UNIVERSIDADE POPULAR ABERTA DO III MILÊNIO

Arnaldo Niskier: “Hoje, temos condições de ter o dobro de universitários no Brasil, 14 milhões”

In Entrevistas on Agosto 23, 2009 at 11:48 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

Arnaldo Niskier: "A tecno-estrutura: tríplice aliança entre governo, empresa e universidade é indispensável à expansão econômica e social"

Arnaldo Niskier, atual presidente do CIEE Rio: "A tecno-estrutura: tríplice aliança entre governo, empresa e universidade é indispensável à expansão econômica e social"

PERFIL BIOGRÁFICO

Arnaldo Niskier, presidente do CIEE Rio,  jornalista, professor, educador, administrador, ensaísta e orador, nasceu em Pilares, Rio de Janeiro, RJ, em 30 de abril de 1935. Foi aluno do Instituto de Educação, freqüentou a 1a série do primário na Escola 19 Canadá, hoje Escola Pareto. Ali teve suas primeiras grandes lições em escola pública.

Em  São Paulo,  fez o 1o e o 2o ano no Grupo Escolar Rodrigues Alves. Depois, voltou para o Rio de Janeiro, residindo na Tijuca. Cursou o ginásio no Colégio Vera Cruz, sempre se distinguindo como o primeiro da classe. Também se destacou no futebol. Praticou esportes no América Futebol Clube e no Clube Municipal, onde foi campeão carioca de basquetebol (2a divisão). Até hoje, é torcedor do América.

Ao entrar no científico, aos 16 anos, começou a fazer crônicas esportivas para o jornal Última Hora. No dia 15 de outubro de 1955 entrou na Manchete Esportiva. Por esse tempo, aproximou-se de Adolpho Bloch, levado pela necessidade de obter uma fiança para aluguel de apartamento. Começou aí o grande respeito e amizade que teve por ele durante 37 anos, trabalhando na Manchete. Em janeiro de 1960 foi convidado para a chefia de reportagem, onde permaneceu durante 18 anos, sendo, também, diretor do departamento de jornalismo.

Prestou o serviço militar na Marinha de Guerra, após fazer prova no Centro de Instrução de Oficiais da Reserva da Marinha (CIORM), onde passou em 6o lugar. Fez curso de dois anos na Intendência da Marinha. Durante o curso, fez viagens pelo Brasil a bordo do Tamandaré e do Bauru. Formou-se em guarda-marinha, chegando a segundo-tenente. Aos 21 anos era oficial da Reserva da Marinha de Guerra.

Fez vestibular para Engenharia, mas não teve êxito. Inscreveu-se depois para Matemática, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Começou a atuar na política universitária, sendo eleito secretário-geral e depois presidente do Diretório Acadêmico Lafayette Cortes. Licenciou-se em Matemática (1958) e Pedagogia (1962), também pela UERJ, onde começara a lecionar (1958). Tornou-se Doutor em Educação em decorrência de aprovação no concurso para Livre Docente na cadeira de Administração Escolar e Educação Comparada (1964). Catedrático por concurso na UERJ (1968), tornou-se professor titular de História e Filosofia da Educação. É professor credenciado pelo Conselho Federal de Educação em Teoria Geral da Administração e Orçamento Empresarial.

Como diretor das Empresas Bloch (Manchete), esteve à frente do departamento de Educação, onde produziu mais de 100 livros didáticos e realizou diversos projetos de incentivo à pesquisa e ao hábito de leitura. Criou a Maratona Escolar de Literatura, destinada a alunos de 2o grau em todo o Brasil, que entre 1976 a 1987 levou estudantes do ensino médio a se debruçar sobre as biografias de grandes escritores brasileiros já falecidos.

Foi secretário de Estado de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (o primeiro da América Latina), de 1968 a 1971. Além de outras iniciativas na área da pesquisa científica, foi o criador do Planetário do Rio de Janeiro (1970) e membro do Grupo de Trabalho que estudou a viabilidade de implantação da Universidade Aberta no Brasil (1973).

De 1979 a 1983, foi secretário de Estado de Educação e Cultura do Rio de Janeiro. Exerceu também os cargos de Presidente da Fundação de Artes do Rio de Janeiro – FUNARJ; Presidente do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro; Presidente do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro e vice-chanceler da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Por seis anos (1986-1992), foi membro do Conselho Federal de Educação, onde atuou como seu representante no Grupo de Trabalho constituído pela Portaria Ministerial no 511, de 27.9.1988, com a finalidade de elaborar a Política de Educação à Distância; presidiu a Câmara de Ensino Superior durante três anos (1989-92) e coordenou o Seminário Nacional de Qualidade do Ensino, realizado em Brasília (1991). Nesse período, foi relator de 538 processos e apresentou 23 indicações, com temas essenciais, como a informática na educação, atendimento a superdotados e educação à distância. Em 1996, por decreto do presidente Fernando Henrique Cardoso, Arnaldo Niskier foi nomeado para o Conselho Nacional de Educação.

Estas atividades permitem-lhe enriquecer sua experiência de escritor. Sua obra na área da educação, até 1996, chega aos cinqüenta títulos. Os pronunciamentos feitos em nome da Secretaria de Educação e Cultura, suas propostas, como a da mudança da Lei 5.692/71, com relação ao ensino profissionalizante, bem como inúmeras realizações, dentre as quais a inauguração de 88 escolas, estão registrados nas obras O homem é a meta (1980), Educação é a solução (1981), Educação para o trabalho (1982) e Educação e cultura na imprensa (1983).

Em 1989, publica a obra fundamental Educação brasileira: 500 anos de história (1500-2000). Destacam-se também as seguintes obras: S.O.S. educação – Sugestões para a virada do século (1991), com propostas variadas para a solução da problemática educacional, muitas delas apresentadas no Conselho Federal de Educação com indicações e pareceres de sua autoria; Filosofia da educação: uma visão crítica (1992), onde registra os debates inspirados por aulas ministradas na Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e traça um roteiro dos elementos indispensáveis do que enseja modernamente a filosofia da educação; e LDB – A nova lei da educação (1996), onde faz a mais atualizada análise dos temas de sua especialidade e apresenta os resultados e propostas de Grupos de Trabalho que estudaram a situação do ensino no Brasil e nortearam a elaboração da nova LDB.

O interesse pelos temas da educação nacional e sua relação com a realidade brasileira são também o fundamento no seu trabalho de muitos anos no jornalismo profissional, área de comunicação que se amplia com sua presença na televisão, como no programa “Debate em Manchete”, na rede Manchete (foram 358 entrevistas, de 1985-1992), no programa “Frente a Frente”, na Rede Vida de Televisão, e nos comentários diários no “Plantão CBN”, do Sistema Globo de Rádio. O seu livro O diário da educação (1995) reúne 300 dessas pequenas crônicas sobre o cotidiano da pedagogia brasileira. Ao educador, professor, administrador e jornalista acrescenta-se ainda o conferencista inspirado, o debatedor atuante de assuntos variados, sempre relacionados com a melhoria da educação e da realidade brasileira em todos os sentidos.

