UNIVERSIDADE POPULAR ABERTA DO III MILÊNIO

Livro de Luiz Kaufmann, escrito em 1990, dá lições de gestão extremamente atuais para as empresas brasileiras. A formação estratégico gerencial nas universidades, ainda é um desafio na conquista do Passaporte para o Ano 2020

Em Entrevistas, junho 17, 2009 às 1:49 am

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ

 

  

Escrito em 1990, livro mostra desafios gerenciais atuais. Alteraria o título para Passaporte para o Ano 2020 e manteria o conteúdo

Escrito em 1990, livro mostra desafios gerenciais atuais. Alterando o título para Passaporte para o Ano 2020, o conteúdo continuaria o mesmo

Livro de Luiz Kaufmann Passaporte para o Ano 2000: Como Desenvolver e Explorar a Capacidade Empreendedora para Crescer com Sucesso Até o Ano 2000, escrito em 1990, demonstra total atualidade, quase 30 anos depois, no presente contexto brasileiro, indicando que há, ainda, inúmeros desafios a serem superados na capacitação estratégico gerencial das empresas, principalmente, na formação de novas lideranças universitárias executivas. Se mudássemos o título para Passaporte para o Ano 2020, lançando um novo livro, o conteúdo e os desafios seriam, praticamente, os mesmos.

Em entrevista exclusiva concedida ao universitário Marcelo Martins Guimarães, Luis Kaufmann fala sobre a importância crescente da Integração Universidade Empresa e da necessidade de formarmos profissionais generalistas e multifuncionais, antecipando a visão estratégico-gerencial de negócios. Segundo ele, “São escassos profissionais deste tipo. Ainda mais, recém formados. Desenvolver, inicialmente, esta visão da floresta, para depois, aprofundar-se nos detalhes das árvores, ainda é um desafio”. Com a atual crise econômica o mercado encontra-se em pleno vapor para Kaufmann que, através de sua empresa, a L. Kaufmann Consultores Associados, diz não se envolver e desenvolver mais projetos de consultoria por falta de tempo “se o dia tivesse 72 horas, daria para tentar atender as demandas de projetos que surgem, mas como só tem 24 horas, não é possível”. No auge dos seus 63 anos, tem buscado conciliar mais suas realizações individuais com as profissionais, administrando melhor o seu tempo, citando caso, contado por Jorge Paulo Lehman, em encontro com Warren Buffett, à época, recém considerado o homem mais rico do mundo, em que se dirigindo ao Lehman, disse: “Sabe por que eu sou o homem mais rico do mundo? (Retirou uma mini-agenda preta do bolso, abriu e mostrou para Lehman com os horários totalmente vazios) Porque eu tenho total controle de meu tempo” ”.

Kaufmann tem como inspiração o poema Instantes, do Jorge Luis Borges, que tomou conhecimento através de um amigo, na época em quefoi submetido a uma cirurgia cardíaca em outubro de 1989, e encontrou tempo e estímulo para escrever seu livro: “Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros,…Correria mais riscos, viajaria mais. Contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios”. Com a palavra, ou melhor, com as “previsões”, o executivo e consultor, que considera o valor de uma experiência inesquecível, Luiz Kaufmann.

Luiz Kaufmann: "Formação universitária generalista e  multidisciplinar é cada vez mais necessária"

Luiz Kaufmann: "Formação universitária generalista e multidisciplinar é cada vez mais necessária"

Qual sua visão sobre a integração entre a universidade e a empresa?

L.K.: A integração universidade-empresa precisa ser expandida fortemente, para que os universitários iniciem suas carreiras no mercado de trabalho, com uma formação mais adequada a realidade da vida empresarial. No meu caso tive o benefício de trabalhar em uma grande “escola” , que foi a Arthur D.Little. Em uma consultoria internacional, o profissional está permanentemente em contato e trabalhando lado-a-lado com pesquisadores, pensadores e especialistas dos mais diversos setores e áreas do conhecimento, para melhor liderar e gerenciar os seus projetos. Existe uma grande ligação entre conhecimento, expertise, reflexão e ação. Entre pesquisa e análise e tomada de decisão gerencial. A informação é necessária para uma melhor tomada de decisão. Nesse sentido, acredito que deveria haver uma relação mais próxima entre a universidade e empresa, – seria muito benéfica para ambos os lados. Para a empresa, que estaria constantemente se atualizando e aprimorando seus processos, e para a universidade que estaria diretamente ligada às questões empresariais, em nível de tomada de decisão, enriquecendo suas descobertas e seu arcabouço ,teórico de forma mais integrada. O que poderia ter um efeito multiplicador. Estou um pouco afastado da universidade, mas minha visão é que a Universidade, muitas vezes, fica à distancia da realidade empresaril, , desenvolvendo teses acadêmicas pouco relevantes, ou por vezes até inconsistentes com a realidade empresarial. Aquela famosa brincadeira: quem sabe faz, quem não sabe ensina..  O desafio é como conseguimos utilizar a capacidade de pesquisas e conhecimento nas universidades de forma integrada a realidade e necessidades das empresas.

A UFRJ está discutindo o Novo Plano Diretor (2010/2020). Está previsto a concentração de todos os cursos na Cidade Universitária (Ilha do Fundão). Busca-se com isso uma maior integração entre as diversas áreas do conhecimento e uma formação universitária mais flexível e interdisciplinar. O que acha disso?

L.K.: Acho de fundamental importância. O mundo está globalizado, é necessário que se tenha crescentemente visão global e mais generalista para ser competitivo. Apesar do grande avanço que tivemos na profissionalização das empresas brasileiras nos últimos anos, ainda são escassos os profissionais que possuam esta visão mais integrada. Eu mesmo se fosse voltar atrás em minha formação em engenharia industrial, e tivesse este grau de flexibilidade, buscaria fazer cadeiras em outras áreas, como: teatro, para se comunicar melhor, falar em publico, perder inibição; direito empresarial considerandoque noções , principalmente quando chegamos a cargos mais elevados na organização, e assim por diante.. Ter noções de finanças, planejamento, contabilidade, marketing, ou seja, entender os fundamentos básicos de uma organização. Comunicação. Comunicação é uma das grandes deficiências dos profissionais, principalmente a nível executivo, nas organizações. Uma boa capacidade de comunicação é essencial em todas as áreas.. Comunicar é um grande desafio. Adequar a linguagem para cada tipo de publico, de forma integrada. Acho que a universidade está no caminho certo em buscar uma formação multidisciplinar. É mais ou menos o que as grandes multinacionais buscam com seus programas de trainees gerenciais.

Por que considera a Arthur D Little sua grande escola?

