POR MARCELO GUIMARÃES
Universitário ADM/ UFRJ

Arnaldo Niskier, atual presidente do CIEE Rio: "A tecno-estrutura: tríplice aliança entre governo, empresa e universidade é indispensável à expansão econômica e social"
PERFIL BIOGRÁFICO
Arnaldo Niskier, presidente do CIEE Rio, jornalista, professor, educador, administrador, ensaísta e orador, nasceu em Pilares, Rio de Janeiro, RJ, em 30 de abril de 1935. Foi aluno do Instituto de Educação, freqüentou a 1a série do primário na Escola 19 Canadá, hoje Escola Pareto. Ali teve suas primeiras grandes lições em escola pública.
Em São Paulo, fez o 1o e o 2o ano no Grupo Escolar Rodrigues Alves. Depois, voltou para o Rio de Janeiro, residindo na Tijuca. Cursou o ginásio no Colégio Vera Cruz, sempre se distinguindo como o primeiro da classe. Também se destacou no futebol. Praticou esportes no América Futebol Clube e no Clube Municipal, onde foi campeão carioca de basquetebol (2a divisão). Até hoje, é torcedor do América.
Ao entrar no científico, aos 16 anos, começou a fazer crônicas esportivas para o jornal Última Hora. No dia 15 de outubro de 1955 entrou na Manchete Esportiva. Por esse tempo, aproximou-se de Adolpho Bloch, levado pela necessidade de obter uma fiança para aluguel de apartamento. Começou aí o grande respeito e amizade que teve por ele durante 37 anos, trabalhando na Manchete. Em janeiro de 1960 foi convidado para a chefia de reportagem, onde permaneceu durante 18 anos, sendo, também, diretor do departamento de jornalismo.
Prestou o serviço militar na Marinha de Guerra, após fazer prova no Centro de Instrução de Oficiais da Reserva da Marinha (CIORM), onde passou em 6o lugar. Fez curso de dois anos na Intendência da Marinha. Durante o curso, fez viagens pelo Brasil a bordo do Tamandaré e do Bauru. Formou-se em guarda-marinha, chegando a segundo-tenente. Aos 21 anos era oficial da Reserva da Marinha de Guerra.
Fez vestibular para Engenharia, mas não teve êxito. Inscreveu-se depois para Matemática, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Começou a atuar na política universitária, sendo eleito secretário-geral e depois presidente do Diretório Acadêmico Lafayette Cortes. Licenciou-se em Matemática (1958) e Pedagogia (1962), também pela UERJ, onde começara a lecionar (1958). Tornou-se Doutor em Educação em decorrência de aprovação no concurso para Livre Docente na cadeira de Administração Escolar e Educação Comparada (1964). Catedrático por concurso na UERJ (1968), tornou-se professor titular de História e Filosofia da Educação. É professor credenciado pelo Conselho Federal de Educação em Teoria Geral da Administração e Orçamento Empresarial.
Como diretor das Empresas Bloch (Manchete), esteve à frente do departamento de Educação, onde produziu mais de 100 livros didáticos e realizou diversos projetos de incentivo à pesquisa e ao hábito de leitura. Criou a Maratona Escolar de Literatura, destinada a alunos de 2o grau em todo o Brasil, que entre 1976 a 1987 levou estudantes do ensino médio a se debruçar sobre as biografias de grandes escritores brasileiros já falecidos.
Foi secretário de Estado de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (o primeiro da América Latina), de 1968 a 1971. Além de outras iniciativas na área da pesquisa científica, foi o criador do Planetário do Rio de Janeiro (1970) e membro do Grupo de Trabalho que estudou a viabilidade de implantação da Universidade Aberta no Brasil (1973).
De 1979 a 1983, foi secretário de Estado de Educação e Cultura do Rio de Janeiro. Exerceu também os cargos de Presidente da Fundação de Artes do Rio de Janeiro – FUNARJ; Presidente do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro; Presidente do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro e vice-chanceler da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Por seis anos (1986-1992), foi membro do Conselho Federal de Educação, onde atuou como seu representante no Grupo de Trabalho constituído pela Portaria Ministerial no 511, de 27.9.1988, com a finalidade de elaborar a Política de Educação à Distância; presidiu a Câmara de Ensino Superior durante três anos (1989-92) e coordenou o Seminário Nacional de Qualidade do Ensino, realizado em Brasília (1991). Nesse período, foi relator de 538 processos e apresentou 23 indicações, com temas essenciais, como a informática na educação, atendimento a superdotados e educação à distância. Em 1996, por decreto do presidente Fernando Henrique Cardoso, Arnaldo Niskier foi nomeado para o Conselho Nacional de Educação.