Obras: Problemática da educação brasileira (prêmio Gustavo Capanema) (1964); Formas dinâmicas da universidade (tese) (1964): Formas dinâmicas da administração (tese) (1966); Cinco dias de junho (co-autor) (1967); Por uma política de ciência e tecnologia (1968); Brasil, ano 2000 (educação) (1968); Ciência e tecnologia para o desenvolvimento (1970); Estudos de problemas brasileiros (ciência e tecnologia) (1970); Rio, ano 2000 (co-autor) (1970); Administração escolar (1972); O impacto da tecnologia (prêmio Alfredo Jurzikowski, da Academia Brasileira de Letras) (1972); A nova escola (1972); Educação comparada moderna (1973); Nosso Brasil: estudos de problemas brasileiros (1973); O uso de tecnologias educacionais para a formação e aperfeiçoamento do magistério (monografia) (1976); A nova escola-II (1978); Educação, para quê? (prêmio Francisco Alves) (1980); O homem é a meta (1980); Vovó viu a uva (1981); Educação é a solução (O homem é a meta-II) (1981); Educação para o trabalho (O homem é a meta-III) (1982); Educação e cultura na imprensa (1983); Educação e cultura: da teoria à prática (1983); Educação: reflexão e crítica (1983); A nova educação: entre o coração e a máquina (1985); Administração da escola: uma gerência inovadora (1985); João Francisco Lisboa – O Timon Maranhense (1986); A nova escola-III (1986); Orígenes Lessa, o contador de histórias (posse no Pen Clube do Brasil) (1987); Educação para o futuro (1987); A hora do superdotado: uma proposta do Conselho Federal de Educação (co-autor) (1987); A informática na educação (co-autor) (1988); Ensino à distância: uma opção (co-autor) (1988); Por uma política nacional de educação aberta e à distância (co-autor) (1988); Amor à vida (1989); Educação brasileira: 500 anos de história (1500-2000) (1989); A escola acabou? (1989); S.O.S. educação: sugestões para a virada do século (1991); Filosofia da educação: uma visão crítica (1992); Educação em primeiro lugar (1992); Brasil de todas as idéias (1993); Tecnologia educacional (1993); Sabedoria judaica (1994); O professor universitário – Herói ou vilão (1994); Diário da educação (1995); Tragédia do ensino e outras crônicas (1995); Educação no Brasil (co-autor) (1995); LDB – A nova lei da educação (1996); Educação de trânsito (1996); Qualidade do ensino – A grande meta (1996); LDB, nova lei da educação (1997).

Educação, Estágio e Trabalho, obra lançada com o apoio do CIEE, contém ensaios sobre a relação empresa-escola

Educação, Estágio e Trabalho, obra lançada com o apoio do CIEE, contém ensaios sobre a relação empresa-escola

Como você avalia a integração entre universidade-empresa?

A.Niskier: Nos países industrializados isso é uma realidade constante. Existe um termo definido pelo escritor canadense McLuhan, chamado tecno-estrutura, que é a tríplice aliança entre governo, empresa e universidade. Em seus livros, ele defende que quando esse enlace é feito de forma inteligente e positiva, os resultados são altamente satisfatórios, gerando um ciclo: o governo estimula a integração, a empresa, com este estímulo, recorre às universidades, e estas, preparam os recursos humanos indispensáveis a qualquer processo de expansão econômica e social. Essa relação é extremamente necessária para a realidade brasileira.

Quais os principais desafios dessa integração no Brasil?

A.Niskier: Um pouco mais de compreensão em relação aos elementos vinculados a este tripé. O governo não se preocupa muito com isto, a empresa tem certa desconfiança em relação ao governo, principalmente, por causa dos impostos. Vale ressaltar que a carga tributária brasileira é uma das mais elevadas do mundo, chegando a alcançar 35%. Um índice absurdo. A universidade, muitas vezes, fica fechada nela mesma, como se fosse uma torre de marfim, não se abrindo para a sociedade com a eficácia que seria indispensável. Há necessidade de um movimento que una esses três elementos. Isto seria altamente proveitoso para o Brasil. Falta uma maior organicidade no ensino superior brasileiro para que ele esteja mais integrado às reais necessidades da cultura e do povo brasileiro.

O que deveria ser feito para melhorar a integração deste tripé: Governo, Empresa e Universidade?

A.Niskier: A ordem dada por John Kenneth Galbraith é governo, empresa e universidade. Os elementos têm importância nesta ordem. O primeiro movimento deveria ser do governo, mas este está meio enrascado quanto à reforma universitária, que tem mexido em alguns pontos polêmicos como a autonomia das universidades. É preciso que haja uma reforma universitária mais integrada. Infelizmente, os empresários estão acostumados a não acreditar nos governos e, historicamente, tem uma crença parcial no valor da universidade. Ao contrário do que acontece, por exemplo, nos Estados Unidos, na Suécia, na Finlândia e na Coréia do Sul. São paises que cresceram muito nos últimos 30 anos em função de uma compreensão adequada entre governo, empresa e universidade.

A universidade no Brasil, por ser recente, possui maior dificuldade nesta integração?

A.Niskier: Com toda a certeza. A universidade brasileira não possui nem 100 anos. Temos universidades do século XIV. Universidades tradicionais como a de Bologna, Salamanca, Oxford, Cambridge, entre outras. O peso da tradição é muito grande. Isso facilita a colocação destas universidades em se projetar para o futuro. O Brasil ainda está caminhando. O Brasil tem hoje cerca de 7 milhões de universitários. Proporcionalmente, este número é menor que Argentina, Chile e México. Temos condições de abrigar pelo menos o dobro, 14 milhões de universitários. Pesquisei isto durante toda a minha vida acadêmica na UERJ.  Não se vê um grande movimento para que isso seja feito, mas teria que estar aliado com a qualidade do ensino, uma característica necessária. Infelizmente, a vida universitária hoje não se pauta pela qualidade, há muito a ser melhorado.

O que deveria ser feito para alcançar este número de 14 milhões de universitários?

A. Niskier: Tem que agir em duas vertentes principais: 1- aumento do número de vagas nas universidades públicas que, em geral, resistem ao horário noturno, com argumentos absurdos. 2-  as universidades particulares tem que se convencer de que há uma classe média baixa ansiosa em ingressar nas universidades, mas que não tem recursos para pagar as  mensalidades cobradas. Aumentar o número desta massa universitária é  importante para assegurar o desenvolvimento auto-sustentável do Brasil.

Por que a falta de qualidade no ensino?