L.K.: Depois de ter me formado em engenharia mecânica na Universidade Federal do Paraná, fui trabalhar em São Paulo na Serete Engenharia. Inicialmente exerci funções na área técnica. Fui fazer o mestrado em Métodos Quantitativos no Illinois Institute of Technology de Chicago. Quando voltei, fiquei responsável em implantar um Sistema de Informação Gerencial na empresa.Mesmo sem ter muita noção sobre planejamento, finanças, contabilidade fiquei responsável por sua implantação. Adquiri neste periodo sólida visão financeira, de planejamento e contábil. Minha formação não tinha me fornecido esses conceitos básicos. Depois desta experiência fui indicado para Diretor Financeiro da Serete e posteriormente convidado para ser diretor geral da Arthur D Little no Brasil, que buscava implementar-se e posicionar-se no Brasil. Foi uma grande escola, pois lidei com projetos dos mais diversos setores. De construção civil, telecomunicações, mineração, agropecuária, bancos, varejo, entre outros. Isto abriu a minha cabeça. Passei a ter uma visão mais estratégica e global dos negócios. Liderando projetos e equipes multifuncionais. Pessoas de diversas formações fazem parte da equipe: historiadores, biólogos, médicos, sociólogos. Não importa tanto a área de formação, mas sim suas habilidades pessoais, comportamentais, de liderança. Sem essa experiência na Arthur D Little, dificilmente, teria feito uma carreira executiva. Provavelmente seria um diretor da área técnica de uma empresa..  Outra experiência riquíssima em minha formação foi o programa patrocinado pela Associação Universitária Interamericana que selecionava, na década de 60, época da Guerra Fria, universitários com perfil de liderança para viajarem para os Estados Unidos, conhecer Washington, Nova York, Boston, intelectuais e personalidades diversas e fazer um curso de desenvolvimento econômico na Universidade de Harvard. Participaram também deste programa profissionais que viriam a ter destaque no Brasil como Pedro Malan, Marco Maciel, Cristovam Buarque entre outros (Foram 900 selecionados em 10 anos por Achim Fuersthental, psicólogo por formação, o mais famoso head hunter da época para multinacionais, responsável pelo processo de escolha dos bolsistas).

Quais projetos destacariam em sua experiência na Arthur D Little?

L.K.: Foram inúmeros projetos, de diversas áreas – Vale do Rio Doce, Unibanco, Alpargatas, Mendes Junior, etc..e finalmente o Banco Multiplic que foi o meu último cliente de consultoria. Dali fui convidado a ssumir a Direção Geral do grupo Multiplic, que também foi uma rica experiência. Foi a primeira instituição no país a ser gerenciada como banco múltiplo, antes da legislação permitir às instituições financeiras se organizarem sob essa forma. Eu era o coordenador do projeto. Depois fui convidado, em 1985, pelo Ronaldo César Coelho e o Antonio José, para assumir a direção geral da holding e a vice presidência do Conselho Diretor do Banco Multiplic. A Holding tinha a divisão financeira, divida em atacado e varejo. A divisão industrial. A divisão de mineração. A divisão agro-industrial. A divisão de outros negócios. Quatro anos após, em 1989, o grupo estava profissionalizado e estruturado e a sua principal empresa, o banco de investimentos, encerrava o ano como o maior banco do setor no país.

Como foi a sua experiência na Aracruz Celulose?

L.K.: Quando fui ser presidente da Aracruz Celulose em 1992, a empresa acumulava mais de US$ 1 Bilhão em dívidas. Estava numa situação financeira muito delicada após a queda do preço da celulose. Pagava juros de 33%. Tinha uma m entalidade de empresa paternalista, totalmente estatal, de baixa produtividade, sem foco em resultados. Implementamos um plano de ação em que foi feito um forte e rápido enxugamento de quadros. Reduzimos de 8000 para 2300 funcionários, aumentando a produtividade em seis (6) vezes. Direcionamos a organização totalmente para resultados, repensando toda a cultura anteriormente paternalista, introduzindo compensação variável e por desempenho. Terceirizamos funções secundárias. Eliminamos a burocracia. Redesenhamos a estratégia financeira e reconstruímos a credibilidade nos mercados financeiros com uma grande transparência. Lançou-se papéis na Bolsa de Nova York e captaram-se recursos a juros mais baixos no exterior para serem aplicados no Brasil, aproveitando as altas taxas de juros. A empresa passou a obter ganhos financeiros positivos e emergiu como uma das empresas mais saudáveis do setor, com 90% de suas vendas no mercado internacional. Foi uma rica experiência.

Qual a importância da comunicação e da transparência nas organizações ?

 

 

L.K.: Considero a comunicação um pilar fundamental para o bom funcionamento de qualquer organização. Tanto a comunicação com o público externo, quanto com o publico interno são essenciais para o sucesso das organizações. Infelizmente, poucas empresas têm dado atenção suficiente a este tema, que é tratado muitas vezes como algo complementar, sem ter importância estratégica. Um processo de comunicação transparente e consistente tem que permear toda a cultura da empresa no seu relacionamento com seus diversos públicos diretos e indiretos. Um forte departamento de Relações com Investidores, Assessoria de Imprensa, integrados diretamente com o CEO são fundamentais para atingir este objetivo, porém não suficientes. Um desafio é transformarmos gestores em comunicadores. Isso faz a diferença. Na comunicação externa é necessário que as empresas se aprimorem para serem mais competitivas e serem vistas com “bons olhos” por seus diversos públicos, incluindo investidores. Empresas que possuam características iguais, mas não sabem comunicar isso em benefícios para o mercado, não se diferenciarão. Os investidores estão cada vez mais exigentes. . Credibilidade é condição sine qua non para acessar os mercados, captar recursos junto à comunidade financeira e investidores nacionais e internacionais. Um processo de comunicação eficaz e descentralizado facilita com que as organizações se adaptem as mudanças e corrijam seus rumos, agilizando o processo decisório.

Quais os principais critérios de seleção de pessoal utilizados por você?

L.K.: Considero a seguinte escala nos critérios de seleção: primeiro, perfil pessoal, em especial caráter, transparência intelectual, transparência ; segundo, habilidades profissionais; e terceiro, habilidades acadêmicas.

Estabeleço como condições sine qua non no processo de seleção (reafirmando os critérios presentes em seu livro): caráter, integridade e lealdade. É necessário ter total confiança em quem contratar. Determinação e garra. Talento, iniciativa e criatividade. Respeito ao próximo. Vontade de aprender e capacidade de adaptação.

Utilizo como principal critério de seleção a realização de entrevistas pessoais diversas. É um procedimento muitas vezes falho. Muito importante o candidato ser entrevistado por várias pessoas de minha confiança. Quanto mais pessoas, de diferentes paradigmas e visões entrevistarem, reduz-se, apesar de não eliminar, as chances de erro. Referências, são também fundamentais.

Por que decidiu patrocinar o Corinthians quando foi Presidente da Medial Saúde?

L.K.: Este fato foi bem interessante, pois foi tudo decidido em menos de 24 horas. O Diretor de Marketing do Corinthians, Luiz Paulo Rozenberg, nos ligou perguntando se não queríamos patrociná-los. Só que teria que ser decidido naquele dia. Não tinha visão nenhuma sobre Marketing Esportivo. Ligamos para vários especialistas do ramo e decidimos patrocinar. Investimos 16,5 milhões, quase 80% de nossa verba total de marketing. Foi um excelente investimento, gerando grande visibilidade, exposição e retorno para a marca. Inclusive fora do Brasil. Diversos conhecidos comentavam que a marca Medial estava sendo vista e divulgada lá fora, devido ás transmissões de TV.  O retorno em mídia que a marca teve com o Corinthians foi acima de 1 Bilhão de reais..

