas buscando conhecimento. É fundamental na formação do cidadão e do profissional. Se eu pudesse, só estudaria.

Como você avalia a integração entre universidade e empresa?

Erlanger: Num tempo mais recente você via um sentimento universitário antagônico com relação ao mercado de trabalho, um certo romantismo ideológico, que pouco tem haver com justiça social e capitalismo, como normalmente se diz e pode, muitas vezes, ser prejudicial à carreira do estudante. Criou-se até um slogan horrível, que eu sou contra, que diz assim: Quem é bom está trabalhando, quem é ruim está dando aula. Muitas empresas optaram em complementar a formação internamente de forma independente. Tem que haver uma maior conversa e aproximação entre os dois mundos, porque a mão-de-obra virá da faculdade e os egressos da faculdade têm que ir para o mercado de trabalho. A universidade tem estado muito fechada em si mesma. Tem até uma piada que o pessoal do Casseta & Planeta faz sobre a missão do Globo Universidade em aproximar a empresa do mundo acadêmico. Eles dizem: “ou é mundo ou é acadêmico”. Todo preconceito é uma maneira de você expressar alguma coisa que está passando. É importante a universidade reconhecer que também tem como papel, preparar para o mercado de trabalho. Muitas desprezam isso. A atividade profissional é importantíssima como complementação acadêmica.

O que poderia ser feito para melhorar?

Erlanger: Poderiam ser feitos mais convênios diretamente com as universidades. Por exemplo, na área científica e de meio ambiente há escassez de formação nas editorias de jornais. Essa demanda poderia ser levada diretamente para a universidade. Teríamos profissionais mais qualificados para ingressar no mercado de trabalho, com conhecimento e formação mais específica no tema. As universidades também poderiam trazer temas que oxigenassem também as empresas. Esse intercâmbio é importante.

Você acredita que uma formação generalista e multidisciplinar é cada vez mais necessária?

Erlanger: Hoje esta visão multidisciplinar está muito presente. Quem for estudar música, muitas vezes, tem que ter noção de informática, e quem estudar informática, tem que ter noção de música. Isto, em outras atividades. O conhecimento geral é fundamental. Não faria isso como uma base da formação toda, ou seja, um especialista em generalidades. Apenas os dois ou três primeiros anos, uma visão mais genérica até para dar chance ao estudante vislumbrar outras oportunidades e selecionar sua área mais criteriosamente. Similar ao modelo das universidades americanas, genérico no inicio, e mais especialista para o final.

Esta formação generalista não seria papel da formação básica?

Erlanger: A valorização do ensino fundamental e médio deveria ser maior. Há uma supervalorização do ensino superior no Brasil. O mercado de trabalho brasileiro não tem capacidade para absorver tantos doutores. A demanda por enfermeiros, pode ser maior que a de médicos. Deveria ser mais bem equilibrada essa equação entre o ensino fundamental, médio e superior. A formação básica é fundamental no conhecimento geral.

Qual foi a sua formação básica?

Erlanger: Eu tive um ensino fundamental muito bom, eu já cheguei na universidade alfabetizado. Estudei minha vida toda em escola pública, na Associação dos Servidores do Brasil, uma escola voltada para a elite do funcionalismo público, que funcionava no terreno da casa de shows Canecão, ao lado do campus da Praia Vermelha da UFRJ. Fiz o ensino médio no Andrews e entrei direto para o vestibular, sem fazer cursinho. O vestibular era unificado pelo CESGRANRIO. Minha nota permitia eu ingressar em medicina, engenharia, direito. Quando falei para a família que seria o curso de jornalismo, o desgosto foi grande.

Qual o principal papel da universidade?

Erlanger: A universidade tem que ser uma usina de idéias e de profissionais. Tem que ser uma fomentadora de idéias, de conhecimento, com o propósito de influenciar a sociedade e o ambiente onde ela está inserida. Estar na vanguarda, ser propositiva, posicionar-se como protagonista nas diversas situações históricas da sociedade: seja numa discussão sobre a gripe suína, seja nas eleições presidenciais. Imagino uma universidade como um laboratório em ebulição de idéias, informação, atividade cultural.

Como era em sua época de estudante universitário da ECO UFRJ?