A. Niskier: Temos uma crise de qualidade no magistério. Os professores, de forma geral, são mal formados. Há universidades que pagam 12 reais por aula para um professor universitário. Isso é descabível. É preciso valorizar o professor na formação, no aperfeiçoamento e na remuneração. Assim poderemos ter um avanço muito grande no ensino brasileiro.

O livro Educação a Distância: A tecnologia da esperança

Para Niskier, A Educação à Distância pode contribuir para melhorar o ensino

Qual você considera o principal papel da universidade?

A.Niskier: A universidade tem que garantir ao país a existência de recursos humanos que atendam as suas necessidades de progresso. É o lócus onde deveria funcionar a meritocracia. Por exemplo, a Petrobras: a descoberta do Pré Sal estabelece um novo cenário, que demandará recursos humanos qualificados. A universidade tem que estar integrada para prover mão de obra qualificada.

Qual a sua visão sobre o tripé: Ensino, Pesquisa e Extensão?

A.Niskier: A constituição brasileira exige a indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão. O ensino de graduação precisa ser melhorado, como já dito. A extensão é a vinculação dos cursos universitários mais para perto da comunidade, atraindo-a para a universidade. Muito importante, por exemplo, no atendimento às demandas curtas e específicas exigidas no mercado de trabalho. No caso da pesquisa, o Brasil possui um número pequeno de cientistas, é necessário multiplicar isto geometricamente. Precisamos reconhecer oficialmente a existência da profissão do pesquisador. Até para ser tratado e remunerado de uma forma mais adequada.

Falta pesquisadores em todas as áreas do conhecimento?

A.Niskier: Não, isso varia entre as áreas. Na informática, por exemplo, o Brasil hoje é uma das referências internacionais. Está nascendo um movimento de valorização da programação. O Brasil está entrando nesta indústria de software, que fez a glória da Irlanda, da Índia, entre outros. Em termos de hardwares são 45 milhões de pessoas utilizando computadores. Apesar de a população ser de 200 milhões, este número é bem significativo, e avança continuamente. Há outros setores como: farmacologia, clonagem, células tronco, petróleo, polímeros, que o Brasil pode se desenvolver ainda mais, resolvendo o problema da demanda interna, exportando, fazendo com que a riqueza aumente e se assegure melhores condições de vida para o povo brasileiro.

Falta visão empresarial na universidade?

A. Niskier: Não diria falta de visão, mas sim, ignorância. Há, na maior parte, uma dissociação entre o que se faz na universidade, sobretudo na pesquisa básica, e o que acontece na prática com as necessidades empresariais. Esta dissociação é condenável. É preciso uma junção maior entre o que se está pesquisando na universidade e o que nosso país precisa. Uma forma mais inteligente de fazer uma associação da pesquisa básica, que se faz de forma desinteressada, e das pesquisas aplicadas, de finalidades tecnológicas.

Muito da crise das universidades deve-se a uma falta de integração com o ensino médio?

A.Niskier: Claro. No ensino médio há um fenômeno muito grande de evasão e repetência, e isto, em médio prazo, vai prejudicar a entrada dos jovens na universidade brasileira.

Qual a sua visão sobre o novo ENEM?

A. Niskier: Eu sou totalmente a favor da política que o ministro Fernando Haddad tem adotado. O projeto do ENEM é altamente criativo, e precisa ser estimulado. Pode ser o fim da “aventura” do vestibular. Há uma compreensão crescente do que ele representa. Com a implantação do ENEM, nós chegaremos, em pouco tempo, a uma solução ideal para a admissão do jovem na universidade brasileira.

Por que há tanto abandono de curso nas universidades brasileiras, inclusive públicas?

A. Niskier: O jovem tem necessidade de emprego. Tem que trabalhar para viver. A universidade tem que ser atraente e o diploma tem que ser uma necessidade indissociável para que ele possa alcançar um bom emprego. A partir do momento que isto não é uma realidade, ele busca caminhos alternativos.

É necessária cada vez mais uma formação universitária generalista?

A.Niskier: É muito importante. Recentemente, em visita que eu fiz a cinco high schools na região de New England, onde nasceu a civilização americana, constatei isso. Eles estão revendo os seus currículos para que se estude mais inglês, história, religião, filosofia. Humanizando o estudo. O individuo passa a ter uma formação mais completa, de cultura geral, ao invés de uma formação especializada, estreita, que marcou por um tempo a vida universitária americana. Nós temos que fazer o mesmo. Se o individuo não tem cultura, nem uma formação adequada, isto prejudicará, inclusive, o seu desempenho profissional.

“Tia” Leyla Nascimento, presidente da ABRH Rio: “No mundo do trabalho é necessário pensar global e agir local”

In Entrevistas on Agosto 10, 2009 at 2:34 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

Leyla Nascimento, Presidente da ABRH Rio: "Formação universitária híbrida é uma necessidade para as empresas"

Leyla Nascimento, Presidente da ABRH Rio: "Formação universitária multidisciplinar é uma necessidade para as empresas"

Atual Presidente Executiva da ABRH Rio (Associação Brasileira de Recursos Humanos) e do Instituto Capacitare (junto com o Joaquim Lauria do Grupo Let RH), Leyla Maria Félix do Nascimento, atua há mais de vinte anos em trabalhos e programas voltados para o desenvolvimento de Recursos Humanos, tendo sido durante 23 anos a principal executiva do CIEE Rio (Centro de Integração Empresa-Escola).

Formada em pedagogia pela UERJ, Pós graduada em Educação e Desenvolvimento de Recursos Humanos pela UFRJ e Mestre em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) com a dissertação: Transformações no Mercado de Trabalho Exigidas aos Estagiários e Recém-Formados em Empresas com Características da Sociedade Pós-Industrial é marcante a sua experiência como professora em seu perfil.

Leyla, nesta entrevista exclusiva, ao abordar o papel do profissional de recursos humanos nas organizações, o compara ao educador nas universidades e o define como um “agente de transformação”, e considera que as habilidades comportamentais são as mais difíceis de desenvolver, pois depende da formação básica: familiar e oferecida nas escolas desde o primário.

Com conhecimento de fronteira sobre Integração Universidade – Empresa, típica dos doutores, e com a simpatia e a didática das professoras primárias, típica das “tias”, transmitida em sua fala, se comparássemos as relações nas organizações com a conhecida Novela Mexicana Carrossel, transmitida pelo SBT na década de 1990, cujos personagens como: Cirilo Rivera, um menino pobre e negro; Maria Joaquina, menina rica bonita e egoísta que desprezava os seus colegas; Laura Gignoni, uma gordinha comilona e romântica, Jaime Palillo, um gordinho de coração enorme que sempre dizia: “Mas que droga de cabeça”, Firmino, um velho porteiro amigo dos alunos; dentre outros, tinham as suas emoções “gerenciadas” pela jovem professora Helena. Tutora paciente, amiga e querida por todos os alunos. Leyla Nascimento poderia ser considerada, por muitos, como a professora Helena dentre os profissionais de Recursos Humanos. Com a palavra, “tia” Leyla.