Considera a Cultura do Banco Garantia um marco no Capitalismo Brasileiro?

L.K.: Sem duvidas, considero a cultura do Garantia um marco no capitalismo brasileiro. Cultura desenvolvida, principalmente, pela personalidade e brilhantismo do Jorge Paulo Lehman e do Marcel Telles.O primeiro, um grande estrategista e pensador e o segundo um espetacular executivo. Os pilares fundamentais do Garantia são: valorização extrema das pessoas, identificação de talentos e formação de novos líderes; meritocracia de resultados; e transformação dos funcionários em sócios. Estes pilares permeiam toda a cultura das suas empresas até hoje, mesmo na nova geração.

O Sam Walton, criador do Wall Mart e o Warren Buffett possuem bastante influência no perfil do Jorge Paulo Lehman.

L.K.: O Jorge Paulo tem o seu próprio estilo, não precisa copiar ninguém. Mas também tem a modéstia necessária para ver o que os outros fazem de melhor e absorver este conhecimento.

Em seu livro, o executivo do século XXI tem o perfil dividido em: 1- áreas de conhecimento (expertise), 2-características pessoais, 3-estilo gerencial e 4-experiência. Considera que as características listadas continuam as mesmas?

Expertise – Formulação de Estratégias, Administração de Recursos Humanos, Marketing e Vendas, Negociação e Resolução de Conflitos

L.K.: Manteria todas as habilidades e acrescentaria capacidade de investigação, de buscar informação (biblioteconomia). Enalteceria também a importância de vendas, que muitas vezes é vista erroneamente por muitos de forma preconceituosa. Capacidade de vendas é essencial para qualquer profissional independente da área.

Características Pessoais – Ético, criativo, entusiástico, mente aberta, inteligente, inspirador, enérgico, encorajador.

L.K.: O executivo, o líder, tem que servir de exemplo para a equipe. Não basta falar, tem que fazer. Considero todas essas características fundamentais.

Tem se discutido a forma de melhor avaliar as habilidades pessoais como critério de seleção para os vestibulares. Considera-se que muitas pessoas podem apresentar capacidade empreendedora, que submetidos a uma universidade teriam um efeito multiplicador superior a pessoas que apresentam maior conhecimento técnico e teórico, sem ter certo perfil. Como avalia isso?

L.K.: Acho extremamente positivo. Muitas universidades americanas já têm feito isso. Os processos seletivos empresariais já o fazem. Não basta apenas avaliar conhecimento técnico ou acadêmico. . Vejo positivamente este tipo de avaliação.

Estilo Gerencial – Planejamento de carreiras e sucessão; desenvolvimento gerencial; vincular remuneração a resultados; delegar autoridade; ser um grande comunicador.

 

L.K.: Mais do que nunca o executivo tem que ligar os objetivos individuais com os organizacionais. Buscar esta sintonia é fundamental. Apesar disso não ser possível em muitas situações, principalmente, as que envolvem reestruturações, intervenções externas, em que o conflito e a ansiedade são parte do processo..

Experiência- Submetido a turnarounds (gerenciamento de crises e situações complexas); experiência em diferentes negócios e áreas funcionais; experiência internacional e em fusões e aquisições.

L.K.: Considero que são experiências ótimas para a formação completa de um executivo. A minha atuação na Arthur D Little me forneceu essas experiências.As multinacionais em seus programas de desenvolvimento propõem isso.

 Similar ao que ocorre nas universidades americanas, fiz uma formação hibrida, com área de concentração major em Administração de Empresas (foco em estratégia e finanças) e minor em Comunicação. Qual sua visão sobre este tipo de formação? Como avalia que será visto pela diretoria das empresas e o mercado em geral?

L.K.: São escassos os profissionais deste tipo. Ainda mais, recém formados. Desenvolver, inicialmente, esta visão da floresta, para depois, aprofundar-se nos detalhes das árvores, ainda é um desafio. Demandam-se cada vez mais profissionais com uma visão generalista e multidisciplinar para atuar nas organizações.. No aspecto da formação universitária para desenvolver este perfil, quanto antes desenvolver esta visão mais global e integrada, melhor. Entender o todo e como as partes se relacionam e se integram ao todo é fundamental. Muitas vezesnão é necessário um conhecimento profundo, técnico especializado sobre determinado assunto. É necessário entendermos a lógica de determinado negócio para fazer as perguntas relevantes para uma tomada de decisão adequada. Ter uma sólida base teórica para atuar nas organizações é de grande importância, apesar de não ser suficiente. . É necessário cada vez mais preparo e formação para atuar em nível estratégico. Como disse, se tivesse oportunidade de voltar atrás e tivesse esta mobilidade de direcionar meus estudos para outras áreas, o faria com certeza. É um diferencial este tipo de formação. O mercado precisa e precisará cada vez mais de profissionais desse tipo. A universidade deve seguir cada vez mais este caminho multidisciplinar.

Fale um pouco dos seus projetos atuais?

L.K.: Atualmente, estou como presidente consultivo da Santelisa Vale, a segunda maior do setor sucroalcooleiro do país, estando responsável em recuperá-la e reestruturá-la. Está com uma divida de mais de 3 bilhões de reais. É o projeto de consultoria que estou mais envolvido atualmente. Neste período de crise, aumenta-se a procura pelos serviços da L Kaufmann Consultores Associados, se o dia tivesse 72 horas, daria para tentar atender às demandas de projetos que surgem, mas como só tem 24 horas, não é possível. Tenho participado e tendo sido convidado a participar do conselho de administração de diversas empresas.

E o poema Instantes, do Jorge Luis Borges, continua válido? “Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros,…” “Correria mais riscos, viajaria mais. Contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios”

L.K.: Sem dúvidas, este poema tem grande importância em minha vida, pois remeto ao período de grande dificuldade, que me submeti a uma cirurgia cardíaca, em outubro de 1989,. Quando tive tempo e estímulo para escrever o livro. Fiz uma parada para balanço. A gente se dá conta que a vida é efêmera. É um belíssimo poema. Tiro uma grande lição dele.

O Capiano Revolucionário Érico Magalhães, Diretor de RH da TV Globo: “A universidade tem que ensinar a pensar, falar e fazer”

Em Entrevistas, agosto 10, 2009 às 6:42 pm

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/ UFRJ


O Capiano Érico Magalhães, diretor de RH da TV Globo: "Nosso negócio é ShowBusiness. Formar profissionais que integrem estas duas visões é um desafio"

O Capiano Érico Magalhães, diretor de RH da TV Globo: "Nosso negócio é ShowBusiness. Formar profissionais que integrem estas duas visões é um desafio"

Com formação básica no Colégio de Aplicação da UFRJ, criado para ser um laboratório pedagógico e formador de lideranças brasileiras, Érico Eduardo Magalhães, atual diretor da Central Globo de Recursos Humanos pode ser considerado um Capiano Revolucionário, mais uma cobaia pedagógica bem sucedida do CAP UFRJ.