Estas atividades permitem-lhe enriquecer sua experiência de escritor. Sua obra na área da educação, até 1996, chega aos cinqüenta títulos. Os pronunciamentos feitos em nome da Secretaria de Educação e Cultura, suas propostas, como a da mudança da Lei 5.692/71, com relação ao ensino profissionalizante, bem como inúmeras realizações, dentre as quais a inauguração de 88 escolas, estão registrados nas obras O homem é a meta (1980), Educação é a solução (1981), Educação para o trabalho (1982) e Educação e cultura na imprensa (1983).
Em 1989, publica a obra fundamental Educação brasileira: 500 anos de história (1500-2000). Destacam-se também as seguintes obras: S.O.S. educação – Sugestões para a virada do século (1991), com propostas variadas para a solução da problemática educacional, muitas delas apresentadas no Conselho Federal de Educação com indicações e pareceres de sua autoria; Filosofia da educação: uma visão crítica (1992), onde registra os debates inspirados por aulas ministradas na Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e traça um roteiro dos elementos indispensáveis do que enseja modernamente a filosofia da educação; e LDB – A nova lei da educação (1996), onde faz a mais atualizada análise dos temas de sua especialidade e apresenta os resultados e propostas de Grupos de Trabalho que estudaram a situação do ensino no Brasil e nortearam a elaboração da nova LDB.
O interesse pelos temas da educação nacional e sua relação com a realidade brasileira são também o fundamento no seu trabalho de muitos anos no jornalismo profissional, área de comunicação que se amplia com sua presença na televisão, como no programa “Debate em Manchete”, na rede Manchete (foram 358 entrevistas, de 1985-1992), no programa “Frente a Frente”, na Rede Vida de Televisão, e nos comentários diários no “Plantão CBN”, do Sistema Globo de Rádio. O seu livro O diário da educação (1995) reúne 300 dessas pequenas crônicas sobre o cotidiano da pedagogia brasileira. Ao educador, professor, administrador e jornalista acrescenta-se ainda o conferencista inspirado, o debatedor atuante de assuntos variados, sempre relacionados com a melhoria da educação e da realidade brasileira em todos os sentidos.
Obras: Problemática da educação brasileira (prêmio Gustavo Capanema) (1964); Formas dinâmicas da universidade (tese) (1964): Formas dinâmicas da administração (tese) (1966); Cinco dias de junho (co-autor) (1967); Por uma política de ciência e tecnologia (1968); Brasil, ano 2000 (educação) (1968); Ciência e tecnologia para o desenvolvimento (1970); Estudos de problemas brasileiros (ciência e tecnologia) (1970); Rio, ano 2000 (co-autor) (1970); Administração escolar (1972); O impacto da tecnologia (prêmio Alfredo Jurzikowski, da Academia Brasileira de Letras) (1972); A nova escola (1972); Educação comparada moderna (1973); Nosso Brasil: estudos de problemas brasileiros (1973); O uso de tecnologias educacionais para a formação e aperfeiçoamento do magistério (monografia) (1976); A nova escola-II (1978); Educação, para quê? (prêmio Francisco Alves) (1980); O homem é a meta (1980); Vovó viu a uva (1981); Educação é a solução (O homem é a meta-II) (1981); Educação para o trabalho (O homem é a meta-III) (1982); Educação e cultura na imprensa (1983); Educação e cultura: da teoria à prática (1983); Educação: reflexão e crítica (1983); A nova educação: entre o coração e a máquina (1985); Administração da escola: uma gerência inovadora (1985); João Francisco Lisboa – O Timon Maranhense (1986); A nova escola-III (1986); Orígenes Lessa, o contador de histórias (posse no Pen Clube do Brasil) (1987); Educação para o futuro (1987); A hora do superdotado: uma proposta do Conselho Federal de Educação (co-autor) (1987); A informática na educação (co-autor) (1988); Ensino à distância: uma opção (co-autor) (1988); Por uma política nacional de educação aberta e à distância (co-autor) (1988); Amor à vida (1989); Educação brasileira: 500 anos de história (1500-2000) (1989); A escola acabou? (1989); S.O.S. educação: sugestões para a virada do século (1991); Filosofia da educação: uma visão crítica (1992); Educação em primeiro lugar (1992); Brasil de todas as idéias (1993); Tecnologia educacional (1993); Sabedoria judaica (1994); O professor universitário – Herói ou vilão (1994); Diário da educação (1995); Tragédia do ensino e outras crônicas (1995); Educação no Brasil (co-autor) (1995); LDB – A nova lei da educação (1996); Educação de trânsito (1996); Qualidade do ensino – A grande meta (1996); LDB, nova lei da educação (1997).