“Toda turma,  zero em comportamento”

Por que esta falta de integração universidade-empresa?

Leyla: A integração entre universidade e empresa, entre educação e trabalho é um problema mundial, não é um problema somente do Brasil. A educação é muito departamentalizada, as informações são dadas partilhadas, e não de forma sistêmica. Edgar Morin fala: dividimos tudo por disciplinas. No mundo do trabalho é necessário ter visão sistêmica. Pensar global e agir local. Os cenários organizacionais mudam com muito mais  rapidez do que o cenário educacional, criando um “gap”. As universidades, muitas vezes, ao rechaçarem qualquer orientação por parte das empresas, se fecharam em seu ”mundinho”, formando profissionais para mercados inexistentes, para carreiras que já estão “anos-luz” em transformação.

Como melhorar esta integração pelas universidades?

Leyla: Com uma maior interação do mundo acadêmico com os problemas da sociedade. Muitos professores universitários, principalmente, das instituições públicas, estão fora do ambiente empresarial, não entendendo as suas reais demandas e necessidades. Isto é muito ruim, porque ficam com uma visão muito acadêmica e teorizada, repassando isso para os alunos. Por exemplo: na Alemanha, a discussão entre universidade-empresa é tão bem sintonizada, tão interativa, que os professores das universidades vão para dentro das empresas e os profissionais de mercado participam de reuniões nas universidades para explicitar as suas demandas. O Projeto de Desenvolvimento de vários países é discutido de forma interativa, sintonizando melhor os perfis dos profissionais a serem formados, às verdadeiras demandas da sociedade. Temos uma riqueza de material acadêmico inexplorado pela sociedade, como monografias, teses de mestrado e doutorado. Estão aí muitas das soluções dos problemas de nosso país. É um beneficio a serviço da sociedade não aproveitado.

Há um discurso ainda muito romanceado por parte das universidades?

Leyla: Muito romanceado e distante da realidade do mercado de trabalho. As Universidades não falam sobre Liderança, sobre resultados, network, relações de grupo. Isso é “pecado” dentro das universidades, mas são pontos altamente estratégicos nas empresas. Quando o universitário entra em contato com esta realidade, muitas vezes, é surpreendido. Há por parte das Universidades uma necessidade de rever esses conceitos. Cada um de nós, dentro do seu papel, é uma mão-de-obra que tem que gerar resultados. Isso é indiscutível. Fui a um seminário em que uma reitora declarou que Marketing não existia, era uma criação, que o grande problema da universidade era acreditar nisso. Um absurdo.

Como as empresas buscam melhorar essa integração?

Leyla: As empresas buscaram saídas sozinhas, criando escolas próprias. Muitas universidades corporativas foram criadas sem nenhuma participação de universidade ou Centro de Ensino. As melhores empresas para trabalhar, por exemplo, têm na área de Treinamento e Desenvolvimento, excelentes parcerias com universidades de ponta, porque elas entendem quanto é importante ter essa integração. Quando buscam soluções sozinhas, não se chega a lugar nenhum.

O ensino profissionalizante também faz falta?

Leyla: Existem profissões intermediárias entre o ensino superior e técnico que fazem falta no mercado brasileiro. No Community College and Technical Institute, no estado da Carolina do Norte, chamam de politécnico. É um curso intermediário entre a graduação de 4 anos, mas classificado como ensino superior. Por exemplo: curso de assistente do dentista, que oferece todo o suporte técnico, é um politécnico, classificado como ensino superior. O sistema de ensino brasileiro custou a entender que precisava trabalhar o aspecto profissionalizante, o aspecto técnico, não atendendo muitas das demandas das empresas.  Por exemplo, hoje, uma demanda como a da VALE S/A tem no Brasil, por mais que se queira trabalhar o profissional dos cursos existentes, não irá conseguir. Necessitam do engenheiro de mineração, mas também do técnico em mineração.  A Vale, assim como outras, buscam parcerias com instituições de ensino locais para suprir a carência por esses profissionais.

No Carrossel de Recursos Humanos, Leyla tem a simpatia,o carisma e a competência da professora Helena

No Carrossel de Recursos Humanos, o carisma, a simpatia e a competência da professora Helena, são do perfil da líder Leyla Nascimento

Qual a importância da universidade na formação profissional?

Leyla: A educação formal dada pelas universidades, ela é vital, ela é preponderante para o êxito profissional. Repercute no aspecto comportamental, na formação do líder e na liderança das equipes. A maior dificuldade hoje do líder é ficar muito particularizado, não ler cenários, não pensar no global.

Qual a grande dificuldade dos profissionais hoje?

Leyla: Existem líderes e profissionais fantásticos que são demitidos pelo aspecto comportamental, porque não sabem trabalhar em equipe, não sabem compartilhar.  Essa dimensão de não saber fazer, e fazer com que o outro complemente, é que é o grande X da questão nas organizações. Quando os lideres entendem que o sucesso deles depende de um grupo, que o chancelou e ratificou, crescendo junto, fantástico. Agora, quando o líder tem sucesso por ele mesmo, vai acabar em pouco tempo. Muito se fala em gestão do conhecimento, mas poucos possuem habilidade para fazer. Muitas pesquisas demonstram hoje que muitos profissionais são admitidos pela competência técnica e demitidos pelas competências comportamentais.

Como desenvolver estas habilidades comportamentais?

Leyla: Essas habilidades comportamentais vêm da educação familiar, da educação formal na escola, desde o Jardim de Infância, em que o jovem vai incorporando determinados valores, e “construindo” a sua formação, que refletem diretamente em seu comportamento e suas atitudes. Por mais que a empresa faça treinamento de integração, de relações interpessoais, de trabalho em equipe, não tem jeito, o comportamento vem de sua história de vida. Passar as habilidades técnicas é mais fácil.

Qual o papel do profissional de Recursos Humanos nessa integração?

Leyla: O profissional de Recursos Humanos tem um papel fundamental, é um agente de transformação, de educação dentro da empresa, é o canal de comunicação com a Universidade. É tão importante quanto o educador dentro da Escola. Na educação tem uma parte que é básica, quase imexível, mais filosófica, e tem uma parte que é profissionalizante, trabalhado na experiência profissional.

Qual a sua avaliação sobre o fim do mestrado Stricto sensu e maior aproximação com a graduação?

Leyla: Eu sou contra. Eu sou favorável que cada um tenha o seu espaço e o seu papel. A Pós-Graduação exige dois fatores importantes: a formação e a experiência profissional. Muitas pessoas, sem ter experiência profissional, terminam a graduação, e ingressam na Pós Graduação. Estão fazendo Mestrado e Doutorado, muitas vezes, como mais um diploma. Isso pode ser prejudicial para a sua carreira profissional. Há uma total falta de sintonia entre a teoria e a prática.