Pode parecer ousado e confuso, num primeiro momento, este universitário definir o Diretor da Rede Globo, responsável por RH, Recursos Artísticos, Planejamento e Controle, Finanças e Pesquisa de Audiência (Ufa! Quanta responsabilidade e função!) de tal forma.

Porém, explico. O livro Intelectuais e Guerreiros: O Colégio de Aplicação da UFRJ de 1948 a 1968, da professora Alzira Alves de Abreu, defende a paradoxal tese: o processo educacional do Colégio de Aplicação da UFRJ contribuiu para formar revolucionários que entraram na luta armada, a ponto de seqüestrarem o embaixador americano. César Benjamin, Cid Benjamin, Franklin Martins, Alfredo Sirkis, todos do CAP, são os mais conhecidos.

Infelizmente, ou felizmente, não é possível anexar esta façanha de seqüestrador, ao currículo de Érico Magalhães, o colégio tinha correntes mais moderadas, menos radicais, bem dividas entre os célebres jornais: A Forja, de cunho mais radical de esquerda, e A Voz, menos politizado. Será que a semente para o ramo de comunicação em seu perfil, foi plantada pelo envolvimento com estes jornais? Difícil responder.

Porém, é visível a influência dessa experiência do CAP, até hoje, em sua formação, “tudo que é conceito eu aprendi a pensar como o Colégio de Aplicação me ensinou” afirma ele, que entende que a universidade tem o papel de ensinar a pensar, falar e fazer.

Isto, o Colégio de Aplicação fez com Érico, que analisa planilhas da TV Globo, fundamentado em conceitos da Lei dos Grandes Números, aprendida em suas memoráveis aulas de física do professor Ancelmo, jogador de basquete, assim como ele, quando estudante.

Formado em engenharia civil pela UERJ, com mestrado em administração pela Puc Rio com a tese: Uma Metodologia de Planejamento para Empresa Pública: Teste no Setor de Processamento de Dados e pós graduação por Stanford, Érico nunca atuou como engenheiro, desenvolvendo sua experiência profissional, principalmente, na área de Planejamento e Recursos Humanos, na Serpro – Serviço Federal de Processamento de Dados (trabalhou junto com o atual reitor da UFRJ, Aloísio Teixeira) e na Mesbla, antes de ingressar na Rede Globo.

Nesta entrevista exclusiva, em sua sala rodeada de fotos de suas netas, este avô orgulhoso, vencedor do Prêmio Profissional do Ano ABRH-Rio 1994, retrata os desafios de recursos humanos nas emissoras de televisão, da integração entre universidade-empresa e, sem se dar conta, mostra seu grande perfil de educador.

Para ele, não há diferença entre o professor, o pai e o chefe, todos são comunicadores. Educar, em sua visão, é definido por Cícero: tirar a motivação do outro para o que se quer transmitir. Este cuidado fica claro em toda a sua fala, mais voltada para gerar reflexão, do que estabelecer determinadas verdades. A essência do processo educacional para ele.

Conheça um pouco mais deste eterno Capiano Revolucionário,  Intelectual e Guerreiro, mais uma Cobaia Pedagógica  bem sucedida, Érico Eduardo Magalhães.

"Hay que endurecer, sí, pero perder la ternura, jamás!" Em sua época de estudante do CAP UFRJ, o líder revolucionário Ernesto Che Guevara era uma grande influência de Érico.

"Hay que endurecer, sí, pero perder la ternura, jamás!" Em sua época de estudante do CAP UFRJ, o líder revolucionário Ernesto Che Guevara era uma grande influência

Como você avalia a integração entre universidade e empresa?

Érico: Esta dicotomia a universidade e as empresas ainda não conseguiram resolver. Se um dia o país apostar na educação como grau de alavancagem, as empresas e as universidades se virem como parceiros adequados para desenvolverem as suas estratégias, e buscarem jogar juntas, ao invés de separadas, será benéfico para ambos: universidade e empresa.

O que poderia ser melhorado pelas universidades?

Érico: Os professores e a universidade como um todo se dedicam menos do que deveriam ao mercado. Acham que vão se poluir, se se aproximarem das empresas. Nos Estados Unidos, as empresas financiam pesquisa pura e aplicada, buscando soluções e gente. Lá, a universidade não sobrevive sem a aproximação com as empresas. Eu estudei em Stanford e via como as universidades têm salvado os Estados Unidos, como foi na época em que a Europa era dominante. Esta capacidade de passar conceitos, passar valores, filosofia de cada uma das matérias, de cada uma das disciplinas, das profissões, ao mesmo tempo em que se aproxima da vida real e da realidade econômica, que é fundamental, seja através das empresas, do estado ou de ONGs. A sabedoria está em olhar para os negócios e para o futuro para que não ensine para o passado. Ensinar para o passado é um dos grandes problemas de nossa universidade hoje.

Qual você considera o principal papel da universidade?

Érico: O principal papel da universidade é ajudar os alunos e a sociedade a pensar, falar e fazer. Normalmente, temos dois blocos. As universidades que ensinam a fazer, e as que ensinam a pensar. A primeira gera, muitas vezes, os analfabetos funcionais, que fazem tudo através da repetição de técnicas, mas sem pensar. A segunda, filosófica demais, com excesso de conceitos. O grande desafio é o meio termo desses dois modelos. Pensar e fazer são partes da mesma moeda, eles não são diferentes. Eu vou para o pensar, mas não consigo executar? O intelectual que só pensa, ele pensa e escreve uma tese, um livro, uma música, faz uma partitura. A ordenação do nosso pensamento está na bíblia, e em qualquer filosofia humana. Pensar, falar e fazer. Pensamento, palavra e obra. Esta é a essência da vida.

Qual foi a importância da educação básica em sua formação?

Érico: Eu estudei no Colégio de Aplicação da UFRJ aqui da Lagoa, na época da ditadura. Era um colégio que ensinava exatamente isso: a pensar. E ele aplicava os conceitos na realidade, através de atividades extracurriculares. Eu lembro de um professor de física chamado Ancelmo que me adorava porque ele jogava basquete, e eu também jogava basquete no Botafogo. Ele durante os dois primeiros períodos ensinou a lei dos grandes números. A aula inteira era: “qual a distância do homem para a lua. Em quanto tempo uma formiga atravessa o deserto do Saara.” Até hoje, quando eu recebo uma planilha, na mesma hora analiso pela lei dos grandes números e, muitas vezes, digo se está correta ou não, sem fazer contas. Educar, em Cícero, significa tirar do outro a motivação para o que eu quero transmitir. O CAP me motivava para o estudo. Até hoje, eu como Diretor da TV Globo, tudo que é conceito eu aprendi a pensar como o Colégio de Aplicação me ensinou. Marcelo Madureira, César Benjamin, Cid Benjamin, Edna Palatinik, Ricardo Vilas, Mauricio Maestro, David Tygel, entre outros, foram de lá. Tenho boas lembranças.