Educação, Estágio e Trabalho, obra lançada com o apoio do CIEE, contém ensaios sobre a relação empresa-escola
Como você avalia a integração entre universidade-empresa?
A.Niskier: Nos países industrializados isso é uma realidade constante. Existe um termo definido pelo escritor canadense McLuhan, chamado tecno-estrutura, que é a tríplice aliança entre governo, empresa e universidade. Em seus livros, ele defende que quando esse enlace é feito de forma inteligente e positiva, os resultados são altamente satisfatórios, gerando um ciclo: o governo estimula a integração, a empresa, com este estímulo, recorre às universidades, e estas, preparam os recursos humanos indispensáveis a qualquer processo de expansão econômica e social. Essa relação é extremamente necessária para a realidade brasileira.
Quais os principais desafios dessa integração no Brasil?
A.Niskier: Um pouco mais de compreensão em relação aos elementos vinculados a este tripé. O governo não se preocupa muito com isto, a empresa tem certa desconfiança em relação ao governo, principalmente, por causa dos impostos. Vale ressaltar que a carga tributária brasileira é uma das mais elevadas do mundo, chegando a alcançar 35%. Um índice absurdo. A universidade, muitas vezes, fica fechada nela mesma, como se fosse uma torre de marfim, não se abrindo para a sociedade com a eficácia que seria indispensável. Há necessidade de um movimento que una esses três elementos. Isto seria altamente proveitoso para o Brasil. Falta uma maior organicidade no ensino superior brasileiro para que ele esteja mais integrado às reais necessidades da cultura e do povo brasileiro.
O que deveria ser feito para melhorar a integração deste tripé: Governo, Empresa e Universidade?
A.Niskier: A ordem dada por John Kenneth Galbraith é governo, empresa e universidade. Os elementos têm importância nesta ordem. O primeiro movimento deveria ser do governo, mas este está meio enrascado quanto à reforma universitária, que tem mexido em alguns pontos polêmicos como a autonomia das universidades. É preciso que haja uma reforma universitária mais integrada. Infelizmente, os empresários estão acostumados a não acreditar nos governos e, historicamente, tem uma crença parcial no valor da universidade. Ao contrário do que acontece, por exemplo, nos Estados Unidos, na Suécia, na Finlândia e na Coréia do Sul. São paises que cresceram muito nos últimos 30 anos em função de uma compreensão adequada entre governo, empresa e universidade.
A universidade no Brasil, por ser recente, possui maior dificuldade nesta integração?
A.Niskier: Com toda a certeza. A universidade brasileira não possui nem 100 anos. Temos universidades do século XIV. Universidades tradicionais como a de Bologna, Salamanca, Oxford, Cambridge, entre outras. O peso da tradição é muito grande. Isso facilita a colocação destas universidades em se projetar para o futuro. O Brasil ainda está caminhando. O Brasil tem hoje cerca de 7 milhões de universitários. Proporcionalmente, este número é menor que Argentina, Chile e México. Temos condições de abrigar pelo menos o dobro, 14 milhões de universitários. Pesquisei isto durante toda a minha vida acadêmica na UERJ. Não se vê um grande movimento para que isso seja feito, mas teria que estar aliado com a qualidade do ensino, uma característica necessária. Infelizmente, a vida universitária hoje não se pauta pela qualidade, há muito a ser melhorado.
O que deveria ser feito para alcançar este número de 14 milhões de universitários?
A. Niskier: Tem que agir em duas vertentes principais: 1- aumento do número de vagas nas universidades públicas que, em geral, resistem ao horário noturno, com argumentos absurdos. 2- as universidades particulares tem que se convencer de que há uma classe média baixa ansiosa em ingressar nas universidades, mas que não tem recursos para pagar as mensalidades cobradas. Aumentar o número desta massa universitária é importante para assegurar o desenvolvimento auto-sustentável do Brasil.
Por que a falta de qualidade no ensino?