O trabalho temporário é importante como critério de seleção?

Leyla: Eu acho muito importante. Nas empresas muitos trabalhadores temporários são efetivados pelo que apresentaram. Por exemplo: a fábrica da Volkswagen de ônibus e caminhões, em Resende, é constituídas por módulos de empresas terceirizadas. É um case mundial de sucesso. A relação de trabalho, hoje, não é tão importante.

Formação universitária multidisciplinar é cada vez mais necessária?

Leyla: Sim. Hoje as empresas estão ficando enxutas e os profissionais estão ganhando uma amplitude maior, tendo que ser multifuncionais. O organograma das organizações, hoje, é feito a lápis porque a toda hora o cenário muda, e as caixinhas mudam. Eu tenho vagas no mercado, mas não tenho funcionários qualificados para preenchê-las. Por exemplo, eu fiz Pedagogia e nunca imaginei estar com tantas atribuições e ter que entender de Comunicação, de Marketing, de Contabilidade entre outras funções.

Programas de trainee contribuem para essa formação?

Leyla: Contribuem, mas hoje, há uma tendência do Programa Trainee terminar, e serem substituídos por programas de estágio, cada vez mais estratégico nas organizações. Como os organogramas tornam-se mais enxutos e horizontais, acabam não gerando a perspectiva do cargo gerencial para o trainee após o programa.

Os Conselhos de classe são um entrave nesta visão universitária multidisciplinar?

Leyla: Os Conselhos ainda estão no aspecto legal da profissão, não na formação e nos próximos cenários dessas carreiras e dessas profissões. Apesar de ter melhorado bastante, ainda ficam restritos a buscar uma reserva de mercado.

Qual a sua visão sobre a visão de MBA/ gestão em todos os cursos de graduação?

Leyla: É  importante ter essas diferentes visões dentro de um Curso de MBA. Mas não pode ser visto como um produto que se basta por si mesmo. É de fácil obsolescência. Tem que ser atualizado de acordo com as carreiras e profissões.

Como avalia esta formação híbrida que tive em Administração de Empresas e Comunicação?

Leyla: Este tipo de formação é uma necessidade para as empresas, não vejo nenhuma dificuldade para ser aceita. Cada vez mais as empresas precisam de profissionais híbridos. Comunicação, hoje, é uma das áreas mais estratégicas de uma organização. Se unir comunicação com o entendimento da estratégia das organizações através da gestão,  têm-se um salto qualitativo muito grande, porque supera uma visão mais especifica e restrita que se tem da atividade, relacionada a jornal, revista, comunicação institucional, entre outros,  influenciando  mais no dia-dia, no operacional das empresas.

O Capiano Revolucionário Érico Magalhães, Diretor de RH da TV Globo: “A universidade tem que ensinar a pensar, falar e fazer”

In Entrevistas on Agosto 10, 2009 at 6:42 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ


O Capiano Érico Magalhães, diretor de RH da TV Globo: "Nosso negócio é ShowBusiness. Formar profissionais que integrem estas duas visões é um desafio"

O Capiano Érico Magalhães, diretor de RH da TV Globo: "Nosso negócio é ShowBusiness. Formar profissionais que integrem estas duas visões é um desafio"

Com formação básica no Colégio de Aplicação da UFRJ, criado para ser um laboratório pedagógico e formador de lideranças brasileiras, Érico Eduardo Magalhães, atual diretor da Central Globo de Recursos Humanos pode ser considerado um Capiano Revolucionário, mais uma cobaia pedagógica bem sucedida do CAP UFRJ.

Pode parecer ousado e confuso, num primeiro momento, este universitário definir o Diretor da Rede Globo, responsável por RH, Recursos Artísticos, Planejamento e Controle, Finanças e Pesquisa de Audiência (Ufa! Quanta responsabilidade e função!) de tal forma.

Porém, explico. O livro Intelectuais e Guerreiros: O Colégio de Aplicação da UFRJ de 1948 a 1968, da professora Alzira Alves de Abreu, defende a paradoxal tese: o processo educacional do Colégio de Aplicação da UFRJ contribuiu para formar revolucionários que entraram na luta armada, a ponto de seqüestrarem o embaixador americano. César Benjamin, Cid Benjamin, Franklin Martins, Alfredo Sirkis, todos do CAP, são os mais conhecidos.

Infelizmente, ou felizmente, não é possível anexar esta façanha de seqüestrador, ao currículo de Érico Magalhães, o colégio tinha correntes mais moderadas, menos radicais, bem dividas entre os célebres jornais: A Forja, de cunho mais radical de esquerda, e A Voz, menos politizado. Será que a semente para o ramo de comunicação em seu perfil, foi plantada pelo envolvimento com estes jornais? Difícil responder.

Porém, é visível a influência dessa experiência do CAP, até hoje, em sua formação, “tudo que é conceito eu aprendi a pensar como o Colégio de Aplicação me ensinou” afirma ele, que entende que a universidade tem o papel de ensinar a pensar, falar e fazer.

Isto, o Colégio de Aplicação fez com Érico, que analisa planilhas da TV Globo, fundamentado em conceitos da Lei dos Grandes Números, aprendida em suas memoráveis aulas de física do professor Ancelmo, jogador de basquete, assim como ele, quando estudante.

Formado em engenharia civil pela UERJ, com mestrado em administração pela Puc Rio com a tese: Uma Metodologia de Planejamento para Empresa Pública: Teste no Setor de Processamento de Dados e pós graduação por Stanford, Érico nunca atuou como engenheiro, desenvolvendo sua experiência profissional, principalmente, na área de Planejamento e Recursos Humanos, na Serpro – Serviço Federal de Processamento de Dados (trabalhou junto com o atual reitor da UFRJ, Aloísio Teixeira) e na Mesbla, antes de ingressar na Rede Globo.

Nesta entrevista exclusiva, em sua sala rodeada de fotos de suas netas, este avô orgulhoso, vencedor do Prêmio Profissional do Ano ABRH-Rio 1994, retrata os desafios de recursos humanos nas emissoras de televisão, da integração entre universidade-empresa e, sem se dar conta, mostra seu grande perfil de educador.

Para ele, não há diferença entre o professor, o pai e o chefe, todos são comunicadores. Educar, em sua visão, é definido por Cícero: tirar a motivação do outro para o que se quer transmitir. Este cuidado fica claro em toda a sua fala, mais voltada para gerar reflexão, do que estabelecer determinadas verdades. A essência do processo educacional para ele.

Conheça um pouco mais deste eterno Capiano Revolucionário,  Intelectual e Guerreiro, mais uma Cobaia Pedagógica  bem sucedida, Érico Eduardo Magalhães.

"Hay que endurecer, sí, pero perder la ternura, jamás!" Em sua época de estudante do CAP UFRJ, o líder revolucionário Ernesto Che Guevara era uma grande influência de Érico.