Intelectuais e Guerreiros. Pedagogia do CAP UFRJ influenciou na formação de grandes líderes brasileiros. Cobaias pedagógicas bem sucedidas

Intelectuais e Guerreiros. Pedagogia do CAP UFRJ influenciou na formação de grandes líderes brasileiros. Érico foi mais uma cobaia pedagógica bem sucedida

Historicamente, o sucesso dos diretores de TV é decorrente de características inatas e intuição, ou de capacitação profissional?

Érico: Gestão você passa por ter visão, ter a estratégia e  gerir resultados através das pessoas. Ela sempre vai se juntar com duas características humanas: a capacidade de ter a intuição e as coisas que são inatas, até as técnicas que você vai aprendendo ao longo do tempo. Raros são os gênios, que conseguem ter somente um dos lados e serem bem sucedidos em todo o momento. Uma pessoa altamente intuitiva, mas que não utiliza nenhuma técnica de gestão de empresas, seja de TV, ou outra qualquer, encontrará dificuldades. Todos os grandes visionários, por exemplo, o Bill Gates: era de Harvard, criou o seu software num fundo de quintal, mas juntou-se logo com outro que tinha habilidades que ele não possuía para complementá-lo. Esta visão do extraordinário, dos intuitivos, normalmente é visão que se tem dos gestores de empresas nascentes. Após a fase inicial, mais heróica, visionária, a empresa adquire uma dimensão que é necessário estruturar-se. Igual a uma família, que passa de um para cinco filhos, terá que se planejar melhor e alterar o seu modelo de gestão para suportar esta nova realidade. Hoje é diferente. Não se gerencia mais TV como há 20 anos atrás.

Como conciliar visão artística com gerencial num mesmo profissional? Em outras palavras, como unir os pontos fortes do Boni e da Marluce?

Érico: Esta equação entre artístico e gestão vai sendo aprendida ao longo do tempo, avançando mais em um dos lados de acordo com o momento da vida. O Boni, por exemplo, era ultra intuitivo e criativo, veio do mercado publicitário, da Lintas, foi aprendendo visão sobre gestão, para ter condições de gerir uma empresa, e construiu/ catalizou, junto com outras pessoas, modelos de gestão que estão presentes até hoje na TV Globo. A Marluce, que gerenciava a empresa mais completamente, já que nem a área comercial e administrativa estava com o Boni, é psicóloga, se origina de Recursos Humanos e depois de ser consultora, entra na Globo, numa função similar a minha hoje. Ao longo do tempo, assume a Direção Geral e começa a dominar também o entendimento sobre a equação artística, aprovando projetos, grade, trazendo talentos para a programação. O seu gosto por artes plásticas, esculturas e sua sensibilidade de psicóloga fez com que se aproximasse do universo artístico sem grandes dificuldades.

Qual a especificidade de gerenciar o RH de uma emissora de TV?

Érico: É gerenciado com a mesma matemática de outras empresas, mas com contas diferentes. A matemática são os princípios de respeito, a forma de tratar todos os funcionários iguais, independente do nível hierárquico, estimulando o trabalho em equipe. Neste universo televisivo só se tem sucesso com trabalho em equipe. Não adianta ser um grande ator, se o câmera enquadra mal, a edição não é boa. Ser um grande jornalista, se não há sinergia entre a reportagem, as imagens captadas e a edição. Dentro da TV existem universos distintos entre os profissionais. Artistas são mais de 1500. Jornalistas são mais de 1000. Engenheiro de sistemas mais de 1000. Comerciais são mais de 500. Operários são quase 2000. Todos com visões bem diferentes.

Psicóloga Marluce Dias, ex-principal executiva da TV Globo e Hans Donner (talvez crie um novo visual grafico para este blog), na entrega da medalha do Guerrilheiro para o Érico. Por traz deste sorriso grandes idéias revolucionárias, capazes de sequestrar embaixadores

Psicóloga Marluce Dias, ex-principal executiva da TV Globo e Hans Donner (talvez crie um novo visual gráfico para este blog ou envie um estagiário do IMPA), na entrega da medalha de Guerrilheiro para o Érico. Cuidado! Por trás deste sorriso e destes braços de jogador de basquete há grandes idéias revolucionárias!

Qual a diferença entre as visões destes profissionais: artista, jornalista, engenheiro, comercial?

Érico: Faço a seguinte metáfora: 2 + 2 para um artista pode ser -100 ou +1000. O lado emocional costuma ser muito oscilante. Altos e baixos. Eles têm a capacidade de interpretar bandidos, mesmo sendo uma pessoa pura. Por exemplo, a Patrícia Pillar, fez a vilã da novela anterior, uma serial killer, e você achava que ela era assim, apesar de ser uma simpatia em pessoa. Para um jornalista, se você falar que 2 + 2 é igual a 4. Ele vai perguntar o porquê. Ele foi treinado para fazer perguntas, para buscar entender a verdade dos fatos. Para um engenheiro 2 + 2 é igual a 3,9 ou 4,1. Um engenheiro que disser que 2 + 2 é igual a -100 ou 1000, a TV sai do ar, o prédio cai. É mais esquemático, é mais preciso na comunicação. Para um comercial 2 + 2 é igual a 6. Para ele dar 33% de desconto e chegar em 4. É da natureza do comercial comprar mais barato e vender mais caro, seja  numa loja de departamento, ou numa agência de automóveis.

Qual o desafio das emissoras de TV, em termos de formação profissional?

Érico: Nosso negocio é Show, e é Business. O americano reduz muito bem para ShowBusiness. Toda vez que se vai para o lado do show, perde-se rentabilidade, se perde rentabilidade, não se tem condições de realizar o show. Se você enfatiza só rentabilidade, só resultados, ainda mais numa empresa de sonhos, que trabalha com o intangível, com a motivação e o imaginário de um cliente que ele mal vê, através de uma telinha, diferente do varejo que avalia in loco a satisfação do consumidor, você alcança resultados insatisfatórios, menos potencializados. O sucesso está em balancear esta equação entre o Show e o Business. Formar profissionais que integrem esta visão é um desafio.

É cada vez mais necessária uma formação generalista e multidisciplinar, ao invés de técnico-especializada?

Érico: Tem que ter um equilíbrio, não podemos ser absolutistas. A metáfora do Show Business cabe aqui também. Tem que ter capacidade de atender ambas as demandas. O problema é que não é isto OU isto, mas sim, isto E isto. As opções são mais cômodas dessa forma. A grande sabedoria do século XXI é sermos convergente: ser isto E aquilo.

É possível formarmos executivos de TV através das universidades?