A. Niskier: Temos uma crise de qualidade no magistério. Os professores, de forma geral, são mal formados. Há universidades que pagam 12 reais por aula para um professor universitário. Isso é descabível. É preciso valorizar o professor na formação, no aperfeiçoamento e na remuneração. Assim poderemos ter um avanço muito grande no ensino brasileiro.

Para Niskier, A Educação à Distância pode contribuir para melhorar o ensino
Qual você considera o principal papel da universidade?
A.Niskier: A universidade tem que garantir ao país a existência de recursos humanos que atendam as suas necessidades de progresso. É o lócus onde deveria funcionar a meritocracia. Por exemplo, a Petrobras: a descoberta do Pré Sal estabelece um novo cenário, que demandará recursos humanos qualificados. A universidade tem que estar integrada para prover mão de obra qualificada.
Qual a sua visão sobre o tripé: Ensino, Pesquisa e Extensão?
A.Niskier: A constituição brasileira exige a indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão. O ensino de graduação precisa ser melhorado, como já dito. A extensão é a vinculação dos cursos universitários mais para perto da comunidade, atraindo-a para a universidade. Muito importante, por exemplo, no atendimento às demandas curtas e específicas exigidas no mercado de trabalho. No caso da pesquisa, o Brasil possui um número pequeno de cientistas, é necessário multiplicar isto geometricamente. Precisamos reconhecer oficialmente a existência da profissão do pesquisador. Até para ser tratado e remunerado de uma forma mais adequada.
Falta pesquisadores em todas as áreas do conhecimento?
A.Niskier: Não, isso varia entre as áreas. Na informática, por exemplo, o Brasil hoje é uma das referências internacionais. Está nascendo um movimento de valorização da programação. O Brasil está entrando nesta indústria de software, que fez a glória da Irlanda, da Índia, entre outros. Em termos de hardwares são 45 milhões de pessoas utilizando computadores. Apesar de a população ser de 200 milhões, este número é bem significativo, e avança continuamente. Há outros setores como: farmacologia, clonagem, células tronco, petróleo, polímeros, que o Brasil pode se desenvolver ainda mais, resolvendo o problema da demanda interna, exportando, fazendo com que a riqueza aumente e se assegure melhores condições de vida para o povo brasileiro.
Falta visão empresarial na universidade?
A. Niskier: Não diria falta de visão, mas sim, ignorância. Há, na maior parte, uma dissociação entre o que se faz na universidade, sobretudo na pesquisa básica, e o que acontece na prática com as necessidades empresariais. Esta dissociação é condenável. É preciso uma junção maior entre o que se está pesquisando na universidade e o que nosso país precisa. Uma forma mais inteligente de fazer uma associação da pesquisa básica, que se faz de forma desinteressada, e das pesquisas aplicadas, de finalidades tecnológicas.
Muito da crise das universidades deve-se a uma falta de integração com o ensino médio?
A.Niskier: Claro. No ensino médio há um fenômeno muito grande de evasão e repetência, e isto, em médio prazo, vai prejudicar a entrada dos jovens na universidade brasileira.
Qual a sua visão sobre o novo ENEM?
A. Niskier: Eu sou totalmente a favor da política que o ministro Fernando Haddad tem adotado. O projeto do ENEM é altamente criativo, e precisa ser estimulado. Pode ser o fim da “aventura” do vestibular. Há uma compreensão crescente do que ele representa. Com a implantação do ENEM, nós chegaremos, em pouco tempo, a uma solução ideal para a admissão do jovem na universidade brasileira.
Por que há tanto abandono de curso nas universidades brasileiras, inclusive públicas?
A. Niskier: O jovem tem necessidade de emprego. Tem que trabalhar para viver. A universidade tem que ser atraente e o diploma tem que ser uma necessidade indissociável para que ele possa alcançar um bom emprego. A partir do momento que isto não é uma realidade, ele busca caminhos alternativos.
É necessária cada vez mais uma formação universitária generalista?
A.Niskier: É muito importante. Recentemente, em visita que eu fiz a cinco high schools na região de New England, onde nasceu a civilização americana, constatei isso. Eles estão revendo os seus currículos para que se estude mais inglês, história, religião, filosofia. Humanizando o estudo. O individuo passa a ter uma formação mais completa, de cultura geral, ao invés de uma formação especializada, estreita, que marcou por um tempo a vida universitária americana. Nós temos que fazer o mesmo. Se o individuo não tem cultura, nem uma formação adequada, isto prejudicará, inclusive, o seu desempenho profissional.