"Hay que endurecer, sí, pero perder la ternura, jamás!" Em sua época de estudante do CAP UFRJ, o líder revolucionário Ernesto Che Guevara era uma grande influência

Como você avalia a integração entre universidade e empresa?

Érico: Esta dicotomia a universidade e as empresas ainda não conseguiram resolver. Se um dia o país apostar na educação como grau de alavancagem, as empresas e as universidades se virem como parceiros adequados para desenvolverem as suas estratégias, e buscarem jogar juntas, ao invés de separadas, será benéfico para ambos: universidade e empresa.

O que poderia ser melhorado pelas universidades?

Érico: Os professores e a universidade como um todo se dedicam menos do que deveriam ao mercado. Acham que vão se poluir, se se aproximarem das empresas. Nos Estados Unidos, as empresas financiam pesquisa pura e aplicada, buscando soluções e gente. Lá, a universidade não sobrevive sem a aproximação com as empresas. Eu estudei em Stanford e via como as universidades têm salvado os Estados Unidos, como foi na época em que a Europa era dominante. Esta capacidade de passar conceitos, passar valores, filosofia de cada uma das matérias, de cada uma das disciplinas, das profissões, ao mesmo tempo em que se aproxima da vida real e da realidade econômica, que é fundamental, seja através das empresas, do estado ou de ONGs. A sabedoria está em olhar para os negócios e para o futuro para que não ensine para o passado. Ensinar para o passado é um dos grandes problemas de nossa universidade hoje.

Qual você considera o principal papel da universidade?

Érico: O principal papel da universidade é ajudar os alunos e a sociedade a pensar, falar e fazer. Normalmente, temos dois blocos. As universidades que ensinam a fazer, e as que ensinam a pensar. A primeira gera, muitas vezes, os analfabetos funcionais, que fazem tudo através da repetição de técnicas, mas sem pensar. A segunda, filosófica demais, com excesso de conceitos. O grande desafio é o meio termo desses dois modelos. Pensar e fazer são partes da mesma moeda, eles não são diferentes. Eu vou para o pensar, mas não consigo executar? O intelectual que só pensa, ele pensa e escreve uma tese, um livro, uma música, faz uma partitura. A ordenação do nosso pensamento está na bíblia, e em qualquer filosofia humana. Pensar, falar e fazer. Pensamento, palavra e obra. Esta é a essência da vida.

Qual foi a importância da educação básica em sua formação?

Érico: Eu estudei no Colégio de Aplicação da UFRJ aqui da Lagoa, na época da ditadura. Era um colégio que ensinava exatamente isso: a pensar. E ele aplicava os conceitos na realidade, através de atividades extracurriculares. Eu lembro de um professor de física chamado Ancelmo que me adorava porque ele jogava basquete, e eu também jogava basquete no Botafogo. Ele durante os dois primeiros períodos ensinou a lei dos grandes números. A aula inteira era: “qual a distância do homem para a lua. Em quanto tempo uma formiga atravessa o deserto do Saara.” Até hoje, quando eu recebo uma planilha, na mesma hora analiso pela lei dos grandes números e, muitas vezes, digo se está correta ou não, sem fazer contas. Educar, em Cícero, significa tirar do outro a motivação para o que eu quero transmitir. O CAP me motivava para o estudo. Até hoje, eu como Diretor da TV Globo, tudo que é conceito eu aprendi a pensar como o Colégio de Aplicação me ensinou. Marcelo Madureira, César Benjamin, Cid Benjamin, Edna Palatinik, Ricardo Vilas, Mauricio Maestro, David Tygel, entre outros, foram de lá. Tenho boas lembranças.

Intelectuais e Guerreiros. Pedagogia do CAP UFRJ influenciou na formação de grandes líderes brasileiros. Cobaias pedagógicas bem sucedidas

Intelectuais e Guerreiros. Pedagogia do CAP UFRJ influenciou na formação de grandes líderes brasileiros. Érico foi mais uma cobaia pedagógica bem sucedida

Historicamente, o sucesso dos diretores de TV é decorrente de características inatas e intuição, ou de capacitação profissional?

Érico: Gestão você passa por ter visão, ter a estratégia e  gerir resultados através das pessoas. Ela sempre vai se juntar com duas características humanas: a capacidade de ter a intuição e as coisas que são inatas, até as técnicas que você vai aprendendo ao longo do tempo. Raros são os gênios, que conseguem ter somente um dos lados e serem bem sucedidos em todo o momento. Uma pessoa altamente intuitiva, mas que não utiliza nenhuma técnica de gestão de empresas, seja de TV, ou outra qualquer, encontrará dificuldades. Todos os grandes visionários, por exemplo, o Bill Gates: era de Harvard, criou o seu software num fundo de quintal, mas juntou-se logo com outro que tinha habilidades que ele não possuía para complementá-lo. Esta visão do extraordinário, dos intuitivos, normalmente é visão que se tem dos gestores de empresas nascentes. Após a fase inicial, mais heróica, visionária, a empresa adquire uma dimensão que é necessário estruturar-se. Igual a uma família, que passa de um para cinco filhos, terá que se planejar melhor e alterar o seu modelo de gestão para suportar esta nova realidade. Hoje é diferente. Não se gerencia mais TV como há 20 anos atrás.

Como conciliar visão artística com gerencial num mesmo profissional? Em outras palavras, como unir os pontos fortes do Boni e da Marluce?

Érico: Esta equação entre artístico e gestão vai sendo aprendida ao longo do tempo, avançando mais em um dos lados de acordo com o momento da vida. O Boni, por exemplo, era ultra intuitivo e criativo, veio do mercado publicitário, da Lintas, foi aprendendo visão sobre gestão, para ter condições de gerir uma empresa, e construiu/ catalizou, junto com outras pessoas, modelos de gestão que estão presentes até hoje na TV Globo. A Marluce, que gerenciava a empresa mais completamente, já que nem a área comercial e administrativa estava com o Boni, é psicóloga, se origina de Recursos Humanos e depois de ser consultora, entra na Globo, numa função similar a minha hoje. Ao longo do tempo, assume a Direção Geral e começa a dominar também o entendimento sobre a equação artística, aprovando projetos, grade, trazendo talentos para a programação. O seu gosto por artes plásticas, esculturas e sua sensibilidade de psicóloga fez com que se aproximasse do universo artístico sem grandes dificuldades.

Qual a especificidade de gerenciar o RH de uma emissora de TV?

Érico: É gerenciado com a mesma matemática de outras empresas, mas com contas diferentes. A matemática são os princípios de respeito, a forma de tratar todos os funcionários iguais, independente do nível hierárquico, estimulando o trabalho em equipe. Neste universo televisivo só se tem sucesso com trabalho em equipe. Não adianta ser um grande ator, se o câmera enquadra mal, a edição não é boa. Ser um grande jornalista, se não há sinergia entre a reportagem, as imagens captadas e a edição. Dentro da TV existem universos distintos entre os profissionais. Artistas são mais de 1500. Jornalistas são mais de 1000. Engenheiro de sistemas mais de 1000. Comerciais são mais de 500. Operários são quase 2000. Todos com visões bem diferentes.