Erlanger: Eu entrei numa faculdade de jornalismo que não tinha jornal, rádio, televisão e convênio com empresas. Na época, a parte técnica da faculdade deixava a desejar. É inacreditável ter uma faculdade de jornalismo, de comunicação, e não ter uma televisão pra você assistir a um filme, não ter uma máquina de escrever. Voltei agora de uma faculdade do interior dos Estados Unidos, que tem um mini-projac, tem redação, então é possível entender como funciona. Isto é importante para o estudante. Tinha um preconceito enorme entre o aluno de propaganda e o de jornalismo na época. O estudante de publicidade era vendido ao capitalismo e os jornalistas queriam mudar o mundo. Na ECO UFRJ, tinham professores instigantes, muito influenciados por ideologias diversas, era época da ditadura no Brasil.  Lembro muito do professor Carlos Henrique Escobar, era uma lenda, fui seu monitor. Tinha que dar aula de epistemologia da comunicação, mas estava em crise, e resolveu estudar a obra de Freud com a turma.

Que influência a universidade teve na sua formação?

Erlanger: Foi fundamental muito mais na formação da atitude, da personalidade do que em dar os apetrechos necessários, técnicos. O ambiente em si foi muito propício pra eu virar o profissional que eu sou, e me transformar num profissional inquieto. Foi na ECO UFRJ que eu descobri que a minha vocação era ser jornalista: um especialista em generalidades.Os alunos mais rebeldes da época se transformaram nos melhores executivos hoje.

Como você avalia a inclusão de disciplinas de gestão no currículo dos cursos de comunicação?

Erlanger: Eu fui a primeira geração em que o jornalista que chegou a cargo executivo, passou a ser efetivamente executivo. Quando virei editor, geria o meu próprio orçamento. Inicialmente, o pensamento era: “eu estou tomando conta de atividades que não me interessa”. Descobri rapidamente que quanto melhor administrasse essas ferramentas de gestão, melhor seria o resultado.  Então essa prática do funcionamento da gestão não é nenhum demérito, muito pelo contrário, é indispensável para um bom profissional. Para mim deveria ser obrigatória no currículo. Uma faculdade que forneça uma formação que aborde as questões humanas, técnicas e gerenciais seria um diferencial. Empreendedorismo também é importante no sentido de buscar um nicho de atuação, entender um business plan, capacitar o formando a identificar demandas das empresas e prestar um serviço de qualidade. Diferentemente do dentista que tem que comprar cadeira, material, broca, entre outros equipamentos, o principal ativo do comunicador é ele próprio. Tem que ser um bom profissional.

Qual a sua visão sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalismo?

Erlanger: O discurso que eu faço é o seguinte “sensacional ter caído o diploma, as faculdades de jornalismo vão ter que melhorar”. Por que eu vou entrar numa faculdade de jornalismo se não precisa mais do diploma? Ou elas vão melhorar, ou irão acabar. Optarão pela melhoria. A lógica é permitir que um profissional não jornalista, também possa exercer o jornalismo. A maior parte dos recrutados para as redações continuarão possuindo o diploma.

Como você avalia esta formação hibrida que fiz em Administração de Empresas e Comunicação/ Jornalismo?

Erlanger: As empresas vão dar prioridade a um profissional com essa formação híbrida. Eu fecharia um convênio com uma faculdade disposta a formar profissionais com este perfil na mesma hora. Mesmo que depois esses formandos tivessem que passar por um processo seletivo diferente.  Você tem formação humanística, escreve bem, entende sobre gestão e não tem um emprego? Acho difícil. Qualquer contratante diz que está insatisfeito, com raríssimas exceções, com o aluno que está disponível no mercado. Se você tiver uma oferta de um profissional de qualidade, assim que o mercado perceber, ele absorverá. Há uma crise enorme no mercado de comunicação. Quando eu comecei a trabalhar, você tinha com vigor Jornal do Brasil, O Dia, O Globo. Hoje você tem uma predominância de poucos veículos. A demanda está reduzida. Esta formação é um diferencial.

Como você avalia este programa de capacitação gerencial do profissional de RTV e de Jornalismo?

Erlanger: Eu acho perfeito como especialização. Nos primeiros anos da universidade enfatizaria uma formação mais geral. Eu separaria o universo artístico, da informação. Nada impede que um jornalista vire um autor de novela, ou que um autor resolva virar jornalista, já tivemos alguns casos aqui na TV Globo, mas essa barreira é grande. São lógicas, formas de pensar e culturas distintas.

Seria mais fácil um artístico ser levado a ter uma visão de gestão ou uma pessoa de gestão ser levada a ter uma visão mais artística?

Erlanger: O artista, normalmente, não tem uma formação acadêmica, ele é um criador que busca as ferramentas de como ele pode expressar a sua criação. O que é preferível? Contratar uma pessoa criativa e ensinar a técnica, ou contratar um excelente técnico e ensiná-lo a ser criativo? Ninguém ensina ninguém a ser criativo. Eu prefiro ter o diamante bruto e lapidá-lo.

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