Érico: A TV Globo é repleta de profissionais formados em universidades, mas de muito tempo de casa. A formação se dá aqui dentro. Na minha avaliação não terá mercado suficiente para as universidades se interessarem por produzir executivos de TV. Não tem demanda para uma formação especifica, o setor é oligopolizado. É preferível recrutar um jovem universitário e prepará-lo dentro da empresa. Normalmente, a sucessão vem de dentro. Tem que ter um tempo para conhecer a essência do negocio. É muito especifico, tem muito macete. Nós vivemos o segundo. O que afetar o vídeo atinge 90 milhões de pessoas. Por exemplo: A Ana Maria Braga passou mal e não pode apresentar o seu programa pela manhã. Fica um buraco no ar? Não pode. Se for uma IBM, adia o projeto. Aqui se vive o segundo, é uma cultura muito própria. Por isso que trazer um CEO da IBM ou NESTLE e colocar nesta indústria, dificilmente vai dar certo. Várias tentativas, aqui e no mundo, fracassaram. É claro que quem tiver a visão comercial, a visão artística e a visão do consumidor estará mais preparado para exercer essa função.

Como explicar que nos EUA desde a década de 60/70 temos formação especifica para dirigentes de cúpula de TV (Publisher:Comunicação+ Gestão) diferentemente do Brasil?

Érico: Nos Estados Unidos você tem mercado. Lá tem centenas de pequenas emissoras, milhares de produtoras independentes e um mercado gigante, pelo menos 11 vezes maior que o brasileiro. Lá tem mercado suficiente para absorver estes formandos. São milhares de projetos com uma enorme gama de profissionais independentes, terceirizados. Este formado é absorvido no mercado em atividades totalmente diferentes: vídeos, cinema, programas para tv aberta, fechada, vídeos institucionais, entre outros. Um profissional de programação trabalha para vários canais. O mercado publicitário brasileiro é de 15 bilhões de dólares, lá são mais de 150 bilhões. Formar pessoas para o entretenimento, tem que ser para uma cadeia de valor mais ampla. Enquanto ela não existir, não tem economia de escala que permita o surgimento destes profissionais no Brasil em grandes quantidades. Seria inviável economicamente.

Como você avalia esta minha formação experimental (cobaia pedagógica) em Administração de Empresas e Comunicação/ Jornalismo?

Érico: Entre o saber pensar como um jornalista, ou relações públicas, ou publicitário, de forma estanque, e ter uma visão equilibrada entre o conhecimento técnico da sua especialização com a visão de negócios é um grande avanço. Eu me formei engenheiro civil, que tem também seus graus de especialização, sem nenhum aprendizado em negócios.  Então se eu for jornalista, terei que saber como escrever bem um artigo, como apurar e responder as perguntas básicas do lead: o que, quando, como, onde, por que. Ao mesmo tempo, eu tenho que ter uma visão humanista, com sociologia, antropologia, filosofia, entre outras. Ter sólida formação cultural. Quanto mais um profissional ter essa visão do todo melhor. Esta visão integrada e de negócios é um diferencial.

Existem programas de trainees estruturados na TV Globo para formação de lideranças executivas?

Érico: Temos vários programas de trainees. Exemplo: na área artística, a pessoa se forma em direção e passa por um período como assistente de direção, aprendendo a ser diretor. Na área comercial tem um programa de trainee. Na área de jornalismo também.

Não é um programa de trainee institucionalizado como o nosso Programa Estagiar. Primeiro, porque não teríamos quantidade suficiente de vagas e, segundo, porque o aprendizado na TV, principalmente, da atividade fim é muito lento. Não se forma um autor para escrever uma novela das oito, antes de 15/ 20 anos. Um diretor antes de 15/ 20 anos. Na produção antes de 5/10 anos. Aprender sobre determinado produto, leva um tempo. Mas não igual a TV. A pessoa sai gerente de produto numa empresa de consumo e vai para uma no setor de serviços, e vice versa. Na TV é diferente. Por exemplo, na há 20 anos atrás, eu, Marluce e Tjerk Franken criamos a Pós Graduação em varejo específico para a Mesbla, que depois foi incorporada ao Coppead.. Foram formados mais de 300 executivos nesse curso. Executivos fantásticos para o varejo, que foram presidentes da Alpargatas, Sky, TVA, entre outros.  Na Televisão não é possível fazer isso, não tem mercado para comportar como no varejo. Vai para a concorrência.

Qual a sua visão sobre a obrigatoriedade do diploma em jornalismo?

Érico: Sou contra. A minha posição é: nós queremos o melhor talento, que certamente, terá passado pela universidade, mas só poder escrever em jornal, quem tenha passado pela universidade, é uma visão muito cartorial no Brasil. Eu posso ter talento para escrever para um nicho específico e o público achar o máximo. Nada me impediria, em termos técnicos, de escrever, expressar minha visão. É obvio que as empresas estruturadas não deixarão as universidades de lado. Mas buscam talentos bem preparados, e não o diploma em si. Isto também para outras áreas. No caso da Administração, o CRA, por que tem que ter um título de técnico em administração? O importante é estar preparado. No meu caso, sou engenheiro, tenho mestrado em Administração pela Puc Rio, pós graduação por Stanford em administração, e não posso exercer nenhuma função administrativa. A carteira do conselho é um aspecto secundário. Busca uma reserva de mercado disfuncional na dinâmica do mercado de trabalho.

Qual tem sido o papel dos cursos universitários na formação dos profissionais das emissoras de TV nas diversas áreas funcionais?

Área de Recursos Humanos e Administrativa:

Érico: Na área administrativa, de recursos humanos, são áreas que são obviamente demandadoras de recursos das universidades, porque as universidades ensinam o que é básico para qualquer indústria. Gente é semelhante para qualquer indústria e empresa. Os pressupostos utilizados de gestão de gente são os mesmos na IBM, Vale ou TV Globo. As questões financeiras e de tecnologia também. A matemática é a mesma, mas as contas são diferentes, ao lidar com gente. Normalmente um analista de sistemas é entrada na IBM. Um engenheiro, geólogo na Vale do Rio Doce e um artista na TV Globo. São negócios e culturas diferentes. A forma de recrutar, treinar, remunerar, motivar, desafiar, avaliar, serão distintas. Eu tenho para artistas um plano de carreira, uma estrutura de salários, compatível com a IBM e a Vale, porém, não igual, pois eu tenho sistemática e processos diferentes. Aqui, por exemplo: um ator participa da Malhação, faz uma ponta na novela das oito, é um sucesso, e já vai estrear na próxima novela. Isto em outros setores dificilmente ocorre.

Engenharia:

Érico: Neste caso engenheiros tem que vir da universidade, até pela certificação profissional. Este profissional se mantém sempre junto da universidade, instituições de pesquisa, pois pelo avanço tecnológico, tem que estar atualizando-se constantemente.

Jornalismo:

Érico: No caso do jornalista tem o Programa Estagiar, espalhado por todas as universidades. Recebemos 11 mil candidatos para 100 vagas. É 1%. Eu recruto matéria prima de qualidade da universidade, talentos, e treino para a televisão. Os universitários atuam como estagiários e não como mão de obra barata. Tem tutor, tem formação. Pedro Bial e Wiliian Álvares são alguns dos exemplos do Programa Estagiar.