Psicóloga Marluce Dias, ex-principal executiva da TV Globo e Hans Donner (talvez crie um novo visual grafico para este blog), na entrega da medalha do Guerrilheiro para o Érico. Por traz deste sorriso grandes idéias revolucionárias, capazes de sequestrar embaixadores

Psicóloga Marluce Dias, ex-principal executiva da TV Globo e Hans Donner (talvez crie um novo visual gráfico para este blog ou envie um estagiário do IMPA), na entrega da medalha de Guerrilheiro para o Érico. Cuidado! Por trás deste sorriso e destes braços de jogador de basquete há grandes idéias revolucionárias!

Qual a diferença entre as visões destes profissionais: artista, jornalista, engenheiro, comercial?

Érico: Faço a seguinte metáfora: 2 + 2 para um artista pode ser -100 ou +1000. O lado emocional costuma ser muito oscilante. Altos e baixos. Eles têm a capacidade de interpretar bandidos, mesmo sendo uma pessoa pura. Por exemplo, a Patrícia Pillar, fez a vilã da novela anterior, uma serial killer, e você achava que ela era assim, apesar de ser uma simpatia em pessoa. Para um jornalista, se você falar que 2 + 2 é igual a 4. Ele vai perguntar o porquê. Ele foi treinado para fazer perguntas, para buscar entender a verdade dos fatos. Para um engenheiro 2 + 2 é igual a 3,9 ou 4,1. Um engenheiro que disser que 2 + 2 é igual a -100 ou 1000, a TV sai do ar, o prédio cai. É mais esquemático, é mais preciso na comunicação. Para um comercial 2 + 2 é igual a 6. Para ele dar 33% de desconto e chegar em 4. É da natureza do comercial comprar mais barato e vender mais caro, seja  numa loja de departamento, ou numa agência de automóveis.

Qual o desafio das emissoras de TV, em termos de formação profissional?

Érico: Nosso negocio é Show, e é Business. O americano reduz muito bem para ShowBusiness. Toda vez que se vai para o lado do show, perde-se rentabilidade, se perde rentabilidade, não se tem condições de realizar o show. Se você enfatiza só rentabilidade, só resultados, ainda mais numa empresa de sonhos, que trabalha com o intangível, com a motivação e o imaginário de um cliente que ele mal vê, através de uma telinha, diferente do varejo que avalia in loco a satisfação do consumidor, você alcança resultados insatisfatórios, menos potencializados. O sucesso está em balancear esta equação entre o Show e o Business. Formar profissionais que integrem esta visão é um desafio.

É cada vez mais necessária uma formação generalista e multidisciplinar, ao invés de técnico-especializada?

Érico: Tem que ter um equilíbrio, não podemos ser absolutistas. A metáfora do Show Business cabe aqui também. Tem que ter capacidade de atender ambas as demandas. O problema é que não é isto OU isto, mas sim, isto E isto. As opções são mais cômodas dessa forma. A grande sabedoria do século XXI é sermos convergente: ser isto E aquilo.

É possível formarmos executivos de TV através das universidades?

Érico: A TV Globo é repleta de profissionais formados em universidades, mas de muito tempo de casa. A formação se dá aqui dentro. Na minha avaliação não terá mercado suficiente para as universidades se interessarem por produzir executivos de TV. Não tem demanda para uma formação especifica, o setor é oligopolizado. É preferível recrutar um jovem universitário e prepará-lo dentro da empresa. Normalmente, a sucessão vem de dentro. Tem que ter um tempo para conhecer a essência do negocio. É muito especifico, tem muito macete. Nós vivemos o segundo. O que afetar o vídeo atinge 90 milhões de pessoas. Por exemplo: A Ana Maria Braga passou mal e não pode apresentar o seu programa pela manhã. Fica um buraco no ar? Não pode. Se for uma IBM, adia o projeto. Aqui se vive o segundo, é uma cultura muito própria. Por isso que trazer um CEO da IBM ou NESTLE e colocar nesta indústria, dificilmente vai dar certo. Várias tentativas, aqui e no mundo, fracassaram. É claro que quem tiver a visão comercial, a visão artística e a visão do consumidor estará mais preparado para exercer essa função.

Como explicar que nos EUA desde a década de 60/70 temos formação especifica para dirigentes de cúpula de TV (Publisher:Comunicação+ Gestão) diferentemente do Brasil?

Érico: Nos Estados Unidos você tem mercado. Lá tem centenas de pequenas emissoras, milhares de produtoras independentes e um mercado gigante, pelo menos 11 vezes maior que o brasileiro. Lá tem mercado suficiente para absorver estes formandos. São milhares de projetos com uma enorme gama de profissionais independentes, terceirizados. Este formado é absorvido no mercado em atividades totalmente diferentes: vídeos, cinema, programas para tv aberta, fechada, vídeos institucionais, entre outros. Um profissional de programação trabalha para vários canais. O mercado publicitário brasileiro é de 15 bilhões de dólares, lá são mais de 150 bilhões. Formar pessoas para o entretenimento, tem que ser para uma cadeia de valor mais ampla. Enquanto ela não existir, não tem economia de escala que permita o surgimento destes profissionais no Brasil em grandes quantidades. Seria inviável economicamente.

Como você avalia esta minha formação experimental (cobaia pedagógica) em Administração de Empresas e Comunicação/ Jornalismo?

Érico: Entre o saber pensar como um jornalista, ou relações públicas, ou publicitário, de forma estanque, e ter uma visão equilibrada entre o conhecimento técnico da sua especialização com a visão de negócios é um grande avanço. Eu me formei engenheiro civil, que tem também seus graus de especialização, sem nenhum aprendizado em negócios.  Então se eu for jornalista, terei que saber como escrever bem um artigo, como apurar e responder as perguntas básicas do lead: o que, quando, como, onde, por que. Ao mesmo tempo, eu tenho que ter uma visão humanista, com sociologia, antropologia, filosofia, entre outras. Ter sólida formação cultural. Quanto mais um profissional ter essa visão do todo melhor. Esta visão integrada e de negócios é um diferencial.

Existem programas de trainees estruturados na TV Globo para formação de lideranças executivas?

Érico: Temos vários programas de trainees. Exemplo: na área artística, a pessoa se forma em direção e passa por um período como assistente de direção, aprendendo a ser diretor. Na área comercial tem um programa de trainee. Na área de jornalismo também.