Produção:

Érico: É quem faz a infraestrutura e coordena todos os recursos, colocando-os a disposição para o artista aplicar em seu trabalho. A área de produção tem sido composta, principalmente, por universitários da área de engenharia de produção. O diretor de produção é uma das funções mais importantes em artes cênicas. Nas indústrias é comparável com a logística e produção, que busca saber se os fluxos de produção são os mais econômicos para alcançar o resultado. Ele tem o orçamento na mão e o artista tem um sonho. Deste conflito sairá o produto que vai ao ar. O artista, diretor, autor, gostaria de fazer uma novela gastando 1 bilhão de reais por minuto, porém, só tem 100 mil. A produção faz essa intermediação. Nasceram lá no passado com os práticos, com poucos modelos de gestão, aprendendo no dia-dia, no improviso. Existia na TV e no rádio o contra regra, que foi até um personagem do Chico Anísio. Este nome porque ele fazia tudo contra as regras. Hoje, é altamente sofisticado, por computador. É totalmente a favor da regra, apesar do nome. Por exemplo: O Show do Roberto Carlos no Maracanã para 70 mil pessoas. Foram meses de planejamento para saber sobre a entrada do público, segurança, logística. Isto tudo é responsabilidade do profissional de produção.

Diretor de Programa:

Érico: Ele tem um duplo papel. É o responsável e o gerente do produto. É o intermediário entre o que o autor escreve, o que o elenco vai interpretar e o que a produção vai colocar à sua disposição. De todos os profissionais da área de entretenimento, ele é quem mais intermedeia o hemisfério artístico e o de produção. Quem formou esses diretores ou foi a sua experiência no cinema, ou na publicidade, ou principalmente dentro da TV Globo, onde temos a Oficina de Atores, a Oficina de Direção e a Oficina de Autores, que preparam os talentos descobertos no mercado para esta indústria da televisão. Não adianta atrair um talento do teatro, se você não treiná-lo porque a marcação é diferente. Teatro é a arte do corpo. A televisão é a arte do rosto, do gesto.  As universidades deixam uma lacuna na formação profissional deste perfil. A aposta da TV Globo foi montar escolas, universidades próprias.

Programação:

Érico: Ele interpreta o desejo do consumidor, do telespectador, e produz diretrizes para a área de criação de entretenimento e para a área de criação de jornalismo e esportes desenvolver produtos que ele gostaria de ver na grade. Ele faz isso através de pesquisa de audiência e de sua própria sensibilidade.  A TV possui dois clientes: o cliente que nos compra é o mercado publicitário: anunciantes e agências. Mas quem consome o nosso produto é o telespectador. Os anunciantes e agências só compram nosso produto porque atingimos o seu consumidor. Caso isso não ocorra, comprarão com outro. O mercado publicitário é tão importante quanto o telespectador e os projetos do criador. O mix destes três gera uma programação. Este profissional não é formado em escolas porque são muitas variáveis. Este tipo de pessoa não se forma numa única escola com a visão do todo. Hoje, no Brasil, com o advento da televisão fechada, aumentaram o número de programadores.

Carlos Alberto Serpa, Presidente da Fundação CESGRANRIO: “O autodidatismo é estratégico nos dias de hoje”

Em Entrevistas, janeiro 6, 2010 às 11:25 am

POR MARCELO GUIMARÃES

Universitário ADM/UFRJ

Carlos Alberto Serpa, presidente da Fundação CESGRANRIO: "O empreendedorismo é uma grande mudança ocorrida na cabeça das pessoas. Passam a adotar visão de patrão e não de trabalhador"

Carlos Alberto Serpa de Oliveira, possui graduação em Engenharia Industrial e Metalúrgica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1964) . Atualmente é Presidente da Fundação Cesgranrio, Diretor da Casa de Arte e Cultura Julieta de Serpa, Membro do Conselho da International Association of University Presidents, Presidente do Associação Cultural da Arquidiocese do Rio de Janeiro, Membro do Conselho Diretor da Faculdades Católicas (Associação Mantenedora da PUC/RJ), Primary Member da International Association for Educational Assessment e Consultor do International Linkages da National Association of State. Foi reitor interino, e vice-reitor da PUC Rio. A atuação da FUNDAÇÃO CESGRANRIO, criada em 1971, extrapola as atividades de seleção, pois se volta, também, para planejamentos e pesquisas sócio-educacionais; treinamento, reciclagem e aprimoramento de recursos humanos; promoção de congressos, seminários e simpósios nacionais e internacionais; consultoria organizacional/empresarial; entre outras.A FUNDAÇÃO CESGRANRIO tem como atividades principais: Avaliação; Mestrado em Avaliação; Capacitação de Professores; Certificação; Área de Pesquisa; Área de Saúde; Área social; Área cultural; Fóruns; Publicações; Vestibulares;Concursos públicos e/ou processos seletivos públicos. Conheça um pouco mais sobre a visão deste discípulo do Professor Newton Sucupira.

Quais os principais desafios enfrentados hoje pela universidade?

Serpa: A universidade brasileira vive hoje um momento das maiores contradições de sua história, porque antigamente formavam-se as pessoas para uma realidade praticamente estável. Tinha-se uma formação básica e profissional adequada a realidade do mercado de trabalho. Entre a investigação e a inovação, que é a aplicação no dia-dia, o tempo está cada vez menor. Antigamente, inventava-se algo, que era aplicado quarenta anos depois, hoje, em países desenvolvidos como o Japão, por exemplo, este tempo entre a pesquisa e a aplicação da inovação, às vezes, é de dois anos. Isso faz com que nenhum curso seja capaz de preparar para a realidade de uma empresa que tenha ciência e tecnologia como seu foco de ação. Hoje, pela dinâmica da realidade, a indissociabilidade entre a pesquisa, o ensino e a extensão, consagrada por Newton Sicupira, é mais que necessária. É inviável ensinar sem pesquisar, pois estará ensinando para um mundo diferente da realidade que o formando encontrará. O contexto mudou.

Esta mudança ocorre em todas áreas do saber?

Serpa: Isso é menos acentuado na área de ciências humanas e sociais, que possui uma estabilidade maior em seu núcleo central. Há mudanças de conceitos, dogmas, a maneira de encarar a realidade social, mas muda menos velozmente que a ciência e tecnologia. A filosofia, a sociologia passaram a ser mais valorizadas hoje, antes, eram considerados mais viagens intelectuais.  Hoje há profissionais utilizando esses conceitos no dia-dia. Os projetos de políticas sociais e públicas são bons exemplos de sua funcionalidade. Mas na ciência e tecnologia, a aplicação é mais visível.

O que a universidade deveria fazer?

Serpa: A universidade tem que dar uma forte base de educação geral, dos conceitos básicos, que não mudam facilmente. Fazer isso, estimulando que o formando seja dono de sua própria carreira, patrão de si mesmo no futuro. O empreendedorismo é uma grande mudança ocorrida na cabeça das pessoas, que passam a adotar visão de patrão e não de trabalhador. Essa é uma nova abordagem na universidade, uma modernização. Para isso, o ensino fundamental e médio devem mudar também as suas idéias. Necessitam de professores formados em nível superior em maior quantidade e qualidade com esta nova mentalidade. O professor deixou de ser uma figura respeitada, um ídolo, como antigamente. Hoje, o aluno olha o professor com grande desprezo, muitas vezes, desrespeito. A dignificação da carreira docente também é importante. O ensino básico e superior tem que caminhar juntos.

Quais as mudanças que ocorrem nesta integração?

Serpa: A universidade hoje ampara o nascimento de uma empresa. Essa nova relação tem trazido benefícios e avanços enormes para a sociedade. Esse conceito de incubadora de empresas é muito importante. Passou a ser a oportunidade de a universidade ir e voltar dentro da empresa, estreitando esse laço, e se aproximando da realidade. A parceria é um fenômeno do século XXI. Quem pensa que sozinho pode realizar alguma coisa está fadado ao fracasso. A complementação entre as pessoas, a unidade diante das diversidades, juntas, criam algo importante. Universidade e empresa devem ser parceiras. O incentivo fiscal, também, é importante para estimular as empresas a se envolverem em projetos ligados a pesquisa, principalmente, nas pequenas e médias empresas.

E as mudanças no corpo docente?

Serpa: O corpo docente mudou nos seus interesses. Antigamente tinha um foco muito voltado para a pesquisa pura, de professores de horário integral, pesquisadores, doutores. De repente, ocorre uma revolução, a empresa entra na universidade, a extensão adquire uma nova concepção, que antes era de mera prestação de serviços. Passamos a ter grandes saltos tecnológicos. A sociedade mudou, a universidade mudou, o perfil do aluno mudou.

O professor Newton Sucupira, quem definiu o conceito de pós graduação no Brasil, através do Parecer MEC 977/65, foi um grande influenciador de Serpa

Qual a sua visão sobre o estágio?

Serpa: A noção de estágio é um aprendizado muito mais importante que antigamente, pois faz parte integrante da formação do indivíduo que entrará no mercado de trabalho. Hoje, auxilia a adiantar o que vai ser o futuro para comparar com a teoria que você está recebendo no presente. Não para deter uma técnica, um instrumento para ser aplicado imediatamente, mas sim, para ampliar a visão sobre as possibilidades de realizações que podem ser feitas dali para frente, como se fosse a abertura de uma janela.


O autodidatismo é importante nos dias de hoje?

Serpa: O autodidatismo é estratégico nos dias de hoje. Será cada vez mais necessário e estará presente, crescentemente, na vida das pessoas. Atualizações formais, via pós-graduação, cursos de especialização, entre outras, não serão suficientes. Mudou a realidade do mercado de trabalho. Cada vez mais o lazer e o turismo crescerão. O tempo do trabalho no conceito de antigamente, de suor, de força, diminui nesse cenário. Educação e formação ganham importância cada vez maior. Tem que aprender a se renovar por si só. Aprender a aprender pelo resto da vida. Se for um engenheiro mecânico, por exemplo, tem que aprender sobre petróleo. E assim por diante.

Como “diplomar” esta auto-aprendizagem?

Serpa: Hoje, a própria dinâmica do nosso sistema educacional é no sentido de permitir que tudo aprendido na vida, e que não são ensinados no banco escolar, seja considerado como portfólio na sua formação. Por exemplo: Amador Aguiar e Magalhães Pinto. Eles aprenderam tudo que a vida pode oferecer, sem aprender em banco escolar. Ninguém reconheceu nenhum atributo acadêmico neles. Hoje poder ser certificado. A certificação permite isso. Buscar mais subjetividades. A certificação é a conseqüência prática da auto-aprendizagem, que é um fenômeno do mundo moderno, além de ser um fator de inclusão social.

A Fundação CESGRANRIO nasceu de uma associação pioneira de 12 instituições universitárias em 1971, que tornou possível a criação do Centro de Seleção de Candidatos ao Ensino Superior do Grande Rio

O que fazer para melhorar a relação ensino-aprendizagem?

Serpa: Promover a melhoria na formação do corpo docente, não tanto no sentido acadêmico, mas incorporando processos mais modernos, enfatizando-se mais a formação, e não tanto a informação. O velho conflito entre a pedagogia, como ato de educar, e o conteúdo, como ato de saber, de adquirir conhecimentos. Há pessoas que defendem que o professor numa determinada formação, deva ser bom, conhecer e dominar profundamente o assunto; há outras que defendem que mais importante que conhecer algo, é ter pedagogia para fazer o aluno aprender. Educar é tirar de dentro para fora. Vai trabalhar o interior. Ensinar no sentido de Instruir é o contrario. O ato de ensinar no sentido de transmitir conhecimentos é menos importante que o seu ato de aprender. Domina-se a visão de transmissão de conhecimento, ao invés de educador. Esta dicotomia entre ensinar e aprender vai à raiz de nossa educação. O processo fundamental no ensino-aprendizagem também é a auto- estima. Por isso também a importância da avaliação. O professor que reprova o aluno por 0,1 por exemplo, considerando apenas a avaliação naquele momento, é como cometesse um crime, pois acaba com a auto-estima do aluno, desestimulando-o. Gera alto índice de evasão e repetência, às vezes, desnecessariamente.


Formação multidisciplinar é cada vez mais importante?

Serpa:Acabou a especialização hoje no mundo. Tem que ser um generalista com grande capacidade de adaptação e visão multidisciplinar. A falta de orientação profissional nisto é um problema. As pessoas se especializam e ficam “bitoladas” naquilo. Os EUA foi o grande defensor disto. Até brincava-se, em  relação ao grau de especialização do engenheiro mecânico americano. Dizia-se que tinha o engenheiro de porca e o engenheiro de parafuso. Um não sabia mexer na porca e outro no parafuso, apesar de um não existir sem o outro. Essa é uma paródia para criticar o excesso de especialização. A realidade hoje é outra.

Qual a sua visão sobre o novo ENEM?

Serpa: Possui três características fundamentais: 1- interdisciplinaridade – na vida você não vai separar os conhecimentos, ele está integrado. 2- Não é uma prova básica de conhecimentos, busca avaliar as suas aptidões, as suas capacidades e habilidades. Buscar saber como você pensa, a sua capacidade de resolver questões, de interpretar. Isso é muito mais importante para a sua vida do que o famoso decoreba. 3- Tem um grande desafio de fazer um número de questões para garantir a universalidade dos conhecimentos a que o aluno foi submetido. Não acredito nesses meus 50 anos de vestibular, que algum instrumento seja forte suficiente para mudar o sistema de ensino. É um indicador para mostrar o que se espera que uma escola faça em relação ao ensino, tanto para cima, quanto para baixo. É um marco regulatório importante. Um bom sinalizador.

Liderança é aprendida?

Serpa: Liderança está dentro do indivíduo. O contexto faz com que aflore. Acredito que líder vem do berço, não tem como desenvolver artificialmente.

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