Não é um programa de trainee institucionalizado como o nosso Programa Estagiar. Primeiro, porque não teríamos quantidade suficiente de vagas e, segundo, porque o aprendizado na TV, principalmente, da atividade fim é muito lento. Não se forma um autor para escrever uma novela das oito, antes de 15/ 20 anos. Um diretor antes de 15/ 20 anos. Na produção antes de 5/10 anos. Aprender sobre determinado produto, leva um tempo. Mas não igual a TV. A pessoa sai gerente de produto numa empresa de consumo e vai para uma no setor de serviços, e vice versa. Na TV é diferente. Por exemplo, na há 20 anos atrás, eu, Marluce e Tjerk Franken criamos a Pós Graduação em varejo específico para a Mesbla, que depois foi incorporada ao Coppead.. Foram formados mais de 300 executivos nesse curso. Executivos fantásticos para o varejo, que foram presidentes da Alpargatas, Sky, TVA, entre outros.  Na Televisão não é possível fazer isso, não tem mercado para comportar como no varejo. Vai para a concorrência.

Qual a sua visão sobre a obrigatoriedade do diploma em jornalismo?

Érico: Sou contra. A minha posição é: nós queremos o melhor talento, que certamente, terá passado pela universidade, mas só poder escrever em jornal, quem tenha passado pela universidade, é uma visão muito cartorial no Brasil. Eu posso ter talento para escrever para um nicho específico e o público achar o máximo. Nada me impediria, em termos técnicos, de escrever, expressar minha visão. É obvio que as empresas estruturadas não deixarão as universidades de lado. Mas buscam talentos bem preparados, e não o diploma em si. Isto também para outras áreas. No caso da Administração, o CRA, por que tem que ter um título de técnico em administração? O importante é estar preparado. No meu caso, sou engenheiro, tenho mestrado em Administração pela Puc Rio, pós graduação por Stanford em administração, e não posso exercer nenhuma função administrativa. A carteira do conselho é um aspecto secundário. Busca uma reserva de mercado disfuncional na dinâmica do mercado de trabalho.

Qual tem sido o papel dos cursos universitários na formação dos profissionais das emissoras de TV nas diversas áreas funcionais?

Área de Recursos Humanos e Administrativa:

Érico: Na área administrativa, de recursos humanos, são áreas que são obviamente demandadoras de recursos das universidades, porque as universidades ensinam o que é básico para qualquer indústria. Gente é semelhante para qualquer indústria e empresa. Os pressupostos utilizados de gestão de gente são os mesmos na IBM, Vale ou TV Globo. As questões financeiras e de tecnologia também. A matemática é a mesma, mas as contas são diferentes, ao lidar com gente. Normalmente um analista de sistemas é entrada na IBM. Um engenheiro, geólogo na Vale do Rio Doce e um artista na TV Globo. São negócios e culturas diferentes. A forma de recrutar, treinar, remunerar, motivar, desafiar, avaliar, serão distintas. Eu tenho para artistas um plano de carreira, uma estrutura de salários, compatível com a IBM e a Vale, porém, não igual, pois eu tenho sistemática e processos diferentes. Aqui, por exemplo: um ator participa da Malhação, faz uma ponta na novela das oito, é um sucesso, e já vai estrear na próxima novela. Isto em outros setores dificilmente ocorre.

Engenharia:

Érico: Neste caso engenheiros tem que vir da universidade, até pela certificação profissional. Este profissional se mantém sempre junto da universidade, instituições de pesquisa, pois pelo avanço tecnológico, tem que estar atualizando-se constantemente.

Jornalismo:

Érico: No caso do jornalista tem o Programa Estagiar, espalhado por todas as universidades. Recebemos 11 mil candidatos para 100 vagas. É 1%. Eu recruto matéria prima de qualidade da universidade, talentos, e treino para a televisão. Os universitários atuam como estagiários e não como mão de obra barata. Tem tutor, tem formação. Pedro Bial e Wiliian Álvares são alguns dos exemplos do Programa Estagiar.

Produção:

Érico: É quem faz a infraestrutura e coordena todos os recursos, colocando-os a disposição para o artista aplicar em seu trabalho. A área de produção tem sido composta, principalmente, por universitários da área de engenharia de produção. O diretor de produção é uma das funções mais importantes em artes cênicas. Nas indústrias é comparável com a logística e produção, que busca saber se os fluxos de produção são os mais econômicos para alcançar o resultado. Ele tem o orçamento na mão e o artista tem um sonho. Deste conflito sairá o produto que vai ao ar. O artista, diretor, autor, gostaria de fazer uma novela gastando 1 bilhão de reais por minuto, porém, só tem 100 mil. A produção faz essa intermediação. Nasceram lá no passado com os práticos, com poucos modelos de gestão, aprendendo no dia-dia, no improviso. Existia na TV e no rádio o contra regra, que foi até um personagem do Chico Anísio. Este nome porque ele fazia tudo contra as regras. Hoje, é altamente sofisticado, por computador. É totalmente a favor da regra, apesar do nome. Por exemplo: O Show do Roberto Carlos no Maracanã para 70 mil pessoas. Foram meses de planejamento para saber sobre a entrada do público, segurança, logística. Isto tudo é responsabilidade do profissional de produção.

Diretor de Programa:

Érico: Ele tem um duplo papel. É o responsável e o gerente do produto. É o intermediário entre o que o autor escreve, o que o elenco vai interpretar e o que a produção vai colocar à sua disposição. De todos os profissionais da área de entretenimento, ele é quem mais intermedeia o hemisfério artístico e o de produção. Quem formou esses diretores ou foi a sua experiência no cinema, ou na publicidade, ou principalmente dentro da TV Globo, onde temos a Oficina de Atores, a Oficina de Direção e a Oficina de Autores, que preparam os talentos descobertos no mercado para esta indústria da televisão. Não adianta atrair um talento do teatro, se você não treiná-lo porque a marcação é diferente. Teatro é a arte do corpo. A televisão é a arte do rosto, do gesto.  As universidades deixam uma lacuna na formação profissional deste perfil. A aposta da TV Globo foi montar escolas, universidades próprias.

Programação:

Érico: Ele interpreta o desejo do consumidor, do telespectador, e produz diretrizes para a área de criação de entretenimento e para a área de criação de jornalismo e esportes desenvolver produtos que ele gostaria de ver na grade. Ele faz isso através de pesquisa de audiência e de sua própria sensibilidade.  A TV possui dois clientes: o cliente que nos compra é o mercado publicitário: anunciantes e agências. Mas quem consome o nosso produto é o telespectador. Os anunciantes e agências só compram nosso produto porque atingimos o seu consumidor. Caso isso não ocorra, comprarão com outro. O mercado publicitário é tão importante quanto o telespectador e os projetos do criador. O mix destes três gera uma programação. Este profissional não é formado em escolas porque são muitas variáveis. Este tipo de pessoa não se forma numa única escola com a visão do todo. Hoje, no Brasil, com o advento da televisão fechada, aumentaram o número de programadores.